Versos

“e tudo mais jogo num verso” Waly Salomão.

 

Sementes

Fúrias

Ventos

 

Versos para desafogar

 

Serpentes

Furor

Vencedores

 

Versos para vociferar

 

Saputis

Favos

Vencidos

 

Versos para lutar!

 

Léo

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Um ano! Uma vida!

Este meu blog completa hoje um ano. A jornada foi longa. O blog é o fruto. Fruto da minha reinvenção de vida. Sou vulcão. Estou serena. A tentativa é de escrever sobre vida e arte numa relação dialética, como se fosse um ensaio para a vida futura.

Tenho muitos agradecimentos. Geisa, por me ensinar que escrever não é um ato solitário; pelas conversas e trocas. Bia e Jonas – meus filhos – que sempre me incentivam no mais amplo sentido. Minha família, meus irmãos, minha irmã, porque sempre estamos juntos. Aos que me presentearam com livros, meus alimentos: Bia, Jonas, Gra, Geisa, Silvana, Ewerton, Laércio… Aos leitores do Facebook. Aos que  seguem o blog, em especial Deboroh Sensitiveson, Paulo Cunha, Brunno Vittorazze, Miau do Leão, Amores Burlescos, Daniel Bucker, ludoevico, A Riscar, falhulhasdeideias, Jorgesapia, blogcrimesemcastigo, Cristileine Leão, divagaçõesgcc, Lucas Palhão, Bernardo E., o cara que só sabia ser pouco.  Amigos na caminhada. Trocas. 

Este meu blog é o meu melhor. “Aceito as grandes palavras” (Jorge de Lima).

Um ano! Uma vida! 

Então, todas às quintas, sementes. Sementes ao leo.

2019: O Futuro Chegou?

“O Grande Pássaro alçará voo das costas do grande pássaro, glorificando o ninho em que nasceu” Leonardo da Vinci.

Blade Runner
Cena do filme Blade Runner, do site https://www.thestranger.com

Em 1957, o homem lança no universo o primeiro satélite artificial. Hannah Arendt, em A Condição Humana (Editora Forense Universitária, RJ, 1997), analisa o evento como um alívio para o coração dos homens, “o primeiro ‘passo para libertar o homem de sua prisão na terra’” (p. 9). A humanidade que, com a secularização tinha se libertado do pai, Deus, agora poderia livrar-se da mãe, Terra. “(…) embora os cristãos tenham chamado esta terra de ‘vale de lágrimas’ e os filósofos tenham visto o próprio corpo do homem como a prisão da mente e da alma, ninguém na história da humanidade jamais havia concebido a terra como prisão (…)” (p. 10). Como diz Arthur C. Clarke, 2001/Odisseia Espacial (Expansão Editorial, RJ, 1975): “Estava-se avizinhando a época em que a Terra, como todas as mães, se veria obrigada a despedir-se de seus filhos” (p. 64).

Em 1961, ano em que nasci, o século XXI seria “muito futuro”. Creio que o imaginário coletivo de minha época ficou marcado pelo filme 2001 – Uma Odisseia No Espaço (Stanley Kubrick, 1968).  O futuro, o próximo século, teria aquele panorama. Já na década de oitenta, pelo menos dois filmes de ficção científica embalavam nossos temores: Blade Runner – O Caçador De Androides (Ridley Scott, 1982) e O Exterminador Do Futuro (James Cameron, 1984).

Uma professora de sociologia, Célia Tolentino, nos disse que comumente as ficções científicas projetam nossos receios do presente para o futuro: a interferência na natalidade, no prolongamento da vida, no controlar a vida; a substituição do natural pelo artificial; a ciência como um novo deus. “Esse homem futuro (…) parece motivado por uma rebelião contra a existência humana tal como nos foi dada – um dom gratuito do nada (secularmente falando), que ele deseja trocar, por assim dizer, por algo produzido por ele mesmo” (Arendt, p. 10). Nesta década, a de oitenta, o advento da automação pairava como uma ameaça aos trabalhadores. A promessa era de livrar o homem do fardo do trabalho. Entretanto o que se presenciava era o esvaziamento das fábricas da presença humana e o aumento do exército de reserva. A máquina, de auxiliar, transformando-se em substituta. Como em O Exterminador Do Futuro que prevê um sistema de inteligência artificial, Skynet, tomando o poder e convertendo a humanidade em ameaça.

2019 é a época de Blade Runner. Ambientado em Los Angeles, uma metrópole decadente abarrotada de pessoas de todas as raças, poluída, chuvosa, cinzenta. Gigantescos arranha-céus, trabalho informal povoando as ruas, miséria e pobreza se contrapondo a carros que vagueiam pelo céu. Imensos anúncios de neon propagandeando em alta voz: “Uma nova vida espera por você nas colônias interplanetárias. A chance de começar de novo. Uma terra dourada de oportunidades e aventuras!”.

O filme é inspirado em Androides Sonham Com Ovelhas Elétricas?, de Philip K. Dick. No romance, o mundo teria sido devastado por uma guerra mundial em 1992. Restou uma terra em ruínas onde ter um animal vivo era símbolo de status. O grande esforço era o programa de emigração para as colônias – fora da Terra. O grande incentivo era o maior desenvolvimento da ciência: um robô humanoide, um androide orgânico. O emigrante recebia, automaticamente, seu servo androide de escolha para enfrentar um mundo alienígena. Só permaneciam na Terra os chamados “especiais”, os seres humanos biologicamente inaceitáveis. O homem estaria livre de sua prisão na Terra e livre do trabalho, seu pior pesadelo. No filme, o homem que tinha brincado de deus, vê suas criaturas adquirirem consciência e se rebelarem. Os replicantes, os androides, passam a ter as mesmas questões humanas: estão à procura do Pai, querem um tempo maior de vida. No entanto: “Eu vi coisas que vocês não acreditariam… Todos esses momentos se perderão no tempo como lágrimas na chuva. Hora de morrer” diz Roy, um dos replicantes.

Hoje, no século do futuro, não temos viagens interplanetárias como as de 2001 – Uma Odisseia no Espaço; nem Skynet, nem replicantes. O futuro parece velho, apesar de sondas vagando pelos rincões do universo e telescópios poderosos. Talvez nossos temores tenham se aprofundado, pois o próprio planeta e nossa espécie correm risco de extinção. 

Termino com Stephen Hawking, Breves Respostas Para Grandes Questões (Editora Intrínseca, RJ, 2018): “(…) existem outros desafios, outras grandes questões no planeta que devemos responder, e elas exigirão uma nova geração interessada, engajada e com compreensão da ciência. (…). Devemos lutar para que todo homem e toda mulher tenham a oportunidade de viver vidas seguras e saudáveis, repletas de oportunidade e amor. Somos todos viajantes do tempo em uma jornada rumo ao amanhã. Mas vamos trabalhar juntos na construção desse futuro, um lugar que queremos visitar” (p. 45).  

Mel

Era uma manhã serena de céu azul

As ruas estavam coalhadas de bandeiras rubras

A brisa soprava espantando o tédio

As feridas abriam-se em flor

 

Era o novo tempo rasgado das lutas e sacrifícios

O sobreviver ganhava novos contornos

Nossa alegria banhava o passado

Nossa certeza estancava o sombrio

 

O único decreto era o de ser livre

Transformar o só em solidário

Colher os frutos e devorá-los

Produzir o bem e consumi-lo

 

O mundo novo brilhava fruto de nossas mãos

– ainda ensanguentadas

A impossibilidade travada há anos a fio

Resplandecia ali na nossa frente

 

Cabia agora o futuro cantado em verso e prosa

Chegava a hora de o novo abrir-se em leque

Poesia e vida numa só

O grande salto salpicado de uma chuva fina

 

Todos os nossos mortos foram chamados

Um a um!

A beleza do eu de mãos entrelaçadas com o nós

Era chegada a hora!

 

Bendito é o fruto das lutas travadas

Enfim se fartar de mel!

Vida!

“A vida

– essa invenção magnífica da morte”.

Albano Martins

 

Meu pai está morrendo. Sinto-me como um vulcão de sentimentos múltiplos e variados. Como não sei o que fazer com isso, escrevo.

Há uma compreensão em mim. Tivemos tempo de ser amigos, confidentes; compartilhar. Tivemos tempo de ser “inimigos”, nos atacar. Tivemos tempo de fazer as pazes. Tivemos tempo de ser companheiros, cada um no seu caminho. E, setenta e quatro anos é um bom período na Terra, diante da conjuntura.

Há um sofrimento em mim. Por que meu pai não foi feliz? Por que um pobre soldado ficou tão cansado das batalhas? Por que a vida é tão injusta? Por que este pobre quando teve dinheiro já não tinha muito que fazer com ele? Por que tudo parece tão descompassado? Por que este sofrimento no seu final de vida? Por que tanta dor?

Mas, há um sofrimento maior em mim. Aquele que vê a vida tão frágil. Como tudo é tão frágil! Não é fácil enxergar a fragilidade, a linha tênue, os limites, a humanidade que poderia trilhar outro caminho e que ainda insiste no caminho do lucro, da exploração do homem pelo homem.

Há uma alegria em mim. A fortaleza da minha mãe, a sua compreensão. A solidariedade entre nós, família. Sinto que estamos juntos nesta batalha. Estamos juntos ao redor do patriarca que está morrendo. O patriarca que há muito tempo – parece – desistiu e se cansou. Ou percebeu o essencial da vida e o que realmente interessa são as pessoas que ama? Há muito tempo não canta mais. Não toca mais violão. Não faz mais poesia. Concentrou-se no essencial ou desistiu? Tenho a impressão que se sente fora do tempo, como se seu tempo não fosse este. Como o livro e filme “O Leopardo” – guardada as proporções – que fala de um nobre italiano que vê o ascenso da burguesia, que tem plena consciência de seu tempo de mudança, “mas que nada muda”.

Ao mesmo tempo sinto alegria de estar viva. Se tudo é tão frágil, viver cada minuto intensamente. Sou fruto do feijão e o sonho, a mãe e o pai. Tive chance de conhecer, de vivenciar as ferramentas que a mãe e o pai trouxeram para construir esta família. Tive oportunidade de ver florescer as bases sólidas que eles forjaram: a honestidade, o estar juntos, a solidariedade, o respeito às diferenças, o trabalho, e as coisas bobas também.

Humana que sou, espero um milagre ou o fim do sofrimento.

Em todo caso, é a vida.

 

Texto de Truman Capote sobre Marilyn Monroe, do livro Ensaios:

“Marilyn: Lembre-se, eu perguntei se alguém indagasse a você como eu sou, como é realmente Marilyn Monroe – bem, como você responderia, mesmo? (Seu tom era provocativo, debochado, mas franco, também: ela queria uma resposta honesta.) Aposto que diria que sou uma pateta. (…).

TC: É claro. Mas eu também diria…

(A luz se despedia. Ela parecia desaparecer com ela, misturar-se com o céu e as nuvens, recuar para além deles. Eu queria falar mais alto que os gritos das gaivotas e chamá-la de volta: Marilyn! Marilyn, por que tudo tinha de ser como foi? Por que a vida tem que ser tão miserável?)

TC: Eu diria…

Marilyn: Não consigo ouvi-lo.

TC: Eu diria que você é uma bela criança.”

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P.S. : Meu pai faleceu em dezembro de 2013.