À Leonilda

todos os caminhos que passo, a saída é uma só.

está sempre viva e alegre esperando que eu

passe por ela, nunca parei para pensar nisso,

pois, não sabia, não tinha tempo.

agora descobri que ela é a contradição da

sociedade: tudo e nada; além de ser

porém, é a saída de quem viveu sempre fechado.

compreendi que na vida não pode existir

tempo nem espaço

para se viver feliz.

liberdade…liberdade!

eis a saída

para a felicidade

para a vida, liberdade…

liberdade.

 

Duílio Antonio de Souza (Duka), Canto Exclusivo, fernando s/c ltda., 1983, Bauru – SP.

Pensamento

Eu, poeta curioso,
perguntei a um talismã,
qual seria o meu futuro,
sua resposta foi vã,
mandou que eu esperasse,
e consultasse o amanhã.

Compreendi que o futuro,
é o infinito que não vemos,
é um ser imaginário,
e com ele convivemos.
O futuro é, simplesmente,
O presente que vivemos.

 

Álvaro, meu pai, falecido em 2013. Do seu livro de poemas, Solidão, Fernando S/C Ltda., Bauru, SP, 1988.

 

n ismo ar ismo ter is lua ra ism ilu

(Para Leonilda)

 

Ainda não estou inútil
      tomei um chá
 e me senti Escuro
A noite ainda
      não é inútil
  E dentro de mim
  PELOS AVESSOS
           das RUAS
           Você Partiu
  Partiu – Quebrou-se
  Foi chorando...
  Julgando-se inútil
Mas ainda não somo inúteis
    Espero que
          As ruas tenham fim
  que a levem à uma praça
        dentro
        de nós
        e nessa praça
        Esteja o sol
        Então às claras nos veremos
                        outra vez
        E descobriremos
        Que é impossível
        Sermos eternamente inúteis 

Mapa

Murilo Mendes

 

Me colaram no tempo, 
me puseram
uma alma viva 
e um corpo desconjuntado. 

Estou limitado ao norte pelos sentidos, 
ao sul pelo medo,
a leste pelo Apóstolo São Paulo, 
a oeste pela minha educação.

Me vejo numa nebulosa, 
rodando sou um fluído,
depois chego à consciência da terra, 
ando como os outros,
me pregaram numa cruz, numa única vida.

Colégio. Indignado, me chamam pelo número, detesto a hierarquia.
Me puseram o rótulo de homem, vou rindo, 
vou andando, aos solavancos.

Danço. Rio e choro, estou aqui, estou ali, desarticulado, gosto de todos, não gosto de ninguém, batalho com os espíritos do ar,
alguém da terra me faz sinais, 
não sei mais o que é o bem nem o mal.

Minha cabeça voou acima da baía, estou suspenso, angustiado, no éter,
tonto de vidas, de cheiros, de movimentos, de pensamento,
não acredito em nenhuma técnica.

Estou com os meus antepassados, 
me balanço em arenas espanholas, é por isso que saio às vezes pra rua combatendo personagens imaginários, depois estou com os meus tios doidos, às gargalhadas, na fazenda do interior, olhando os girassóis do jardim

Estou no outro lado do mundo, 
daqui a cem anos, levantando populações…
Me desespero porque não posso estar presente a todos os atos da vida.

Onde esconder minha cara? O mundo samba na minha cabeça. Triângulos, estrelas, noite, mulheres andando, presságios brotando no ar, 
diversos pesos e movimentos me chamam a atenção o mundo vai mudar a cara, a morte revelará o sentido verdadeiro das coisas.

Andarei no ar.
Estarei em todos os nascimentos
e em todas as agonias, 
me aninharei nos recantos do corpo da noiva,
na cabeça dos artistas doentes, dos revolucionários.

Tudo transparecerá: 
vulcões de ódio, explosões de amor, outras caras aparecerão na terra, o vento que vem da eternidade suspenderá os passos 
dançarei na luz dos relâmpagos, 
beijarei sete mulheres vibrarei nos cangerês do mar, abraçarei as almas no ar
me insinuarei nos quatro cantos do mundo.

Almas desesperadas eu vos amo. 
Almas insatisfeitas, ardentes. 
Detesto os que se tapeiam, 
os que brincam de cabra-cega com a vida, os homens “práticos”…

Viva São Francisco e vários suicidas e amantes suicidas, 
os soldados que perderam a batalha, 
as mães bem mães, 
as fêmeas bem fêmeas, 
os doidos bem doidos.

Vivam os transfigurados, ou porque eram perfeitos ou porque jejuavam muito.
viva eu, que inauguro no mundo o estado de bagunça transcendente.

Sou a presa do homem que fui há vinte anos passados, dos amores raros que tive,
vida de planos ardentes, desertos vibrando sob os dedos do amor, 
tudo é ritmo do cérebro do poeta. 

Não me inscrevo em nenhuma teoria,
estou no ar, na alma dos criminosos, 
dos amantes desesperados, no meu quarto modesto da praia de Botafogo, no pensamento dos homens que movem o mundo, 
nem triste nem alegre,    chama com dois olhos andando, sempre em transformação.

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Pelas ruas de Curitiba

O Grande Desastre Aéreo de Ontem

Jorge de Lima

 

Para Portinari

 

Vejo sangue no ar, vejo o piloto que levava uma flor para a noiva, abraçado com a hélice. E o violinista em que a morte acentuou a palidez, despenhar-se com sua cabeleira negra e seu estradivárius. Há mãos e pernas de dançarinas arremessadas na explosão. Corpos irreconhecíveis identificados pelo Grande Reconhecedor. Vejo sangue no ar, vejo chuva de sangue caindo nas nuvens batizadas pelo sangue dos poetas mártires. Vejo a nadadora belíssima, no seu último salto de banhista, mais rápida porque vem sem vida. Vejo três meninas caindo rápidas, enfunadas, como se dançassem ainda. E vejo a loucura abraçada ao ramalhete de rosas que ela pensou ser o pára-quedas, e a prima-dona com a longa cauda de lantejoulas riscando o céu como um cometa. E o sino que ia para uma capela do oeste, vir dobrando finados pelos pobres mortos. Presumo que a moça adormecida na cabine ainda vem dormindo, tão tranquila e cega! Ó amigos, o paralítico vem com extrema rapidez, vem como uma estrela cadente, vem com as pernas do vento. Chove sangue sobre as nuvens de Deus. E há poetas míopes que pensam que é o arrebol.

 

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da minha janela

Beta

(De um louco anônimo – transcrito por Caco Barcelos na reportagem “Crime e loucura”, publicada na extinta Folha da Manhã, Porto Alegre, RS.)

 

Estive doente

doente dos olhos, doente da boca, dos nervos até.

Dos olhos que viram mulheres formosas

da boca que disse poemas em brasa

dos nervos manchados de fumo e café.

Estive doente

estou em repouso, não posso escrever.

Eu quero um punhado de estrelas maduras

eu quero a doçura do verbo viver.

 

Do livro O Ovo Apunhalado, Caio Fernando Abreu.

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Da minha janela

Todas as Vidas

Cora Coralina

 

Vive dentro de mim

uma cabocla velha

de mau-olhado,

acocorada ao pé do borralho,

olhando pra o fogo.

Benze quebranto.

Bota feitiço…

Ogum. Orixá.

Macumba, terreiro.

Ogã, pai-de-santo…

 

Vive dentro de mim

a lavadeira do Rio Vermelho.

Seu cheiro gostoso

d’água e sabão.

Rodilha de pano.

Trouxa de roupa,

pedra de anil.

Sua coroa verde de são-caetano.

 

Vive dentro de mim

a mulher cozinheira.

Pimenta e cebola.

Quitute bem-feito.

Panela de barro.

Taipa de lenha.

Cozinha antiga

toda pretinha.

Bem cacheada de picumã.

Pedra pontuda.

Cumbuco de coco.

Pisando alho-sal.

 

Vive dentro de mim

a mulher do povo.

Bem proletária.

Bem linguaruda,

desabusada, sem preconceitos,

de casca-grossa,

de chinelinha,

e filharada.

 

Vive dentro de mim

a mulher roceira.

– Enxerto da terra,

meio casmurra.

Trabalhadeira.

Madrugadeira.

Analfabeta.

De pé no chão.

Bem parideira.

Bem criadeira.

Seus doze filhos,

Seus vinte netos.

 

Vive dentro de mim

a mulher da vida.

Minha irmãzinha…

tão desprezada,

tão murmurada…

Fingindo alegre seu triste fado.

 

Todas as vidas dentro de mim:

Na minha vida –

a vida mera das obscuras.

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Cora coragem Cora Coralina 

 

 

 

 

Correios e telecomunicações

Julio Cortázar

 

Uma vez que um parente nosso muito afastado chegou a ser ministro, conseguimos que ele nomeasse boa parte da família para a sucursal do Correio da rua Serrano. Mas durou pouco. Dos três dias que estivemos lá, passamos dois atendendo o público com uma rapidez extraordinária, que provocou a surpreendida visita de um inspetor do Correio Central e um tópico elogioso em La Razón. No terceiro dia estávamos certos de nossa popularidade, pois as pessoas já vinham de outros bairros para despachar a correspondência e mandar vales postais a Purmamarca e outros lugares igualmente absurdos. Então meu tio mais velho deu sinal verde e a família começou a atender o público de acordo com seus princípios e preferências. No guichê de franquia postal, minha segunda irmã dava de presente uma bola colorida a cada comprador de selos. A primeira a receber a sua bola foi uma senhora gorda que ficou como que paralisada, com a bola na mão e o selo de um peso já umedecido que se enroscava aos poucos em seu dedo. Um jovem cabeludo recusou-se a receber sua bola, e minha irmã o repreendeu severamente, enquanto na fila do guichê começavam a levantar-se opiniões desencontradas. Ao lado, vários provincianos empenhados em remeter insensatamente parte de seus salários para parentes remotos, recebiam com certo assombro copinhos de bagaceira e de quando em quando pastel de carne, tudo isso por conta de meu pai, que além do mais recitava aos gritos os melhores conselhos do viejo Vizcacha¹. Entretanto meus irmãos, encarregados do guichê de encomendas, as besuntavam com piche e as enfiavam num balde cheio de penas. Depois as apresentavam ao assombrado remetente e lhe faziam notar com quanta alegria seriam recebidos os embrulhos assim melhorados.  “Sem barbante à vista”, diziam. “Sem o lacre tão vulgar, e o nome do destinatário que parece enfiado debaixo da asa de um cisne, repare só”. Para ser franco, nem todos se mostravam encantados.

Quando os curiosos e a polícia invadiram o local, minha mãe encerrou o ato da maneira mais linda, fazendo voar sobre o público uma multidão de flechinhas coloridas, fabricadas com os formulários de telegramas, vales postais e cartas registradas. Cantamos o hino nacional e retiramo-nos na mais perfeita ordem; vi chorar uma menina que era a terceira colocada na fila da venda de selos e sabia que tinha perdido a vez de ganhar uma bola.

 

¹ “El viejo Vizcacha”, personagem do livro Martín Fierro, do poeta argentino José Hernández (La vuelta de Martín Fierro, Cap. XV). (N. da T.).

Histórias de cronópios e de famas, Civilização Brasilileira, RJ, 2009, pp. 27-8.