Nós de Família

“Que isso foi o que sempre me invocou, o senhor sabe: eu careço de que bom seja bom e o rúim ruím, que dum lado esteja o preto e do outro o branco, que o feio fique bem apartado do bonito e a alegria longe da tristeza! Quero os todos pastos demarcados… Como é que posso com este mundo? A vida é ingrata no macio de si; mas transtraz a esperança mesmo do meio do fel do desespero. Ao que, este mundo é muito misturado…” (Grande Sertão: Veredas, Guimarães Rosa, p. 237).

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Da esquerda para direita: minha mãe, minha tia falecida, eu.  Minha irmã na frente.

Laços de Família, Clarice Lispector (Editora Rocco), é assim: tudo “muito misturado”. A dona-de-casa, classe média, que – aparentemente – nada tem a dizer, transborda nos contos. Seu mundo particular de uma vida doméstica – aparentemente sem sobressaltos – vai ecoando em desejos, mágoas, ligeira revolta, e pressentimentos de que algo não funciona. A vida certinha demais, com cozinheira, empregada, explode sob quaisquer pretextos. Uma fúria latente encostando-se às bordas da prisão doméstica. Que grita! Mas, volta ao seu dia-a-dia sufocada depois de se mirar no espelho. Cada conto é um soco na boca do estômago. Cada conto o mesmo olhar de mulher. Mesmo sendo homem, velho, menino, garota, bicho.

Em Devaneio e Embriaguez Duma Rapariga, uma mulher e sua máscara. O cotidiano, a raiva.   Amor descortina a vida de Ana, cujo perigo maior é uma “certa hora da tarde” onde não é solicitada pelo “marido verdadeiro”, pelos “filhos verdadeiros”. Uma Galinha mostra uma luta intensa e selvagem pela sobrevivência. A Imitação da Rosa, Laura na corda bamba. Depois de um colapso nervoso e internamento, tenta desesperadamente mostrar que está bem, cumprir suas funções. No entanto, a linha é tênue. Feliz Aniversário, é mais que ironia, é escarnio. O desprezo pela vida que falhara. Posse e amor se mirando, se entrelaçando, diante do raro; é a “perversa ternura”, é o “amor tirano”, em A Menor Mulher do Mundo. Um homem que vislumbra seu futuro: um velho cansado, em O Jantar.  A narradora, em Preciosidade, é uma garota de quinze anos. O conto se inicia num tom alegre pela primeira vez. Mas, não se iluda caro leitor. A narrativa vai, devagarinho, construindo o ápice atroz: é duro, é triste. “Estou sozinha no mundo”. Os Laços de Família é a máscara, os papéis cumpridos e repetidos: “Como se ‘mãe e filha’ fossem vida e repugnância”. O garoto querendo enriquecer, vendo a garota como se o usasse, em Começos de uma fortuna.  O Mistério em São Cristóvão são mascarados roubando, violando a “paz” da família. O Crime do Professor de Matemática é ter transformado sua vida em contas matemáticas; ter “cabeça matemática” para todas as situações. E, O Búfalo. O conto começa com um “Mas era primavera”, e a mulher ruminando ódio, amor desfeito, contradições, desprezo.

Lúcia Helena – em sua apresentação do livro, cuja primeira edição é de 1960 – chama a atenção para a suposta facilidade do texto. “Em poucas linhas (o leitor) será posto em contato com um mundo em que o insólito acontece e invade o cotidiano”. E seus pequenos detalhes “deflagram o entrechoque de mundos e fronteiras”.

 Os laços de família são nós violentos, máscaras, papéis cumpridos sob uma rebeldia internalizada. São “ao mesmo tempo de afeto e de aprisionamento” (Lúcia Helena). Laços de Família escancara um mundo interno daquela que não tem voz.

E a gente querendo que essa vida ingrata “no macio de si” transtraga “a esperança mesmo do meio do fel do desespero”.

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“eu era tão menina/ e ainda sou…(Maninha, Chico Buarque).
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