Noite na Taverna

“Aspirações, a vida mesma vão-se na rapidez de uma corrida, onde todo esse complexo de misérias e desejos, de crimes e virtudes que se chama a existência se joga numa parelha de cavalos!” Noite na Taverna, Álvares de Azevedo.

Este livro tanto tempo em minha estante… De súbito, o abro. Não, o devoro: Noite na Taverna, Álvares de Azevedo, Editora Ediouro, 1997.

Adonias Filho, na apresentação, diz que este livro “não seria escrito fora do romantismo, poderá ser verdade, mas é o gênio de Álvares de Azevedo que o sustenta em sua duração no grande processo renovador da literatura brasileira” (p. 5). No primeiro capítulo, Uma noite do século, quatro homens em uma taverna embriagados – “Espiritualista, bebe a imaterialidade da embriaguez!” – travam uma discussão filosófica. Alma? “a imortalidade da alma? pobres doudos! e por que a alma é bela, por que não concebeis que esse ideal possa tornar-se em lodo e podridão, como as faces belas da virgem morta, não podeis crer que ele morra?” (p. 14). Vida? “a vida não é mais que a reunião ao acaso das moléculas atraídas (…)”. Deus? “crer em Deus!?… sim! como o grito íntimo o revela nas horas frias do medo, nas horas em que se tirita de susto e que a morte parece roçar úmida por nós!” (p. 15). Ciência? ” a ciência é falsa e esquiva, que ela mente e embriaga como um beijo de mulher” (p. 16). Poesia? “Meio cento de palavras sonoras e vãs que um pugilo de homens pálidos entende, uma escada de sons e harmonias que àquelas almas loucas parecem ideias e lhes despertam ilusões como a lua às sombras… Isso no que se chama os poetas” (p. 48).

Embebidos nesta visão pessimista, cada qual conta sua historia, um conto em cada capítulo. Álvares de Azevedo poeta, “e poeta ainda quando escreve os contos” (p. 6). Adonias Filho os chamam de fantásticos de fundo trágico. Eu diria de terror, sobrenatural: cadáveres povoam todas as páginas, canibalismo, rapto, traições, orgias, libertinagem, incesto. Narradores homens, a mulher é que sempre desencadeia os fatos, e mais como vítimas. A morte e vida num duelo constante. O amor, não como salvação, e sim tragédia. Crueldade encoberta com pura poesia.

” (…) compreendemos afinal porque em ‘Noite na Taverna’ se abriga um reino. Um reino que não é encantado”, como afirma Adonias filho. Estes homens narradores são perseguidos pela memória. “O encontro na taverna, à noite, não acontece por acaso. Todos se embriagam, todos têm uma estória maldita, é o demônio – o demônio goetheano – quem puxa as redes do inferno” (p. 8). Das tragédias, os narradores são sobreviventes, porém mortos-vivos cheios de remorso e culpa.

Mas salva está a literatura. Este poeta constrói grandes imagens: “Quando as nuvens correm negras no céu como um bando de corvos errantes, e a lua desmaia como a luz de uma lâmpada sobre a alvura de uma beleza que dorme, que melhor noite que a passada ao reflexo das taças?” (p. 13). A poesia dá o ritmo das narrativas. Li em voz alta este grande poema. Deste poeta que morreu tão moço, aos vinte anos.

Como escreveu outro poeta, Walmir Félix Ayala, “a poesia é necessária para o contato do homem com o mistério que o rodeia. Este enigma a que o homem se lança, este dualismo de vida e morte entre cujos extremos tantos imprevistos florescem”.

De qualquer forma, brindemos, como os narradores na taverna, ao deus Baco: “Ao vinho! ao vinho!”

Léo

Um Machado!

Para Luciano e Viviane.

 

“os fios invisíveis do meu poema” Poeta chileno, https://macalderblog.wordpress.com

 

Ítalo Calvino, Por Que Ler Os Clássicos, nos lembra que “o dia de hoje pode ser banal e mortificante” e que a leitura dos clássicos nos rende um olhar para trás e para frente. “É clássico aquilo que persiste como rumor mesmo onde predomina a atualidade mais incompatível”. Machado de Assis é um clássico. 

No romance Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado começa com uma dedicatória  “ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver…”. O narrador é um morto: “(…) eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor (…)”. Com esta artimanha vai destrinchando a sociedade brasileira do século XIX, hipócrita, escravagista, patriarcal. Inovador na forma e crítico com muita ironia e graça. Dom Casmurro, o narrador é que é posto em xeque. Narrado em primeira pessoa, Bentinho, o dom Casmurro, denuncia a traição de Capitu, sua esposa. No século XX, as feministas fazem outra leitura questionando se o narrador é confiável. Traiu ou não traiu vira uma grande polêmica. O que fica é a maestria do autor em te dar munição para uma e outra hipótese. Só temos a voz do “traído”, Bentinho é o ponto de vista; Capitu não fala. E Capitu, que grande personagem: “Olhos de cigana oblíqua e dissimulada”. Olhos de ressaca. Eu sou mais a Capitu: forte, audaciosa, sabe bem o que quer. Bentinho é fraco, ressentido. Machado transforma um tema tão antigo na literatura, o adultério (ou suposto), em obra prima.

Nos contos, Machado de Assis é fabuloso.  Missa do Galo é doce como o primeiro amor. Um jovem de dezessete anos à espera da missa da meia-noite, vê-se com uma mulher de trinta anos, dona da casa em que está hospedado. Lendo Os Três Mosqueteiros ” trepei ainda uma vez ao cavalo magro de D’Artagnan e fui-me às aventuras”. Sua aventura é Conceição, “arrastando as chinelinhas” e que “tinha um ar de visão romântica”. “Uma dessas vezes creio que deu por mim embebido na sua pessoa”. Porém nada acontece, a sedução fica nas entrelinhas. A Cartomante, o narrador nos conduz por um caminho místico – começa citando Hamlet, “que há mais coisas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia” – e zás… dá uma rasteira no leitor. Frei Simão, é história de um frei tido como “gênio solitário”, cercado de respeito e veneração, que ao morrer, profere suas últimas palavras: “Morro odiando a humanidade”. E em Aurora Sem dia, Machado destila sua ironia cáustica em Luís Tinoco, “um rapaz de estatura meã, olhos vivos, cabelos em desordem (…) (que) possuía a convicção de que estava fadado para grandes destinos”. O narrador faz o que bem quer com este personagem que “acorda escritor e poeta” e “não dormiu sobre louros imaginários”. Nem a glória veio quando se mete na política: “queimou suas asas de poeta” e : “Estou disposto a acudir à voz do destino (…). A politica chama-me ao seu campo”; mas “a erudição política de Luís Tinoco era nenhuma”.

Por que falo em Machado de Assis? Entre tantos argumentos, valho-me da atualidade de “dias mortificantes”. Dias em que a Secretaria de Educação de um estado brasileiro, Rondônia, teve a petulância de divulgar uma lista de 43 livros que deveriam ser recolhidos das escolas públicas do estado. Não num ato isolado, e sim fazendo coro com as premissas do governo central. Censura por serem obras inadequadas. Dentre os autores, Machado de Assis. A “caça às bruxas” não vingou, grita geral. Dias também em que o pobre e preto e trabalhador é vítima de um verdadeiro genocídio e encarceramento no país. A polícia se acha no direito de parar numa blitz, sumir, prender, ou matar pessoas negras, seguindo uma cartilha da política geral. Machado de Assis era filho de uma lavadeira e de um pintor de parede. Machado de Assis era negro.

O povo pobre e preto constrói sua história tecendo com fios invisíveis seus poemas. Machado é um exemplo.

Que o machado seja nossa ferramenta para destruir esses dias mortificantes.

Léo. 

João Antônio, essa “ave noturna”.

"Vive-se.
Se se é uma chaga viva, nervo exposto, tontice. Ninguém vê. 
Meu trabalho tem sido, quando presta, disfarçar isso. (...).
Nelas (as noites), expludo". João Antônio.

 

João Antônio vem na esteira de Lima Barreto. Acrescento que sua escrita me lembra Graciliano Ramos. Antonio Candido dá a letra: “João Antônio cria uma espécie de normalidade do socialmente anormal, fazendo que os habitantes de sua noite deixem de ser excrescências e se tornem carne da mesma massa de que é feita a nossa. O seu submundo é um mundo como outros” (Melhores Contos, João Antônio, Editora Global, S.P., 2001, verso da capa). “Calculem”.

Grande contista. Percorre ruas, bairros, favelas, becos, de São Paulo e Rio. Mostra os tipos, não como observador, como um deles. As gírias, o dia a dia da língua da malandragem, vão ganhando tom poético. O submundo é um poema a céu aberto. Escancarado. Se o esgoto cheira mal, ele mergulha. Furioso, mostra os desdentados, famintos, “tudo gente de sonho caído” (p. 195). Os cortiços e barracos pintados com a paleta de cores de um Portinari. “Um caldeirão” (p. 136).

Merdunchos mergulha no mundo da sinuca: “Então, a sinuca sempre caminhou assim como um troço esquecido. Quando realmente ela representava a concentração de um tipo que fica muito próximo do marginal, que é o lúmpen, o cara marginalizado mesmo” (p. 91). Um “lugar lúdico” que escapa ao intelectual, com caras que só achava graça em beber cerveja dentro de um salão de sinuca. “Porque ali via alguma grandeza na vida” (p. 94). Em Visita – lindo – arremata: “O mundo de dimensões do pano verde de uma mesa de sinuca” (p. 125).

Paulinho Perna Torta vasculha recantos e  bocas-do-inferno de São Paulo. Os tipos. Como Laércio Arrudão: “E foi lá. Engraxando lá uns tempos (…), que eu conheci, bem ajambrado e já senhor, no terno claro de brilhante inglês, que fazia a gente olhar, mão luzindo um chaveiro e dentes brancos muito direitinhos, um mulato muito falado nas rodas da malandragem, professor de picardias, dono de suas posses e ô simpatia, ô imponência, ô batida de lorde num macio rebolado! Laércio Arrudão” (p. 137). Que ensina: “… quem gosta da gente é a gente. Só. E apenas o dinheiro interessa. Só ele é positivo. O resto são frescuras do coração” (p. 127). Paulinho com sua “magrela”: “Atravesso essas ruas de peito aberto, rasgando bairros inteirinhos, numa chispa, que vou largando tudo para trás — homens, casas, ruas. Esse vento na cara…” (p. 139). “Lá dentro, faço mil e umas, acabo me esquecendo de dar um pente nos cabelos”. Paulinho, de engraxate, sem casa pra morar, “aprendi carteado, faço trapaça, marmelo, sociedade e qualquer negócio. Tenho vocação” (p. 153). “Cresço a galope. Aos vinte anos, a crônica policial já me adula. ‘Perigoso meliante’. Trouxas…” (p. 154). O conto me lembrou  Paulo Honório, S. Bernardo, Graciliano Ramos.

A Lapa Acordada Para Morrer. “Quando o oitocentismo começou a desmaiar, a Lapa deu uma guinada. Começou a acender as suas luzes de boêmia, amante e malandra” (p. 103). Desbrava toda a história desse bairro carioca. Seu código na noite: “– Bala não se perde na Lapa e também não erra o destino” (p. 109). Lapa de Manuel Bandeira, do atelier de Portinari. “Chico Alves ali principiou carreira (…)” (p. 102). “Pixinguinha começou suas apresentações aos quatorze anos, ainda de calças curtas, tocando flauta (…). Heitor Villa-Lobos fez suas primeiras composições no leito da Lapa, no teclado de velhos e encrencados pianos das hospedarias francesas” (p. 103). “Um malandro maldito, contudo, continua a ser a mais curiosa e independente figura da Lapa de todos os tempos. Madame Satã misturava valentia, ousadia, toxicomania e sodomia (…). Era um cordeiro entre os malandros, mas reagia como um demônio diante da polícia (…)” (p. 104). Fala ” (…) de uma Lapa que não existe mais e, quando muito, imita a si mesma, olhos compridos no passado” (p. 105-6).

Quisera escrever um conto com João Antônio como personagem…

Vai, ave noturna, “malandrando os seus dias”, e faz do céu um alvoroço.

Léo

 

 

 

Boneca Russa

“Queria chegar perto do livro, ele queria. Mas por quê? O que era um livro? Folhas em branco salpicadas de palavras pretas” Raimundo Carrero.

 

” Caro leitor, esperamos sinceramente que tenha comprado este livro, em vez de apenas folheá-lo. Se não comprou, aceitamos que o tenha roubado (…)” (p. 5). Assim os editores nos apresentam [dentro de] um livro/contos ( Casa da Palavra, RJ, 2005). E vão mais longe. “(…) ficaremos satisfeitos com nosso trabalho quando um leitor fechar o livro e abrir em si a vontade de escrever mais um conto” (p. 6). O livro traz laudas seduzindo o leitor para o redemoinho. Rompe a linha imaginária entre escritor e leitor. Boneca russa. Assim como a capa: um livro dentro do livro num “jogo infinito” (João Paulo Cuenca).

Fui procurar no dicionário a palavra mais adequada para o que estava sentido ao ler cada conto. Dicionário – que com palavras explica outras palavras, também num jogo, uma boneca russa. Alumbramento: inspiração, iluminação, deslumbramento. Não. Catarse: purgação, purificação, limpeza. Não. Arrebatar: encantar, enlevar, extasiar. Isto! Senti-me arrebatada por este livro que fala de livro, pois cada conto tem o livro – a escrita, o escritor, o leitor – como fio condutor.

Dentro de um livro encontrei Lygia Fagundes Telles, Verde Lagarto Amarelo. Dois irmãos. Um “Era bonito, inteligente, amado, conseguiu sempre fazer tudo muito melhor do que eu (…) E me trazia a infância, será que ele não vê que para mim foi só sofrimento?” (p. 17-12). Outro, “E então? Natural que esquecesse o irmão obeso, malvestido, malcheiroso. Escritor, sim, mas nem aquele tipo de escritor de sucesso (…)” (p. 17). Mas… “Não, não é possível (…)” (p. 21). Raiva. Tantas Pernas de Raimundo Carrero é doce. Um garoto descobrindo seu primeiro amor, o livro. “O que significa um livro muito bom? Surgiram as palavras negras. Palavras que brilhavam, amadas – mesmo que naquele instante não soubesse o que era amor” (p. 25). Xico Sá, O Homem Que Odiava Os Livros, e A Mensagem de Luis Fernando Verissimo, dei muita risada. Nomes, Heloisa Seixas – que não conhecia, experimentei a dor, a dor de três nomes. “Três almas destroçadas, três homens vivendo açoitados por terrores, misérias, por fantasias proibidas” (p. 43). E o narrador que se transforma em cada um e em todos eles: “Eu também sou assaltado pelos mais abjetos pensamentos, tenho as noites pejadas de imagens que me torturam”. Fruto de dores, a mesma saída, a escrita.

Gonçalo M. Tavares, angolano radicado em Portugal, mostra O Medo De George Steiner: “Como era ridículo aquilo: NINGUÉM receia um verso. Mas ele sim” (p. 49). Marcelino Freire, absolutamente irônico, trava um duelo entre os vivos e um quase morto – durante o chá – na Academia Brasileira de Letras. Sim, nem ela escapa. “Todo mundo já está de olho na cadeira dele” (p. 54). Antonia Pellegrino quer dar para um autor, em Estética. “Quando eu resolvi dar pro Adam, eu estava apenas pensando em mim” (p. 85). Afinal, “desconfio de quem não pensa putaria o dia todo” (p. 83). O livro como gatilho, porque sexo “exige empenho, técnica, imaginação” (p. 84). 

Assim as páginas – camadas desta boneca russa – vão nos trazendo todos os sentimentos, as emoções, que este amor compartilhado, o livro, é capaz de proporcionar. Como Cardoso, Abjeto Abigeato, descreve tão bem. Ele e o livro, amantes, num ato sexual: “Pois me enamorei, em AGOSTO, dum LIVRO que encontrei por aí” (p. 69). “Pesava um bocado ENORME sobre o meu peito quando deitamo-nos,os dois, no chão da biblioteca” (p. 70).

“Oh, artifícios, flocos de neve e aurora: eu estava AMANDO” (p. 70).

dentro de um livro
Capa do livro

Léo

Contos e insultos

“Moro dentro do tema” Ferréz

 

Os adjetivos da literatura me incomodam: culta, popular, marginal. Parecem mais preconceitos de classe travestidos. Aprendo com Balzac que escancara a sociedade burguesa em formação da França do início do século XIX. Aprendo com Ferréz que “traz à luz tudo aquilo que a sociedade colocou na sombra de modo natural, simples e cruel” (Paulo Lins).

Ninguém É Inocente Em São Paulo (Editora Objetiva, RJ, 2006), de Ferréz, desnuda o cotidiano de Capão Redondo – bairro da periferia de São Paulo – através de “contos e insultos”, como ele mesmo os apresenta. Não se restringe à denúncia. Em Fábrica de Fazer Vilão, denuncia, desabafa, e é reflexivo:  ” (policial) É o seguinte, por que esse bar só tem preto? / Ninguém responde, vou ficar calado também, não sei por que somos pretos, não escolhi” (p. 12). Amostra de um país que encarcera e mata pobre e preto. Como em O Plano: “Os pés descalços, sujos como a mente da elite (…) essa porra é ou não é uma guerra?” (p. 15). É lírico: ” (…) eu quero mais, quero regras complicadas, quero traços que tragam uma época que talvez não vivi, mas sinto, quero palavras que gerem vida (…)” (p. 16). Ensina: “Quem gera preconceito é só quem tem poder (…)” (p. 17). “Morar em periferia sempre me prejudicou, esgoto, bebedeira, tiro, e principalmente para se candidatar a algum emprego. É do Capão? Então não emprega” (p. 17).

O conto O Grande Assalto é muito bom. “Avenida Santo Amaro. Às 13 horas. Um homem malvestido pára em frente a uma concessionária de automóveis fechada e nota as bolas promocionais amarradas à porta” (p. 23). É insulto aos preconceitos explicitados pelos que passam pela cena: policial, uma senhora sentada no banco do ônibus, um senhor que passa pela calçada. O homem malvestido retém em si os olhares de uma sociedade doente que já não consegue prever o lúdico. Buba e o Muro Social, o narrador é um cachorro que transita do mundo rico para o mundo do próprio escritor: “um cara muito mal-encarado”, mas, “Toda vez que chego perto, ele logo me dá carinho e pára o que está fazendo para ficar me olhando com ternura” (p. 43). Em Assuntos de Família há desabafo, balanço pessoal, manifesto. “Bênça, Pai, como vai o senhor? Eu ainda estou aqui! Escrevendo contra a elite que a cada dia extermina mais minha gente” (p. 79). Era Uma Vez é nome de personagem: “Antes de chegar ao bar, Era Uma Vez tirou os óculos. O sereno caia e ele não enxergava. (…). Começou a se perguntar por que os seres humanos não podem guardar momentos. (…) As teias pareciam ser feitas de diamante devido ao sereno que nelas caía” (p. 45).

Ferréz escreveu romances como Capão Pecado e Manual Prático do Ódio; livro infantil Amanhecer Esmeralda, e poemas. Compositor e cantor de hip-hop. Trabalhou em padaria, vendeu camisa, vassoura, foi pedreiro. Publicou crônicas na revista Caros Amigos e no jornal Folha de S. Paulo. Tem editora, Nós. É roteirista e documentarista. Suas obras foram lançadas em vários países.

Aposto que esta “elite” nojenta não previu isto, hein, Ferréz? “Sabe pai, tem uns caras que tão me ajudando nessa revolução que tanto quero (…)” (p. 80). “Tá ligado?”

 

Léo

Retratos

“(…) mas é preciso estar com as sete portas abertas para saber quando as coisas se modificam” Caio Fernando Abreu.

 

O Ovo Apunhalado é um livro de contos de Caio Fernando Abreu (Editora L&PM, Porto Alegre, 2001). Publicado originalmente em 1975, mesmo ano de Feliz Ano Novo de Rubem Fonseca (tem um texto neste blog). Dois livros sob o jugo do regime militar. Duas leituras. Dois retratos. Rubem é de uma escrita madura, firme. Caio escreveu o Ovo em 1969 e 1973, um rapaz de vinte e poucos anos. Como diz na Apresentação de 1984, “Tempo de fumaça, de lindos sonhos dourados e negra repressão. (…). Tempos de festa que causou esta rebordosa de agora, e primeiras overdoses (Janis, Jimi). Eu estava lá. Metido até o pescoço: apavorado viajante” (p. 10).

Este livro ecoa dor, busca, tentativas. “Apavorado viajante” aprisionado, porém que segue lutando. Há experimentos quanto à forma, pueris, em minha visão. Contos de ficção científica, que mais lembram prisões. Boa parte do livro não gostei. Concordei com o autor: “Eles se ressentem do excesso: são repetitivos (…), paranoicos (…). Eu só estava tateando (…)” (p.10). É bom também ler um grande autor “tateando”.

Os primeiros contos foram os que me valeram a pena. Réquiem por um fugitivo,  exala dor contida. Solidão. Desamparo. Um garoto só, crescendo sem gritos e sem carinho, com uma mãe: “E se é verdade que não chegamos a ter amor um pelo outro, é verdade também que não chegamos a ter ódio” (p. 22). É um conto comovente. Gravata, é a sedução de um objeto; um objeto transformado em símbolo: “– Você é minha. Você não passa de um objeto. Não importa que tenha vindo de longe para pousar entre coisas caras na vitrine de uma loja rica. Eu comprei você” (p. 28). “– Você não passa de um substantivo feminino – disse, e quase sem sentir acrescentou – … mas eu te amo tanto, tanto” (p. 29). Oásis é o golpe militar visto pelos olhos de garoto. O lúdico infantil violentado pelas baionetas do quartel. “Acho mesmo que foi naquela tarde em que visitamos o quartel pela primeira vez que a brincadeira nasceu. Absolutamente fascinados, sentimos necessidade de vê-lo mais e mais vezes, principalmente ficamos surpresos por não termos jamais imaginado quantas maravilhas se escondiam atrás daquele portão branco (…)” (p. 31). ” (…) os soldados já avançavam sobre nós, vermelhos, segurando-nos pelos ombros e nos sacudindo (…)” (p. 35). Em Retratos o narrador é um engravatado, funcionário de escritório que faz cálculos, morador de prédio. Do outro lado da janela, pessoas em avesso: “Nunca havia reparado nele antes. Na verdade não tem nada que os diferencie dos demais. As mesmas roupas coloridas, os mesmos cabelos enormes, o mesmo ar sujo e drogado” (p. 50). O engravatado – vencendo barreiras – se cruza com “ele”, o outro, o sem nome, o sem casa. Que o desenha cada dia da semana. O narrador se vendo enxerga seu cotidiano infernal. E já não cabe mais naquele retrato.

O Ovo Apunhalado é um dos retratos de um período histórico. Retrato de um jovem autor. “Foi numa dessas manhãs sem sol que percebi o quanto já estava dentro do que não suspeitava” (p. 107).

Léo

Feliz Ano Novo

“Já ouvi acusarem você de escritor pornográfico. Você é?’

‘Sou, os meus livro estão cheios de miseráveis sem dentes.'” (Intestino Grosso, Rubem Fonseca).

 

Em 1975  em plena ditadura militar – Rubem Fonseca lançava o livro de contos Feliz Ano Novo (SP: Companhia das Letras, 1989).  O ministro da Justiça, Armando Falcão, mandou recolhê-lo no ano seguinte e foi proibida sua circulação e publicação em todo território nacional: “Li pouquíssima coisa, talvez uns seis palavrões, e isto bastou”.

Talvez o que o ministro tentasse esconder não eram “uns seis palavrões”, mas uma sociedade doente, violenta, miseráveis sem dentes, e um bando de infelizes. 

Não há trégua em Rubem Fonseca. No máximo, frestas. O conto que dá título ao livro, os miseráveis se acham na ocasião do ano novo sem ter o que comer: “Vi na televisão que as lojas bacanas estavam vendendo adoidado roupas ricas para as madames (…). Vi também que as casas de artigos finos para comer e beber tinham vendido todo o estoque. Pereba, vou ter que esperar o dia raiar e apanhar cachaça, galinha morta e farofa dos macumbeiros.” (p. 13). Porém, cansados de esperar, cansados de se verem sem valor, devolve a violência  respondendo com vingança: “Filha da puta. As bebidas, as comidas, as joias, o dinheiro, tudo aquilo para eles era migalha. Tinham muito mais no banco. Para eles, nós não passávamos de três moscas no açucareiro.” (p. 19). O olhar do narrador não é “de fora” e sim “de dentro”; dá voz aos que não tem; naturaliza a violência. 

Em Corações Solitários, um repórter de polícia de um jornal popular reclama da falta de “um crime interessante”. O editor lhe responde que “Está tudo podre, no ponto, é só esperar.” “Antes de estourar me mandaram embora” (p. 25). Foi contratado pelo jornal Mulher, escrito por homens sob pseudônimos femininos. Ele mesmo escreve as cartas. Ele mesmo as responde. Transforma os clássicos, mitos – que leu –  em fotonovelas. Fazia tempo que não ria tanto. E tem surpresa no final. A violência está implícita. A dor também.

Passeio Noturno Parte I e II, o narrador é da classe média alta. Trabalho entediante. Esposa entediante. Filhos que o veem como fonte monetária. Sua resposta é o tal “passeio noturno” com seu carro que “custou uma fortuna” (p. 61). Violência explícita. A dor transforma-se em sarcasmo. “Saí, como sempre sem saber para onde ir, tinha que ser uma rua deserta, nesta cidade que tem mais gente do que moscas.” (p. 62). Na parte II, em meio à violência latejante, uma fresta: “A lua punha na lagoa uma esteira prateada que acompanhava o carro. Quando eu era menino e viajava de noite a lua sempre me acompanhava, varando as nuvens, por mais que o carro corresse.” (p. 70). Mas, não se deixe enganar, caro leitor. “Apaguei as luzes e acelerei o carro (…) Quando cheguei em casa minha mulher estava vendo televisão (…) Hoje você demorou mais. Estava muito nervoso?, ela disse. Estava. Mas já passou. Agora vou dormir. Amanhã vou ter um dia terrível na companhia.” (p. 71).

Desfila pelas páginas deste livro, miseráveis, executivos, ex-detentos, campeonato de maratona de sexo, suspense, brincadeira do narrador com o narrado. A defesa dos instintos: “O ser humano é um animal e deve fazer tudo para manter sua pureza de instintos. (…). A vocação do ser humano é ser humano.” (O Campeonato, p. 120-3). A violência de cada um. A violência de um sistema caótico, sem trégua. Respostas vingativas, sujeitos perdidos, matando uns aos outros, sem enxergar o verdadeiro inimigo. “Havia dias em que eu falava mais de cinquenta vezes ao telefone. As cartas eram tantas que a minha secretária (…) assinava por mim. E, sempre, no fim do dia, eu tinha a impressão de que não havia feito tudo o que precisava ter feito. Corria contra o tempo.” (O Outro, p. 87). Nem o escritor se salva: “E você? Sou assassino de mulheres — podia ter dito, sou escritor, mas isso é pior do que ser assassino, escritores são amantes maravilhosos por alguns meses apenas e maridos nojentos pela vida afora —  e como é que você mata elas? — veneno, o lento veneno da indiferença — (…)” (Agruras De Um Jovem Escritor,  p. 100).

Affonso Romano de Sant’Anna diz que “Para Rubem Fonseca, a questão básica não é o crime, a pornografia, e a violência, mas exatamente a desmistificação dos atuais conceitos de violência, pornografia e crime.” (verso da contracapa).

“Você não acha que isto denota uma preocupação mórbida com a morte?’ ‘Pode ser também uma preocupação saudável com a vida, o que no fundo é a mesma coisa.'” (Intestino Grosso, p. 163).

“E uma lágrima seca, feita quase somente de sal, escorregou do seu olho (…)” (O Pedido, p. 110).

Léo

Afonso Arinos: Com a palavra, o POVO!

“Uma ema, abrindo as asas, galopava pelo campo… E os tropeiros, no meio de uma inundação de luz, entre o canto das aves despertadas e o resfolegar dos animais soltos que iam fugindo da beira do rancho, derramavam sua prece pela amplidão imensa” Afonso Arinos.

 

“Quem terá sido esse escritor, cujo modesto perfil tangencia o percurso de três monstros sagrados de nossa literatura, como Euclides da Cunha, Mário de Andrade e Guimarães Rosa?” (p. IX). Assim Walnice Nogueira Galvão nos apresenta Afonso Arinos, Contos (Editora Martins Fontes, S. P., 2006).

Autor mineiro da virada do século – nasce em 1868 e morre em 1916 – foi o primeiro a escrever sobre a Guerra dos Canudos, o romance Os Jagunços, publicado em 1898, “precedendo de vários anos Os Sertões (Euclides da Cunha), lançado no final de 1902” (p. XV). Arinos, neste romance esquecido, já fazia uso de estilo em que ficou conhecido: “o regionalismo de usos e costumes do povo do sertão” (p. XVII). Ele também escreveu Lendas e tradições brasileiras, que deve ter influenciado Mário de Andrade que dedicou sua vida ao estudo e à pesquisa da cultura popular. “Um verdadeiro militante, Arinos (…) conclamara os brasileiros a tomarem consciência do tesouro que o populário representava e que estava a exigir investigação e resgate” (p. XX). Afonso Arinos não se limitava a contar lendas e costumes, “perseguia uma técnica que lhe permitisse colocar o discurso na boca de seus sertanejos, sem recorrer a grifos e itálicos, como era de costume, acentuando a diferença de classe e de origem entre narrador culto e a personagem inculta” (p. XXIV). Este respeito a fala do povo ecoa em Macunaíma, de Mário de Andrade, “até eclodir na esplêndida oralidade ficta de Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa” (p. XXIV).

O povo toma conta das páginas deste livro. O patrão quase não tem voz. São tropeiros, lavadeiras, malandros, e, principalmente, os escravos. O sertão é lindamente descrito com suas plantas e bichos, suas cantigas e seus lamentos. “As estrelas, em divina faceirice, furtavam o brilho às miradas dos tropeiros (…)” (p. 16). Tem um texto sobre o buriti, Buriti Perdido: “(…) tu te ergues altaneira, levantando ao céu as palmas tesas – velho guerreiro petrificado em meio da peleja!” (p.5). Sobre o jatobá, A Árvore do Pranto: “Por que ‘árvore do pranto’? É o nome que lhe deram os caminhantes, como ponto tradicional de separação” (p. 210). Belas comparações: os ventos “como alegres foliões” e cascatas, “serpentes enormes de dorso luzente” (p.74); “a estrela-d’alva, no céu escuro, parecia uma garça lavando-se na lagoa” (p. 146).  Palavras como “enoitara-se” (p. 16), quando cai a noite; ou “antemanhã”, antes da “A barra do dia aí vem! / A barra do sol também, / Ai!” (p. 33). Contos de assombração, causos, feitiço e feiticeiro, cantos dos menestréis sertanejos.

O conto que mais gostei é Pedro Barqueiro (tipo do sertão), dedicado a Coelho Netto. O narrador é um escravo de campo – o Flor, seu “patrão era avalentoado, temido”.  E cumprindo ordens, mais Pascoal, vão “caçar” Pedro Barqueiro: “Esse negro metia medo de se ver, mas era bonito. (…). Parecia ter certeza de que, em chegando a encostar a mão num cabra, o cabra era defunto. Ninguém bulia com ele, mas ele não mexia com os outros. Vivia seu quieto, em seu canto” (p. 137). E era negro fugido, por isso a caça. “Chegara uma precatória da Pedra dos Angicos e o juiz mandou prender a Pedro”. A esperteza dos caçadores e da caça. A coragem deles. O suspense. Final surpreendente.

Fica o convite: Afonso Arinos vale a pena! “Pelo caminho Miguel foi contando à Benedita, para distraí-la, a lenda das estrelas – uma grande boiada, cujo pastor é São Pedro, e que de noite se espalha pelo azul. Apontava para uma e para outra – vê aquela, coitada, tão sozinha! Parece perdida da manada… E a boiada luminosa pascia no azul, mansamente…” (p. 193).

Léo

Lagarta

“Não há devassidão maior que o pensamento” Wislawa Szymborska.

 

Esta é a epígrafe do livro de contos Jeito De Matar Lagartas (Editora Companhia Das Letras, São Paulo, 2015). O autor é Antonio Carlos Viana, sergipano, falecido em 2016.

Devassidão, caráter ou procedimento de devasso; libertinagem, licenciosidade. O narrador desses contos tem esse caráter. É libertino, licencioso. E é uma delícia lê-lo. Paulo Henriques Britto, poeta, nos apresenta a escrita de Antonio Viana como “(…) uma recusa a qualquer forma de sentimentalismo, sem que isso implique indiferença ou cinismo”. Que “a secura do texto potencializa a crueldade dos personagens e paradoxalmente gera, ao mesmo tempo, um humor discreto e devastador (…)”.

Lagartas são insetos quando estão na sua fase inicial de metamorfose. São larvas que posteriormente se transformarão em borboletas, mariposas ou outros insetos. Os personagens dos contos são como lagartas. Boa parte deles com potência para a metamorfose, mas que “morre” antes ou se conforma nesta “fase inicial”. Não dá o salto. Há casos de falsas esperanças, no entanto o cotidiano os arrebata. Como em Roteiro da Solidão com seus subterfúgios, “a vida e seus descaminhos” (p. 19). Frustra o leitor. Até parece que este intento é mais importante que a história. O narrador parece que está rindo baixinho, num canto qualquer, com as mãos nos lábios, todo sapeca. Amarelo Klimt, ressoa o incômodo, a tensão, algo no ar, incertezas. Uma psicopatia, que também a reconhecemos em nós. Os personagens são apresentados em abreviações, MN e LR, aumentando o tom do descompasso. “LR havia lido que um dos traços do psicopata é não ter pena dos animais, não ter compaixão de nada nem de ninguém” (p. 30). Se “(…) o mundo se dividia entre os de coração aflito e os de maldade extrema” (p. 47), Cara de Boneca, nos prega uma peça. O narrador, o que tem voz, é o de coração de “maldade extrema”, e o narrado sem voz, tem o “coração aflito”. A narração é de um adulto relembrando sua meninice, portanto com plena consciência. E a tristeza é grande. O uso, a solidão, o sexo. A instrumentalização do outro. Um lindo conto.

Florais, talvez seja uma exceção. Um alento saber de Dona Delfina, viúva, “(…) da vida que passa sem a gente sentir (…)”. Que liga para as amigas, “como se tivesse acordado de um sono do qual ela mesma não se dera conta (…)” (p. 50), descobrindo “que o amor exige desrespeito, senão fica incompleto” (p. 54). “O corpo, depois do luto pesado, começara a exigir coisas estranhas, como se estivesse se despedindo de si mesma” (pp. 51-2). Na outra ponta, Professor Locarno, o corpo já é de despedida: “Há um momento em que o corpo fica impaciente com a vida e só quer descanso absoluto” (p. 58). Perdido em sua festa de aniversário preparada, recorda Clarice Lispector em outro conto, Feliz Aniversário. “Para que cantar ‘muitos anos de vida’ agora?” para um velho de oitenta e nove anos; “(…) ele desejou muito que o coração afrouxasse de vez e nunca mais ele soubesse o que significava outro dia” (p. 59).

O sexo é sem adorno. É selvagem, instintivo, bom: “(…) dele fazer nela as boas coisas da vida” (p. 61). “(…) Valdireno pôs (…) uma gamela de madeira, coberta com umas folhas (…) que desprendiam um cheiro selvagem, de coisa cozida no mel, e ao mesmo tempo de uma sensualidade a toda prova, como se desprendesse das entranhas de uma mulher toda aberta esperando a hora de ser vasculhada com os dedos (…)” (p.66). Afinal “Não há histórias de amor sem cuecas e calcinhas” (p. 106), pois “O amor também tem seu lado porco, seu vocabulário de latrina (…)” (p. 107). E as putas tem voz, e quase cumprem uma função social: “Sim, já fui professora de jardim, mas o salário não dava. (…). Ontem mesmo um senhor chorou em minha cama (…). Veio só (…) pela fama que se espalhou a meu respeito, que recupero caralhos murchos” (pp 123-4).

Com linguagem bruta, seca, “humor discreto e devastador”, o narrador vai nos contando sobre Lucy in the Sky e seus caminhos solitários, dando uma suspensão na narrativa, deixando ao leitor o poder para imaginar sua continuação. Vai desbravando os territórios dos adultos. Faz a gente sofrer com Aline, a bailarina, “(…) porque a vida lhe tinha sido cruel além da conta” (p. 78). Entender: “(…) e viu como era fácil qualquer mulher trair. Bastava não ter esperanças” (p. 92); “Via agora que todo mundo traz dentro de si um assassino, é só aparecer a sua hora” (p. 108).  Passeia pelos corpos das senhoras, vagueia pelos dos senhores. Conhece com desenvoltura a maldade dos meninos.

Se as personagens permanecem lagartas, a potência está ali, mas não se efetiva, o narrador é que se metamorfoseia. É borboleta esvoaçando sobre fatos corriqueiros – na aparência – com suas tragédias e seus, quase, milagres. E “(…) outro dia chegou com as gracinhas de sempre (…)” (p. 59).

 

P.S. 1- Para minha filha, Beatriz, que me presenteou com este livro: “(…) a jovem devia      se chamar Beatriz, que é nome de mulheres que nunca perdem a beleza” (p. 103).

P.S. 2- Em https://semspoilerspfv.wordpress.com tem uma boa crítica de outro livro de Antonio Carlos Viana, Aberto Está o Inferno.

Léo

 

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Caminhando pelo Passeio Público, pensando neste texto que ainda escreveria, deparo-me com esta lagarta… Neste dia, não convoquei as Musas, agradeci diretamente ao autor.

O Alienista Alienado

“– Nada tenho que ver com a ciência; mas, se tantos homens em quem supomos juízo, são reclusos por dementes, quem nos afirma que o alienado não é o alienista?” (Machado de Assis, O Alienista).

 

“Um pensador húngaro chamado Georg Lukács disse no seu livro A Teoria do Romance que o romance é a história de um herói insatisfeito, que busca valores autênticos num mundo degradado (quer dizer, roto, descosido, malfeito)” (Flávio Aguiar, prefácio Murmúrios no Espelho in Contos, Machado de Assis, Editora Ática, 1976). O romance seria uma representação de como conciliar a manutenção de uma sociedade que não representa os interesses da maioria e não cumpre suas promessas de liberdade e felicidade. “Esse mundo ‘degradado’ enfrenta diariamente o problema de ter ou não sentido, de ser ou não absurdo, sem nexo” (Flávio Aguiar).

Entretanto, o herói de Machado de Assis no conto O Alienista, guarda uma peculiaridade: a ironia. Simão Bacamarte, o herói, não está imbuído de “valores autênticos” lutando contra o “mundo degradado”. O alienista busca “louros imarcescíveis”, isto é, louros que não murcham. O “degradado” também está na constituição do herói. Creio que, talvez, esta seja uma marca da escrita de Machado. Esta é a grande ironia, beirando o sarcasmo, o cinismo, o cético. Vejamos.

Dr. Simão Bacamarte é “filho da nobreza da terra e o maior dos médicos do Brasil, de Portugal e das Espanhas” (O Alienista E Outras Histórias, Machado de Assis, Editora Saraiva, 1957). “– A ciência, disse ele a Sua Majestade, é o meu emprego único; Itaguaí é o meu universo” (p. 19). Debruçou-se sobre os estudos e um “dos recantos” lhe chamou a atenção, “o recanto psíquico, o exame da patologia cerebral” (p. 20). Sendo um reino ainda quase inexplorado (o conto foi publicado em 1882), viu a chance de alcançar seus “louros”. Não poupou meios e artimanhas para construir uma casa de Orates, hospital psiquiátrico, em Itaguaí, a Casa Verde. Seus ímpetos de estudos fizeram da “Casa Verde (…) um cárcere privado, disse um médico sem clínicas” (p.45).   Primeiro recolheu os “desequilibrados”, depois os “equilibrados”, e por fim, a si mesmo. A cidade em polvorosa, viveu sua Revolução Francesa: o terror, a rebelião, e a restauração (títulos de capítulos do conto). Cada vez que Bacamarte tinha uma teoria nova, não se sabia quem seria recolhido: “Não se sabia já quem estava são, nem quem estava doido” (p.49).

O narrador é brilhante, implacável. Apoiando-se em “cronistas do tempo” – já que a narrativa era de “tempos remotos” – vai descrevendo a fala da personagem, o que vai na sua alma, e as fofocas dos “cronistas”. Vemos as camadas do narrado. Um bom exemplo é o herói ao escolher seu recanto de estudo: “Simão Bacamarte compreendeu que a ciência lusitana, e particularmente a brasileira, podia cobrir-se de ‘louros imarcescíveis’, – expressão usada por ele mesmo, mas em um arroubo de intimidade doméstica; exteriormente era modesto, segundo convém aos sabedores” (pp. 20-1). A ironia do narrador não poupa sacerdócio, o chefe da rebelião que se rende ao poder, as autoridades constituídas. Nada, nem ninguém, se safa do implacável narrador. Bacamarte, o herói, numa escolha científica de sua esposa, “apta para dar-lhe filhos robustos” (p. 20), vê-se logrado, “D. Evarista mentiu às (suas) esperanças”. Assim o ilustre médico com “olhos acessos da convicção científica” (p. 91), fica sem linhagem, sem herdeiros. Que ironia!

A crítica visível do conto é ao cientificismo, ao determinismo, uma sátira à ditadura da razão, termos muito em voga no final do século XIX. Além de ser muito engraçado, este conto cabe muitas reflexões. Se a espinha dorsal da realidade é a infelicidade geral, social e organizada, como diz Flávio Aguiar, Bacamarte lida com um conceito de razão alienado, no sentido marxista. Para este médico, “a razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades” (p.36). “– Supondo o espírito humano uma vasta concha, o meu fim, (…), é ver se posso extrair a pérola, que é a razão; por outros termos, demarquemos definitivamente os limites da razão e da loucura”.  Como ter o “perfeito equilíbrio de todas as faculdades” numa sociedade organizada na infelicidade? Quem pode decidir – de fato – os limites da razão num mundo degradado?

A ciência a serviço das vaidades é uma ciência alienada. Lida com a humanidade e a natureza como mercadoria, objeto. Busca o poder e não a compreensão da realidade. Ciência coisificada.

O alienista, com este conceito de razão desprovido de conteúdo social, vendo a doença (objeto) e não o humano (sujeito), se utilizando da ciência coisificada, é alienado.

Léo