Todas as Vidas

Cora Coralina

 

Vive dentro de mim

uma cabocla velha

de mau-olhado,

acocorada ao pé do borralho,

olhando pra o fogo.

Benze quebranto.

Bota feitiço…

Ogum. Orixá.

Macumba, terreiro.

Ogã, pai-de-santo…

 

Vive dentro de mim

a lavadeira do Rio Vermelho.

Seu cheiro gostoso

d’água e sabão.

Rodilha de pano.

Trouxa de roupa,

pedra de anil.

Sua coroa verde de são-caetano.

 

Vive dentro de mim

a mulher cozinheira.

Pimenta e cebola.

Quitute bem-feito.

Panela de barro.

Taipa de lenha.

Cozinha antiga

toda pretinha.

Bem cacheada de picumã.

Pedra pontuda.

Cumbuco de coco.

Pisando alho-sal.

 

Vive dentro de mim

a mulher do povo.

Bem proletária.

Bem linguaruda,

desabusada, sem preconceitos,

de casca-grossa,

de chinelinha,

e filharada.

 

Vive dentro de mim

a mulher roceira.

– Enxerto da terra,

meio casmurra.

Trabalhadeira.

Madrugadeira.

Analfabeta.

De pé no chão.

Bem parideira.

Bem criadeira.

Seus doze filhos,

Seus vinte netos.

 

Vive dentro de mim

a mulher da vida.

Minha irmãzinha…

tão desprezada,

tão murmurada…

Fingindo alegre seu triste fado.

 

Todas as vidas dentro de mim:

Na minha vida –

a vida mera das obscuras.

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Cora coragem Cora Coralina 

 

 

 

 

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Habitar o tempo

João Cabral de Melo Neto

 

Para não matar seu tempo, imaginou:
vivê-lo enquanto ele ocorre, ao vivo;
no instante finíssimo em que ocorre,
em ponta de agulha e porém acessível;
viver seu tempo: para o que ir viver
num deserto literal ou de alpendres;
em ermos, que não distraiam de viver
a agulha de um só instante, plenamente.
Plenamente: vivendo-o de dentro dele;
habitá-lo, na agulha de cada instante,
em cada agulha instante: e habitar nele
tudo o que habitar cede ao habitante.

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E de volta de ir habitar seu tempo:
ele corre vazio, o tal tempo ao vivo;
e, como além de vazio, transparente,
o instante a habitar passa invisível.
Portanto: para não matá-lo, matá-lo;
matar o tempo, enchendo-o de coisas;
em vez do deserto, ir viver nas ruas
onde o enchem e o matam as pessoas;
pois, como o tempo ocorre transparente
e só ganha corpo e cor com seu miolo
(o que não passou do que lhe passou),
para habitá-lo: só no passado, morto.

João Cabral de Melo Neto dedicou este poema para A F. A. Bandeira de Melo.

 

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Curitiba no passado

 

 

 

 

 

 

 

 

Não Vás Tão Docilmente

Dylan Thomas

Tradução Augusto de Campos

 

Não vás tão docilmente nessa noite linda;
Que a velhice arda e brade ao término do dia;
Clama, clama contra o apagar da luz que finda.

Embora o sábio entenda que a treva é bem-vinda
Quando a palavra já perdeu toda a magia,
Não vás tão docilmente nessa noite linda.

O justo, à última onda, ao entrever, ainda,
Seus débeis dons dançando ao verde da baía,
Clama, clama contra o apagar da luz que finda.

O louco que, a sorrir, sofreia o sol e brinda,
Sem saber que o feriu com a sua ousadia,
Não vás tão docilmente nessa noite linda.

O grave, quase cego, ao vislumbrar o fim da
Aurora astral que o seu olhar incendiaria,
Clama, clama contra o apagar da luz que finda.

Assim, meu pai, do alto que nos deslinda
Me abençoa ou maldiz. Rogo-te todavia:
Não vás tão docilmente nessa noite linda.
Clama, clama contra o apagar da luz que finda.

Da minha janela
da minha janela

Alcoólicas

Hilda Hilst

 

I

 

É crua a vida. Alça de tripa e metal.

Nela despenco: pedra mórula ferida.

É crua e dura a vida. Como um naco de víbora.

Como-a no livor da língua

Tinta, lavo-te os antebraços, Vida, lavo-me

No estreito-pouco

Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha vida

Tua unha plúmbea, meu casaco rosso.

E perambulamos de coturno pela rua

Rubras, góticas, altas de corpos e copos.

A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos.

E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima

Olho d’água, bebida. A vida é líquida.

 

II

 

Também são cruas e duras as palavras e as caras

Antes de nos sentarmos à mesa, tu e eu, Vida

Diante do coruscante ouro da bebida. Aos poucos

Vão se fazendo remansos, lentilhas d’água, diamantes

Sobre os insultos do passado e do agora. Aos poucos

Somos duas senhoras, encharcadas de riso, rosadas

De um aroma, um que entrevi no teu hálito, amigo

Quando me permitiste o paraíso. O sinistro das horas

Vai se fazendo tempo de conquista. Langor e sofrimento

Vão se fazendo olvido. Depois deitadas, a morte

É um rei que nos visita e nos cobre de mirra.

Sussurras: ah, a vida é líquida.

 

III

 

Alturas, tiras, subo-as, recorto-as

E pairamos as duas, eu e a Vida

No carmim da borrasca. Embriagadas

Mergulhamos nítidas num borraçal que coaxa.

Que estilosa galhofa. Que desempenados

Serafins. Nós duas nos vapores

Lobotômicas líricas, e a gaivagem

Se transforma em galarim, e é translúcida

A lama e é extremoso o Nada.

Descaso o dementado cotidiano

E seu rito pastoso de parábolas.

Pacientes, canonisas, muito bem-educadas

Aguardamos o tépido poente, o copo, a casa.

 

Ah, o todo se dignifica quando o vida é líquida.

 

IV

 

E bebendo, Vida, recusamos o sólido

O nodoso, a friez-armadilha

De algum rosto sóbrio, certa voz

Que se amplia, certo olhar que condena

O nosso olhar gasoso: então, bebendo?

E respondemos lassas lérias letícias

O lusco das lagartixas, o lustrino

Das quilhas, barcas, gaivotas, drenos

E afasta-se de nós o sólido de fechado cenho.

Rejubilam-se nossas coronárias. Rejubilo-me

Na noite navegada, e rio, rio, e remendo

Meu casaco rosso tecido de açucena.

Se dedutiva e líquida, a Vida é plena.

 

V

 

Te amo, Vida, líquida esteira onde me deito

Romã baba alcaçuz, teu trançado rosado

Salpicado de negro, de doçuras e iras.

Te amo, Líquida, descendo escorrida

Pela víscera, e assim esquecendo

Fomes

País

O riso solto

A dentadura etérea

Bola

Miséria.

Bebendo, Vida, invento casa, comida

E um Mais que se agiganta, um Mais

Conquistando um fulcro potente na garganta

Um látego, uma chama, um canto. Ama-me.

Embriagada. Interdita. Ama-me. Sou menos

Quando não sou líquida.

 

VI

 

Vem, senhora, estou só, me diz a Vida.

Enquanto te demoras nos textos eloquentes

Aqueles onde meditas a carne, essa coisa

Que geme sofre e morre, ficam vazios os copos

Fica em repouso a bebida, e tu sabes que ela é mais viva

Enquanto escorre. Se te demoras, começas a pensar

Em tudo que se evola, e cantarás: como é triste

O poente. E a casa como é antiga. Já vês

Que te fazes banal na rima e na medida.

Corre. O casaco e o coturno estão em seus lugares.

Carminadas e altas, vamos rever as ruas

E como dizia o Rosa: os olhos nas nonadas.

Como tu dizes sempre: os olhos no absurdo.

 

Vem. Liquidifica o mundo.

 

VII

 

Mandíbulas. Espáduas. Frente e avesso.

A Vida ressoa o coturno na calçada.

Estou mais do que viva: embriagada.

Bêbados e loucos é que repensam a carne o corpo

Vastidão e cinzas. Conceitos e palavras.

Como convém a bêbados grito o inarticulado

A garganta candente, devassada.

Alguns se ofendem. As caras são paredes. Deitam-me.

A noite é um infinito que se afasta. Funil. Galáxia.

Líquida e bem-aventurada, sobrevoo. Eu, e o casaco rosso

Que não tenho, mas que a cada noite recrio

Sobre a espádua.

 

VIII

 

O casaco rosso me espia. A lã

Desfazida por maus-tratos

É gasta e rugosa nas axilas.

A frente revela nódoas vivas irregulares, distintas

Porque quando arranco os coturnos

Na alvorada, ou quando os coloco rápida

Ao crepúsculo, caio sempre de bruços.

A Vida é que me põe em pé. E a sede.

E a saliva. A língua procura aquele gosto

Aquele seco dourado, e acaricia os lábios

Babando impudente no casaco.

 

É bom e manso o meu casaco rosso

Às vezes grita: ah, se te lembrasses de mim

Quando prolixa. Lava-me, hilda.

 

IX

 

Se um dia te afastares de mim, Vida — o que não creio

Porque algumas intensidades têm a parecença da bebida —

Bebe por mim paixão e turbulência, caminha

Onde houver uvas e papoulas negras (inventa-as)

Recorda-me, Vida: passeia meu casaco, deita-te

Com aquele que sem mim há de sentir um prolongado vazio.

Empresta-lhe meu coturno e meu casaco rosso: compreenderá

O porquê de buscar conhecimento na embriaguez da via manifesta.

Pervaga. Deita-te comigo. Apreende a experiência lésbica:

O êxtase de te deitares contigo. Beba.

Estilhaça a tua própria medida.

 

 

O Morto (I)

Manoel de Barros 

de Poesias (1947)

 

A chuva lavou

As pessoas do morto

E lavou o morto

Com a sua fisionomia

De torto

E com seus pés de morto

Que arrastava um rio seco

E suas mãos de morto

Onde se dependurou

Insistente, um gesto oco.

À noite enterrou-se

O homem

Na raiz de um muro

Com sua roupa no corpo.

E a chuva regou no horto

Desse vitorioso

Homem morto

Enormes violetas

E uns caramujos férteis…

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Nós, tal dia

Rei Seely, poeta haitiano radicado em Curitiba.

 

Eu lembro ontem

quando os raios de ouro

do sol luzidos na paisagem

sobre o canto de papagaio

 

Eu lembro carta de flor

numa noite-de-cor

de versos e de rimas

com meus colegas

 

Eu lembro a brincadeira

das crianças na favela

depois sair da escola

nas ruas da Vida

 

Eu tenho nostalgia

de ver os espaços lazeres

com a bagunça picante

que rojem as crianças.

Pulando corda
Pulando Corda no Harlem, Raymond Depardon, 1981, https://pro.magnumphotos.com

Milton Cego

Olavo Bilac

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Desvendava-se ao cego o mistério: (As idades

Sem princípio; de sol a sol, de terra a terra,

A eterna combustão que maravilha e aterra,

Geradora de bens e de felicidade;

 

Cordilheiras de espanto e esplendor, serra a serra,

De infinito a infinito; asas em tempestades,

Tronos, Dominações, Virtudes, Potestades,

Luz contra luz, furor de chama e glória em guerra;

 

E os rebeldes, rodando em rugidoras vagas;

E o Éden, e a tentação, e, entre o opróbrio e a alegria,

O amor florindo ao pé da amaldiçoada porta;

 

E o Homem em susto, o céu em ira, o inferno em pragas;

E, imperturbável, Deus, na sua glória!…) Ardia

O poema universal numa retina morta.