Helena

“Era tal meu desvario, que em uma manifestação estudantil com pedras e garrafas tive que buscar forças na fraqueza para não me colocar na frente de todos com um letreiro que consagrasse minha verdade: Estou louco de amor” (Memória de minhas putas tristes, Gabriel García Márquez).

 

Helena é operária de uma metalúrgica multinacional. Começou na fábrica bem moça, depois de se formar em um curso técnico. No princípio só pensava em trabalhar bem e ganhar o seu dinheiro. Logo percebeu que isto não bastava. Pessoas tão boas quanto ela eram demitidas simplesmente por falar numa assembleia. Acidentes aconteciam e a culpa sempre era do operário, nunca da falta de equipamento de segurança. 

Helena tinha os olhos furtivos e perspicazes. Foi observando sua rotina de apertar parafusos e, muitas vezes, sentia-se tão máquina quanto as que manipulava. Lembrava-se de uma charge que viu no jornal do sindicato: um operário dizendo que, quando se aposentasse, iria até o final da esteira ver o que é que fabricavam. Começou a participar das assembleias e prestar mais atenção. Seu sindicato era combativo e lutador. Ofereciam cursos de formação e foi aprendendo sobre a tal luta de classes. Compreendeu que a engrenagem da fábrica se estendia pela sociedade. Que seu patrão não tinha um rosto, mas vários, e distantes. Rostos que manipulavam muitos e muitos como títeres numa esteira gigante. Consciência. Na fábrica, a palavra democracia carecia de sentido. Reinava era ditadura. Mais parecida com hospício ou senzala.

Participou de comissão de fábrica, foi delegada sindical e da Cipa. Assim, sua demissão era sempre adiada. Percebeu também que seus companheiros lutadores precisavam aprender que, além de exploradas como trabalhadoras, as mulheres eram oprimidas como gênero. Outra luta grande que se estendia pela fábrica, pelo sindicato, pela vida.

Helena gostava muito de ler. Marx, Trotsky, boletins sindicais, para compreender a realidade e se armar. Romances, contos, poemas, para entender pessoas, vida em sociedade e para seu conforto. Seus pensamentos estavam sempre construindo um novo modo de vida, um mundo novo, onde todos participassem da construção da riqueza e de sua distribuição. Gastava horas imaginando como seriam as escolas, o lazer, o transporte. Entre parafusos, esteiras, assembleias, conversas, ia preparando um mundo futuro.

Estava só. Tinha morado com alguns caras. Transas ocasionais. Casos esporádicos. No geral, homens machistas ou intimidados por sua força e perspicácia. Helena foi desacreditando que encontraria alguém que conjugasse o verbo trocar.

Até que, no ônibus fretado, às quatro e meia da manhã, prestou atenção num jovem recém-contratado. Ele, falando sobre a assembleia que aconteceria devido a tentativa da empresa em terceirizar setores. Ela até achou graça na inocência dele. Aproximou-se. Foi explicando que esse tipo de assunto era dito na surdina. Poderiam entregá-lo ao chefe e sua demissão seria certa. Ele, ingênuo, teve dificuldades em perceber o cenário. Então, todos os dias no fretado, Helena ia desvendando as arapucas de uma fábrica. Ele atencioso e esperto. Pegava rápido. O dia se preparando e eles se compreendendo. Na assembleia, ele quieto, ouvindo sua companheira, que agora, era dirigente sindical. A greve foi votada.

No meio de assembleias diárias, convencimento dos trabalhadores, enfrentamento com a polícia, entrevistas para a mídia, Helena e ele foram se conhecendo. Falaram de suas histórias pessoais, fizeram confissões, trocaram angústias, delinearam futuros. 

A greve conquistou algumas das reivindicações numa negociação bastante dura. Helena e ele conquistaram uma espécie de mundo novo: estavam loucos de amor.

Léo  

9 comentários em “Helena

  1. Estar louco de amor, para muitos não é amor… Tenho minhas dúvidas… Mas, a prática me ensinou que nas poucas vezes que ‘enlouqueci’ de amor, em geral, me dei mal… Por isso, meu amor atual,nos 20 anos de tempo é mais racional, nem por isso, menos intenso… Mas, experiências são pessoais, logo…

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