Os Noivos

” — Senhores, dão-me licença para exprimir a minha fraca opinião? Não é só no caso do pão que se fazem maroteiras. E, como hoje vimos que, levantando a voz, é fácil obter justiça, continuemos assim, até pôr o mundo nos eixos” Alessandro Manzoni, Os Noivos.

 

György Lukács (O Romance Histórico, Boitempo, SP, 2011) confere que Manzoni – entre outros – apreende a vida do povo de maneira historicamente profunda, autêntica, humana e concreta. Expressa a essência, a riqueza e a versatilidade desta vida como base da transformação da história (p. 403). Se não bastasse, Manzoni tem dom para invenção da trama, fantasia na representação das personagens das mais diversas classes sociais e autenticidade histórica para vida exterior e interior (p. 92). Os Noivos é a prova.

Este romance histórico ( Editora Abril Cultural, RJ, 1971, tradução de Marina Guaspari), continua Lukács, se detém sobre a vida do povo italiano numa Itália fragmentada, de caráter feudal e reacionária, e em guerra entre suas partes “e dependentes da intervenção de grandes potências externas (p. 92). Manzoni retrata este panorama através do amor de dois jovens camponeses, os noivos, impedidos de se casarem. 

A trama se desenrola em 1628 e mais vinte meses. Começa em “Lecco, na época da nossa narrativa burgo populoso, prestes a se tornar cidade” (p. 11). Renzo Tramaglino e Lúcia Mondella são os noivos. Ele, fiandeiro, camponês e iletrado. Estão com data marcada para o casamento. São impedidos por Dom Rodrigo, fidalgo, morador de castelo, cercado por sicários. É a encarnação do poder, detendo em suas mãos as instituições locais: advogado, corregedor,  e uma parte da igreja. O almoço no castelo de Dom Rodrigo, logo nas primeiras páginas do romance, dão conta do seu poderio: “Dom Rodrigo tinha à direita o primo, Conde Atílio, seu companheiro de devassidão e arbitrariedades. À esquerda sentava-se com profundo respeito, (…), o senhor corregedor (…). Diante dele, dando mostras da mais entranhada deferência, almoçava o ilustre jurista (…)”. “À cabeceira da mesa, nos seus domínios, rodeado de amigos, de homenagens, de inúmeros sinais do seu poder, com um rosto soberbo que gelaria nos lábios qualquer conselho ou súplica” (p. 46), Dom Rodrigo. 

O fidalgo quer impedir o casamento de Lúcia por mero capricho, fruto de uma aposta. Exercício de poder. Para tanto, manda seus capangas intimidarem Dom Abbondio, cura do povoado. “O senhor tenciona casar, amanhã, Renzo Tramagliano e Lúcia Mondella (…). Esse casamento não se realizará; nem amanhã nem nunca. (…) ou quem o realizar não chegará a se arrepender, porque não terá tempo para isso (…)” (p. 13). As peripécias e aventuras começam. Dom Abbondio, covarde, e sua aia, Perpétua, pragmática, são personagens cômicos do romance. “Dom Abbondio –  o leitor já o percebeu – não nascera com fígados de leão” (p. 14). E que personagens! Frei Cristóvão, capuchino, ex-senhoril, será o que intercederá pelos noivos e os ajudará. Outro grande personagem. Como Gertrudes, a freira, e o Inominado, homem de grande poder que se converte.

Esta trama será cenário para grandes acontecimentos da Itália seiscentista. Renzo, fugindo da fúria de Dom Rodrigo, percorre uma Milão em plena revolta dos famintos. Fruto da carestia, pessoas saqueiam padarias, queimam móveis, exigem cabeças. O noivo  fiandeiro transforma-se em líder proferindo grandes discursos, e tem sua cabeça sujeita à forca. Adentra povoados vertidos em cadáveres assolados pela peste. Manzoni nos faz ver por dentro dos acontecimentos, nos faz testemunhas das artimanhas do poder. Participamos ativamente das aldeias saqueadas e amedrontadas pela invasão do exército imperial. Grandes cenas, grandes questionamentos. Um verdadeiro romance histórico do ponto de vista da vida do povo. “Para nós, os pobres, as meadas enredam-se, porque não sabemos descobrir o fio” (p. 28).

O narrador é brilhante. “Seja-me lícito interromper essa celeuma, para formular uma reflexão (…)” (p. 73). Arrasta os leitores pelas páginas, provocando-nos: “Calculem, pois, os meus poucos leitores (…)” (p. 15). “Poupo ao leitor as lamentações, as censuras, as acusações, as defesas” (p. 24). Constrói belas imagens: “uma Ilíada de desastres!” (p. 161); “a lua, entrando pela alta janela, desenhava no soalho um quadrado de luz, recortando em xadrez pelas barras das grades” (p. 174); “o rangido das máquinas juntava-se ao fragor duma cascata” (p. 149). 

Lukács diz que Manzoni é um poeta sóbrio que abriu um “caminho único para a grande concepção da história italiana (…)” (p. 93). Resta-nos admirá-lo. E aprender que a luta do povo por pão e justiça… “A trama é antiga, sabem?” (p. 141).

Léo

O Enigma de Qaf

” (…) o libanês, pegando num pão árabe, começou a explicar que – segundo a crença dos antigos beduínos – a Terra era concebida como um plano circular, à feição daqueles pães. E que Qaf era uma enorme montanha mítica, que circundava, delimitava e mantinha a Terra em equilíbrio” (Alberto Mussa).

 

A leitura de Poemas Suspensos que Alberto Mussa traduziu direto do árabe, levou-me  ao seu romance O Enigma de Qaf (Editora Record, RJ, 2004). Sua principal história está dividida em vinte e oito capítulos, nomeados conforme as vinte e oito letras do alfabeto árabe. E conta ainda com excursos – narrativas mais ou menos relacionadas à intriga dominante – e parâmetros, lendas de heróis árabes. Relacionados, todos, sobre a cultura pré-islâmica.

Lendas, mitos, poemas e o real se entrelaçam num único tecido. Tapeçaria. “A Idade da Ignorância – como ficou conhecida, na história dos árabes, a era que findou com o advento do islamismo – foi um tempo de homens que chegavam a ser mais nobres que os cavalos e de éguas enciumadas da beleza das mulheres” (p. 11-12). Tempo áureo dos poetas do deserto em que a poesia elevou-se em alturas “ainda não atingidas em nenhuma língua, em nenhum século”.

A palavra árabe foi inscrita para designar um nômade montado num camelo em 853 a. C. Para eles, árabe é todo aquele que tem o árabe como língua materna. “São, por esse critério, um único povo, embora estejam divididos em centenas de tribos (…)” (p. 16). As lendas falam de um certo Yarub, o primeiro homem a falar em árabe, e constam que foi seu inventor: “Quero uma língua infinita, em que cada palavra tenha infinitos sinônimos” (p. 16). Os poetas se fartaram nesta busca incessante.

Este povo de poetas foram grandes matemáticos. No período pré-islâmico, acumularam vasto conhecimento em astronomia, criaram a trigonometria, descobriram a álgebra, “e desenvolveram o conceito aritmético mais importante – o do número zero” (p. 147). 

Este livro está recheado de narrativas maravilhosas. Como de Shahrazad, presa numa cadeia infinita de histórias que, no fundo, não passa de uma só. Spíridon, filósofo, que aprendeu a ler papiros egípcios “ao mesmo tempo que dançava nu diante do mar e bebia leite em tetas de jumenta” (p. 88). Zuhayr, que aos “noventa anos, ainda era capaz de dar prazer a onze esposas jovens, simultaneamente” (p. 101). Tem a história do naufrágio de Sinbad; a do Allahdin e da gruta de Ali Babá. 

Qaj é a vigésima primeira letra do alfabeto árabe, inicial de destino e direção. A narrativa principal é a lenda de al-Ghatash que o narrador ouvia de seu avô. “Desde a primeira vez me fascinou aquela história de um poeta que cruzava o deserto em busca de uma mulher desconhecida, de um enigma relacionado a uma fabulosa montanha circular, de um gênio caolho e cego que podia viajar no tempo” (p. 20).

Antônio Torres, na contracapa, afirma que o enigma é o próprio árabe. 

Eu fiquei fascinada.

"Sou imortal:
nunca saberei
quando tiver morrido"
Hárith bin Hilliza.

Léo

O deserto dos tártaros

“Pelos tártaros levantaram as muralhas do forte, consomem ali grande parte da vida, pelos tártaros as sentinelas caminham noite e dia como autômatos” (O Deserto dos Tártaros, Dino Buzzati).

 

“Não sou nenhum especialista nem acadêmico. Apenas um leitor atento” (p. 5). Faço minhas as palavras de Ugo Giorgetti que apresenta este romance O Deserto dos Tártaros (Dino Buzzati; tradução Aurora Fornoni Bernardini, Homero Freitas de Andrade; Editora Nova Fronteira, RJ, 2005). 

Não conhecia este autor italiano e me foi uma grata surpresa. O que mais se sobressalta é a linguagem poética: “Já pairava na sala o sentimento da noite, quando os medos saem das decrépitas paredes e a infelicidade se torna suave, quando a alma bate, orgulhosa, as asas sobre a humanidade adormecida” (p. 57). Aliada à maestria do autor em sustentar uma narrativa que pouco acontece. E faz disto uma força que me peguei, como leitora, esperando os tártaros como os soldados. Fui envolvida nas descrições exuberantes da natureza, no vasculhar das consciências dos personagens. No questionamento, presente em todas as páginas, do que é a vida, afinal. O narrador vai tecendo ao redor do leitor uma teia no balanço do vai e vem entre expectativa e realidade. No aparente contraponto entre cidade e forte. No primor da dor da existência humana.

O narrador é brilhante, brincalhão. “Um oficial – de costas não se pode saber quem seja, e poderia ser o próprio Giovanni Drogo – caminha entediado, na manhã de primavera (…)” (p. 136). Claro que é Drogo, o protagonista. ” (…) e era um dia qualquer, talvez de chuva, talvez apenas encoberto” (p. 149). “Vira-se a página, passam-se meses e anos” (p. 197).

Este clássico romance europeu foi publicado pela primeira vez em 1940. Aparentemente a história é simples, como nos explica Ugo Giorgetti: “Um jovem militar é designado para servir numa fortaleza nas montanhas, solitária, quase esquecida, que em tempos remotos foi importante defesa contra os tártaros, que costumavam chegar pelo deserto que se estendia ao longo do vale” (p. 6). A narrativa é esta espera pelos tártaros, o tédio, as esperanças e grandes sonhos… que não se concretizam. Giorgetti diz “Até que um dia nos damos conta que fizemos a aposta errada” (p. 7).

Presumo que é mais do que isto. O protagonista, Giovanni Drogo, sente-se um desterrado da própria vida. Sem lugar. “Estrangeiro”. Injustiçado por quase todos que o cercam. Quando está no forte – “que, talvez não sirva para nada (p. 21), que é “fronteira morta” (p. 20) – a cidade é o lugar dos grandes acontecimentos, ideia de felicidade. Estando na cidade: “Era um cheiro doméstico e amigo, contudo, (…) janelas fechadas, de tarefas, de limpeza matutina, de doenças, de brigas, de ratos” (p. 139); espera “por um toque de clarim” (p. 141); “pensava no forte” (p. 145). Não há lugar. Há a espera. Há a expectativa. A vida permeada pelo tempo é sem sentido. Exuberante é a natureza, ricamente descrita, como se fosse um avesso da vida pessoal. “Tudo se esvai, os homens, as estações, as nuvens; e não adianta agarrar-se às pedras, resistir no topo de algum escolho, os dedos cansados se abrem, os braços se afrouxam, inertes, acaba-se arrastado pelo rio, que parece lento, mas não para nunca” (p. 181).

Dino Buzzati transforma deserto, tártaros, vida, tempo, natureza, forte e cidade num longo poema.

Léo

Triste fim… de quem mesmo?

“— É bom pensar, sonhar consola. (Ricardo Coração dos Outros).

— Consola, talvez; mas faz-nos também diferentes dos outros, cava abismos entre os homens…” (Quaresma).

Triste fim de Policarpo Quaresma, Lima Barreto.

 

Em 1911 Lima Barreto publica Triste fim de Policarpo Quaresma (Editora L&PM, Porto Alegre, 2009). Policarpo Quaresma, “mais conhecido por Major Quaresma” (p. 13) é subsecretário do Arsenal de Guerra. Tendo rendimentos além do seu ordenado, era “por parte da vizinhança, da consideração e respeito de homem abastado” (p. 13). Disciplinado, cercado de livros, “vivia num isolamento monacal, embora fosse cortês”. Estuda por cerca de trinta anos tudo referente ao país: história, geografia, literatura, folclore.

Policarpo não se limita aos estudos. Aprende violão com Ricardo Coração de Leão, mesmo sendo um instrumento nada respeitável: “Mas que coisa? Um homem tão sério metido nessas malandragens!” (p. 14). Para ele, “a modinha é a mais genuína expressão da poesia nacional e o violão é o instrumento que ela pede” (p. 15). Na cozinha não queria produtos estrangeiros, trocando-os por nacionais, apesar das reclamações de sua irmã, D. Adelaide: “É uma mania de seu amigo, Sr. Ricardo, esta de só querer coisas nacionais, e a gente tem que ingerir cada droga, chi!” (p. 23). Sua defesa: “A nossa terra (…) é capaz de produzir tudo (…) Não protegem as indústrias nacionais…” (p. 23). O aperitivo, nacional. O jardim, “como em tudo o mais, o major era em jardinagem essencialmente nacional” (p. 24). Teoria, prática, e “Era costume seu, assim pela hora do café, quando os empregados deixavam suas bancas, transmitir aos companheiros o fruto de seus estudos, as descobertas que fazia (…)” (p. 19).  Onde nasceu? Não se sabia, “Quaresma era antes de tudo brasileiro” (p. 17).

“(…) depois de trinta anos de meditação patriótica, de estudos e reflexões, chegava agora ao período da frutificação” (p. 28). Seu primeiro grande ato foi apresentar um requerimento que “o Congresso Nacional decrete o tupi-guarani como língua oficial e nacional do povo brasileiro” (p. 58). É recebido com burburinho, desordem, riso, inveja, ódio e deboche. Seu tupi lhe rende meses num hospício: “Como é fácil na vida tudo ruir!” (p. 73). Porém não se dá por vencido. Vai habitar um sítio, planeja sua vida agrícola com leituras e aparelhos. Tendo a certeza que a terra daqui tudo dá, enfrenta saúvas, os preços do frete, vinganças eleitorais, a peste ataca as galinhas e “a situação geral que o cercava, aquela miséria na população campestre que nunca suspeitara, aquele abandono de terras à improdutividade (…)” (p. 132). “Era preciso trabalhos maiores, mais profundos; tornava-se necessário refazer a administração” (p. 143). Explode a Revolta da Armada, Policarpo vai para a guerra ajudar Floriano Peixoto, o então presidente: ” (…) sentia, indispensável, necessário que toda a sua vontade, que toda a sua inteligência, que tudo o que ele tinha de vida e atividade fosse posto à disposição do governo, para então!… oh!” (p. 159). Resta-lhe a prisão. “Esta vida é absurda e ilógica” (p. 213). Resta-lhe o “triste fim” anunciado no título.

Se Quaresma se muniu de teoria e prática, se fez propostas, se era um homem honesto, “desinteressado de dinheiro, de glória e posição” (p. 60), onde errou? Por que seu fim triste? Erra por não ter uma visão de classe, vê a sociedade como um todo, como se os ricos e pobres tivessem a mesma sintonia. Erra por travar uma luta solitária acreditando que bastam requerimentos, memorandos, argumentos. Peca pela ingenuidade, sem ferramentas para enfrentar as disputas pessoais, a luta individual por cargos e melhores posições, as aparências. Erra por não perceber que sua luta não deveria ser nacionalista e sim internacionalista. O Brasil ocupa um papel no mercado internacional, na divisão social do trabalho, de país colônia, papel para servir o grande capital, o império. A consciência não nos livra do triste fim, é certo. E, as provas são inúmeras. Mas, talvez não lhe restasse a amargura e sim uma certeza que a luta prossegue: “Além do que, penso que todo este meu sacrifício tem sido inútil. Tudo o que nele pus de pensamento não foi atingido (…). Ninguém compreende o que quero (…)” (p. 213).

Este romance não é somente reflexões. O capítulo em que Policarpo está no hospício é de uma descrição maravilhosa: o dia muito ensolarado e bonito lá fora, e o hospício como uma prisão “que nos tira a nossa alma e põe uma outra” (p. 72). O encontro de Quaresma com Floriano é magistral. “O seu entusiasmo por aquele ídolo político era forte, sincero e desinteressado. Tinha-o na conta de enérgico, (…), tenaz e conhecedor das necessidades do país (…)” (p. 162). O que encontra era uma figura “vulgar e desoladora (…) todo ele era gelatinoso (…)” (p. 162). O narrador disseca o militar, o chama de ditador, mostra sua verdadeira face: “A sua concepção de governo não era o despotismo, nem a democracia, nem a aristocracia; era e de uma tirania doméstica” (p. 164). Olga, a afilhada de Quaresma, é outra grande criação. Entende a loucura de Ismênia, a filha de um general: ” Via bem o que fazia o desespero da moça, mas via melhor a causa, naquela obrigação que incrustam no espírito das meninas, que elas se devem casar a todo o custo, fazendo do casamento o polo e fim da vida (…)” (p. 198). E o escárnio e deboche de que são tratados os militares – generais que falam de batalhas que nunca foram – são hilariantes. 

Lima Barreto foi um escritor pobre e negro. Sua mãe teve uma morte prematura, seu pai enlouqueceu. Não foi reconhecido em sua época. Morreu aos 44 anos.  Mas, nos deixou esta vontade de aprender com os erros de Quaresma e construir um mundo em que Policarpos não tenham um triste fim. Afinal, é o fim de quem mesmo?

Lima Barreto is a beautiful black.

 

Léo

O Amante

“Muito cedo na minha vida ficou tarde demais. (…) Tenho um rosto destruído”. Marguerite Duras, O Amante.

 

Foi numa madrugada. O sono me abandonou. Há tempos que sigo o meu próprio fluxo. Levantei e liguei a TV. Começa o filme O Amante, de 1992, dirigido por Jean-Jacques Annaud. Sensível. Bela fotografia. Bons atores. O que me levou ao livro.

O Amante, Marguerite Duras (Editora Círculo do Livro, SP), foi escrito em 1984, Paris. O romance é como um jogo de espelhos, o que se lê é o reflexo, e através do reflexo se insinua o real, o subentendido. O tempo presente nunca está presente. O jogo é entre um passado e um futuro; um como reflexo do outro. Frases curtas. Parágrafos curtos. Capítulos curtos. O dito e o suspenso. Memória. Porém, cada frase é cheia de conteúdo.  A primeira e terceira pessoa se alternam na narração como miragens. Mesmo sendo linear, o filme captura o espírito do livro: infelicidade, tristeza, dor, amor entrelaçado com o ódio, o prazer da descoberta do corpo permeado com as duras convenções sociais.

A narrativa é de uma garota de quinze anos e meio escrita por uma senhora de “rosto destruído”. Mora em Vietnã ocupada pela França, na Indochina Francesa. Ela é branca, de família que tinha posse mas perdeu tudo. É pobre, miserável. Fora de lugar. Sem identidade de classe: “Há muito tempo não tenho vestidos que sejam só meus. Todos são do tipo saco, velhos vestidos reformados de minha mãe (…)” (p. 22). Sua relação com a família é um misto de amor, ódio, abandono, solidariedade, força e loucura: “Jamais bom-dia, boa-noite, bom-ano. Jamais obrigado. Jamais falar. jamais a necessidade de falar. Tudo continua mudo, distante. É uma família talhada na pedra, petrificada numa solidez sem nenhum acesso. A cada dia tentamos nos matar, matar” (p. 54). Sua mãe, viúva, uma deslocada professora primária: “Ela deve ter ficado em Saigon de 1932 a 1949 (…). Digo-lhe que de minha mãe vou separar-me um dia, que, mesmo minha mãe, um dia deixarei de amar. (…). Digo que em minha infância a infelicidade de minha mãe ocupou o lugar do sonho. O sonho era minha mãe e jamais árvores de Natal, sempre ela, só ela, fosse a mãe esfolada viva pela miséria ou a mãe descontrolada que pregava no deserto (…)” (pp. 30, 46). Seu irmão mais velho é o poder: “Não posso lutar contra essas ordens mudas de meu irmão. Faço-o quando se trata de meu irmão mais novo. (…). Digo que a violência de meu irmão mais velho, fria, insultuosa, acompanha tudo o que nos acontece, tudo o que temos passado na vida. (…). (…) sofre por não poder praticar o mal livremente (…)” (pp. 53, 54, 59). O irmão mais novo é a fragilidade. Nenhum dos personagens tem nome. Só o irmão mais novo, Paulo, mas isso pouco representa; e personagens femininas secundárias, outros espelhos.

Deste universo brota o prazer. O amante é um aristocrata chinês. Ela descobre seu corpo em um quarto em Cholen, bairro mal-afamado: “Sinto-me mal subitamente. Um pequeno mal-estar passageiro. É o coração batendo forte, descompassado, na ferida viva e fresca que ele acaba de abrir (…)” (p. 49). Ele chinês, rico. Ela branca, pobre. Ele mais velho. Ela, uma garota. Tragédia anunciada. Amor impossível. “Durante todo o tempo da nossa história, durante um ano e meio falamos sempre assim, nunca de nós mesmos. Nos primeiros dias já sabíamos que uma vida em comum não era possível, por isso não falávamos nunca sobre o futuro (…)” (p. 49). Ele, que a ama, é frágil pela riqueza de seu pai. Fraco para abalar as convenções. No filme, ele diz “eu não sou nada sem a riqueza do meu pai”. “Ele me dá banho, me lava, tira a espuma do sabonete (…)” (p. 62). “Fazendo amor, ele chorava. O pai ia viver. Sua última esperança perdida” (p. 80). Ela compreende bem a impossibilidade e sabe as consequências, é vista como uma prostituta infantil, “mas sei que esse quarto é o que eu esperava” (p. 45). O uso, a “caridade”, o dinheiro imperando, o jogo. “Ele lhe arranca o vestido, joga-o longe (…) e a leva nua para a cama. Então, vira-se para o outro lado e chora” (p. 39). Ela só se permite ao choro, no navio, partindo.

A saída da garota é a escrita. “A história da minha vida não existe” (p. 11). “Quero escrever. Já disse a minha mãe: o que eu quero é escrever. Nenhuma resposta na primeira vez. Depois, ela pergunta: escrever o quê? (…). É contra, não é uma coisa meritória, não é trabalho, é uma brincadeira — ela me dirá mais tarde: uma ideia de criança” (p. 23). É sua salvação. A mãe, bem ela, “ela se transformou em escrita” (p. 30).

Marguerite Duras nasceu no Vietnã e teve sua infância num lugarejo próximo a Saigon, de acordo com a apresentação do livro. “Escreveu trinta e cinco romances, quinze peças teatrais e mais de quinze roteiros de cinema (o mais conhecido deles, Hiroshima, meu amor).  Morre em 1996. “Eu preciso que gostem dos meus livros”, diz ela. Eu fui arrebatada. 

Léo

“No fim do século, o naturalista Wilhelm Bolsche publica um livro sobre os animais. Nele se lê que as estrelas-do-mar podem partir-se em duas; e que, com isto, todos os seus órgãos se dividem. A terrível ferida não tarda a cicatrizar. Com o tempo, cada metade do asteroide cresce e toma outra vez a forma de estrela. Então perguntam Bolsche e seus contemporâneos até quando a estrela-do-mar pensa como uma unidade e a partir de que momento adquire a noção, rudimentar, de sua dupla existência. Pergunta inquietante e ociosa, que a poucos interessa e a que não se pode responder, ainda que se viva experiência idêntica” (Osman Lins, Avalovara, p. 48, Companhia das Letras, S.P., 2005). 

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Pelas ruas de Curitiba…

O Sonho do Sonhador: Os Três Mosqueteiros

“A amizade que unia esses quatro homens e a necessidade de se verem três ou quatro vezes por dia, fosse para um duelo, fosse para um negócio, fosse para um divertimento, os faziam encalçarem constantemente um ao outro como sombras (…)” (Os Três Mosqueteiros, Alexandre Dumas).

 

Ah, este Ulisses do século XVII! D’Artagnan e sua odisseia para se tornar mosqueteiro! Alexandre Dumas, romancista negro, segue as pegadas de Homero e nos faz percorrer as ruas de Paris no ano de 1625 (Editora Abril Cultural, São Paulo, 1971). Vai nos guiando pelos bairros de Luxemburgo, Saint-Germain; os corredores e labirintos do Louvre, então morada do rei; tabernas; galerias subterrâneas da Bastilha, e suas salas de interrogatórios e calabouços. Neste cenário, Alexandre Dumas faz brotar o herói d’Artagnan, que o narrador nos apresenta como “Dom Quixote aos dezoito anos” (p. 9).

Este herói gascão ruma para Paris em busca de fortuna e glória. Munido de referências paternas, encontra o capitão dos mosqueteiros do rei, Sr. De Tréville, “(…) um Júpiter olímpico armado de todos os raios” (p. 29). E se depara com “(…) uns semideuses” (p. 29): “(…) Athos como um Aquiles, Porthos como um Ajax, e Aramis como um José” (p. 68), seu sonho personificado: os três mosqueteiros. Que, pelas notas do editor, fica-se sabendo, que não são apenas personagens de ficção, mas baseados em vida.

Nas peripécias desses “(…) incorrigíveis mosqueteiros, esses verdadeiros demônios (…)” (p. 30), vivemos aventuras com d’Artagnan vestido de mulher para se safar, vinho envenenado, emboscadas, raptos, ciladas, tramas, intrigas. E, qualquer coisa, duelo. Bravura, coragem, honra. “Naquele tempo, o conceito de altivez que hoje está de moda ainda não vigorava” (p. 63). Uma “(…) época tão cavalheiresca e tão galante” (p. 109).

Se nos falta Ciclope de Homero, temos o Cardeal de  Richelieu.  “Um homem de estatura mediana, expressão altiva e soberba, olhos penetrantes (…). E, se bem estivesse desarmado tinha toda a aparência de um homem de guerra (…)” (p. 116). Era o homem dos interrogatórios e que jogava seus inimigos na Bastilha, “(…) não se esconde nada do cardeal; o cardeal sabe tudo” (p. 117).  Tinha uma rede de espiões, homens e mulheres ao seu serviço, que faria inveja à CIA e KGB. Um Varys de Game Of Thrones, com sua teia de aranha. “Não tem ele a seu serviço todas as astúcias do demônio?” (p. 187). “Ele apagaria o sol se o sol o incomodasse” (p. 383).

O canto das sereias encantava os navegantes e os faziam perdidos, em Odisseia. Lady Winter entoa cânticos religiosos em seus dias de cativeiro entorpecendo seu carcereiro. “Essa mulher é agente do cardeal” (p. 170). Muitas máscaras: “D’Artagnan (…) não perdera de vista Milady e, pelo espelho, observou a transformação que se lhe operara no rosto. Agora que não se supunha observada, um sentimento semelhante à ferocidade lhe animava a fisionomia” (p. 264-5). Muitos nomes: Ana de Breuil, Condessa de La Fère, Lady de Winter, Baronesa de Sheffield. O narrador acrescenta outros: “a mulher era um monstro” (p. 278); “(…) figura transtornada, pupilas horrivelmente dilatadas, faces lívidas e lábios sangrentos (…) uma serpente (…)” (p. 304). “É um tigre, uma pantera!” (p. 308). A construção das páginas em que Milady está encarcerada em um castelo é brilhante, o leitor se sente completamente enfeitiçado, hipnotizado. Felton, seu guardião, vai se transformando em caça e ela sua caçadora. Um jogo de serpente entrelaçando sua vítima: “Milady reunia então todas as energias, murmurando o nome de Felton, única claridade que lhe chegava ao fundo do inferno em que caíra; e, como serpente que enrola e desenrola os anéis para avaliar a própria força, envolvia antecipadamente Felton nas mil dobras da sua imaginação inventiva” (p. 434).  “Crês que sou uma mulherzinha qualquer? Quando me insultam, não me sinto mal. Eu vingo-me, entendes?” (p. 293).  “Milady era tão bela, que não encontrava resistência da parte da carne, e tão hábil, que levava de vencida todos os obstáculos do espírito” (p. 433). O narrador é implacável: dos vilões, é a única punida. Esta “Lady Macbeth” (p. 417).

Não há Penélope tecendo de dia e destecendo ao anoitecer. Entretanto, a Sra. Bonacieux é tecida em raptos, conventos, cárceres. Seu marido, Sr. Bonacieux, é o exemplar do burguês, representante da classe que, no século seguinte, tomará o poder. Mas, por enquanto é visto como um mendigo, o não fidalgo. “O caráter de mestre Bonacieux era, fundamentalmente um misto de profundo egoísmo e sórdida avareza (…)” (p. 110). A Senhora, foi alvo do coração de d’Artagnan, perseguida pelo cardeal e vítima de Milady.

O narrador de Os Três Mosqueteiros não se apresenta em versos. No entanto, sua prosa é rica em reflexões, “Há horas que duram um ano inteiro” (p. 451), e, ao mesmo tempo, muito divertida. Não há Atena, “a de olhos glaucos”, não há a “Aurora, de dedos de rosa”. Mas há imagens dignas de deuses: “a aurora lhe pareceu tarjada de luto” (p. 111); relâmpago como “serpente de fogo” (p. 496). O narrador flerta com o leitor, dialoga: “De mais a mais, como sabe muito bem o leitor, de quem não ocultamos o estado de seus haveres (…)” (p. 92). O narrador prorroga a narrativa, usa e abusa do suspense.

Enquanto Ulisses tem sua odisseia na volta para sua morada, d’Artagnan tem suas aventuras na morada nova. Odisseu, “sou um simples mortal transitório”. D’Artagnan, “estou na idade das loucas esperanças”.

São pouco mais de quinhentas páginas de suspense, amizade, vinho, muito vinho, duelos, fugas, aventuras.

Mas, caro leitor, não se fie pelas minhas palavras. Delicie-se com este romance.

“– Senhores (…) estamos prontos?

  – Estamos (…).

  – Então, em guarda!” (p. 262).

“– Todos por um e um por todos” (p. 82).

Léo