Poema que não consigo escrever

Todos os dias arrumo os lençóis
danço, me alongo
choro num verso
percebo notícias
Mas o verdadeiro poema não consigo escrever.

Mando mensagens
recebo desejos
preparo a comida
danço com pássaros
Mas o verdadeiro poema não consigo escrever.

Suspiro num conto
me alongo num filme
deliro, me embriago,
sinto a primeira estrela da noite
Mas o verdadeiro poema não consigo escrever.

Talvez o verdadeiro poema
seja a cama desarrumada
Sei lá…

Léo

Casa vazia

“É difícil dizer que o mundo em que vivemos é uma realidade ou um sonho”
“It’s hard to tell that the world we live in is either a reality or a drem”
Kim Ki-duk, Casa Vazia.

 

Casa vazia… ocupada por um homem bonito, olhos negros, profundos, de uma fúria… fúria controlada. O protagonista de Casa Vazia, filme escrito e dirigido por Kim Ki-duk (Coreia do Sul, 2004), é um motoqueiro que vive margeando a sociedade. De dia cola cartazes de propaganda em casas, apartamentos. De noite, ocupa uma casa ou apartamento de moradores que não tiraram os cartazes da porta denunciando suas ausências. Ele entra, conhece o lugar, usa suas roupas, sua pasta de dentes, faz comida com que encontra na geladeira, dorme em suas camas,usufruindo do lugar não ocupado. De manhã, lava roupas, limpa a casa, não rouba nada, e não deixa vestígios, somente pequenos consertos que faz em relógios, aparelhos de som, balança. E assim prossegue sua rotina: ocupação invisível.

Certa noite adentra uma casa que julga vazia. Vê álbum de foto da moradora nua, seu retrato na parede, e vai se apaixonando. Mas a moradora está lá, invisível para ele, com marcas em seu rosto da violência do marido. Ela o acompanha pelos cômodos sem se deixar notar, sem se amedrontar. Curiosa. Até que se vêem, sem palavras. Ela vai para banheira, ele põe uma música – linda. Ele escolhe uma roupa para ela, ela se veste. Não se tocam, não se falam. Se apaixonam e ela abandona o marido abusivo.

Os dois ocupam as casas. Juntos na rotina invisível. Ela lava as roupas, ele cozinha. Há compreensão.

“Mas uma boa trama tem lá seus conflitos”, disse alguém. Na adversidade se separam. O marido a usurpa de novo. Ele é preso e vítima de um policial truculento. Eles sofrem a ausência um do outro. Ela se nega ao marido. Ele se aperfeiçoa na invisibilidade.

Ao final só são visíveis um para o outro. Invisíveis para o mundo.

Belo filme. Violência e poesia se permeando; uma entrelaçada na outra. Poético.

Léo

Jorge e Elisa

“Mas você sabe, devoto dedicado, eu vejo e acredito
que lutamos juntos por um mundo melhor
sem nem saber qual,
claro tendo apenas que tudo tem que ser mudado”
do blog antalgicapoetica.com

 

Mônica viajou com mais dois amigos. Foram de carro até uma cidade mineira. Caminho longo, travessia de balsa, fila, e a música Tradição com Gil e Caetano rolando. A última trincheira era um rio. Ainda bem que não estava cheio. Um dos amigos tinha feito universidade com Jorge e Elisa.

Mônica chega num sítio. A casa foi construída pelas mãos de Jorge e Elisa, com ajuda de moradores locais. Casa de chão batido e sem luz elétrica. Com cachoeira no “quintal”.

Os amigos logo iniciam grandes conversas, contam histórias, lembranças, memórias, futuros. Fogueira. Maconha. Bebida.

Elisa conta a barra de ser mulher naquelas paragens. A natureza exuberante contracenando com machismo e outras mulheres a olhando como se fosse bicho esquisito: bebe sozinha no bar, trabalha duro junto com seu companheiro. Elisa sente falta do mundo.

Jorge fala de política. A natureza vigorosa em meio à disputas familiares. Cabrestos eleitorais. Morte. Ele, professor de história ensinando mudanças.

Entre tantos casos, Mônica presta atenção no de um amigo do casal daquelas bandas: viajava muito, pois era seu trabalho. Mulher e filhos sempre sós. Esse amigo volta de uma de suas viagens e fica sabendo do amante. A cidade toda comenta. Jorge e Elisa preocupados. A morte por ali é fácil.

No domingo, outras pessoas aparecem, incluindo o marido traído. Todos vão tomar banho na cachoeira, fazer caminhada, fumar um baseado. Na volta, preparam o almoço.

Mônica numa certa hora vai fumar. Senta-se num banco sob uma árvore. O traído senta-se ao seu lado. Conta-lhe sua história: trabalha duro, viaja muito. E quando volta para casa, encontra sua mulher o traindo. Amante. Chifres. Não lhe restava outra saída senão matá-los. É o que se exige, diz ele. Mônica o ouve interessada. Nunca tinha escutado este ponto de vista. Após ouvi-lo com muita atenção, mostra o ponto de vista da mulher traidora: sempre só, dando conta dos filhos, do dia a dia, das penúrias de quem fica. Nunca viaja. Imagina sim, seu marido nos braços de outra,  longe e ausente. O traído ouve Mônica. Riem. Trocam ideias. Mônica soube, tempos depois, que as mortes não aconteceram.

Mônica volta sozinha de ônibus. Fará uma nova viagem. Acorda muito cedo. Jorge a leva de carroça até a rodoviária.

O sol nascendo, o trote do cavalo, um baseado. Jorge falando de si numa voz mansa e macia.

Mônica nunca se esquece de Jorge e Elisa. Eles são muito bonitos.

Léo.

Entardecer

“O dia e a noite se encontrarão a caminho de outros tempos”
blog https://chronosfer2.wordpress.com/2020/07/21/fotografia-melancolia

 

Fresta entre dois mundos
Pombas em revoada, despedida da clara majestade
logo se agasalharão.
Clarões do sol pintando o céu
lentamente dando seu adeus – até logo.

Noite vem aos pouquinhos…
para o mundo ir se acostumando
com as sombras do outro mundo.

Enlace dos soberanos – o luminoso e a escuridão
Beijo ligeiro
Mãos rapidamente entrelaçadas
Amantes fugidios

um sax tocando…

Fresta!

Léo

 

desenho nenhum

tem dias que se sente só o gosto do acabou
respiração como dor
tortura do sol que insiste em nascer
e o coração em chuva
a poesia não dá conta
contudo é a arma que pratico
e sou capaz de me deitar às seis da tarde
só para que o dia termine

milagre, quero milagres mil

flores arrebentando meu peito feito fúrias
e que esta febre latejante me sufoque
como um dia sufocante de verão
e me traga um amanhã, sei lá

estou cansada
Sei viver não…

Léo

Números em desfile

Mundo entristecido
Campo extenso de mortos
Rostos encobertos
Sorrisos perdidos
Bares esquecidos
A grande festa dos índios do fim do luto
não será possível
Quem morre não será bonito no outro mundo
Espíritos machucados
Silêncio

Rapinas de plantão
Aproveitadores não dormem

A luta também não
mesmo com o coração sangrando

Até quando contaremos nossos mortos?

às vezes tenho que proferir a palavra deus
onde tudo está incluído
sendo ateia, compreende?

Léo

Encontro

Conjugo o verbo trocar que é o universo inteiro

 

Li teus versos e atingi o sublime
Vi aquela receita e deu água na boca
Sofri contigo na dor da existência
Questionei junto o porquê de tanta ganância.

Fotografias… senti o tempo
A fagulha de ser avó
O desbunde de ter mais de 60
Ouvi miados verdadeiros rugidos de leão
E depressão em poesia.

Senti de novo a força do primeiro amor
Dores, perdas, a solidão palpitando
O alívio que você sentiu em ter escrito.

Ai, essa ironia, sarcasmo… aquele cinismo
que só os que amam demais são capazes.
Morro de curiosidade em saber o que acha dos meus escritos.

E a caveira transformada em arte?
E o mineiro que já conheço o nome da mãe, pai, avó?
Já é de casa, uai.
E a sabedoria daquele que fuma um no rolê?

Aquele conto teu me lembrou uma música
Aquela música que apresentou me lembrou um filme
Aquele filme que indicou, falava da vida, não falava?

Viajei para lugares que nunca estarei
Retratos em sombras, tintas, viseiras, uma mecha de cabelo
Retrato nenhum

E aquele que não escreve mais?
Aquelas mulheres… sinto falta delas.

E ri, ri muito, gargalhei até.

Tem sumido que aparece todo dia
Tem vômito, conversas e flores, a riscar que não risco nada
Tem spoilers tão necessários. Cadê você?
Palavras vãs, que de vãs não tem nada
Tem os ausentes que sinto falta e os que me esqueceram
Contos do nada, fadados, do dia
Tem devaneios, palavras inconstantes, a estranhamente, poetas e mais poetas…

Tem de várias partes do mundo e daqui , me lembrando a vastidão.

Minha família sempre comigo!
Os seguidores que pouco sei.

Há o que me segue só para ser seguido. Bobo.
Há desfile de egos. Bobagem.

É uma turma, sabe? É gente de todo tipo.

Poemas feitos para mim. Poemas que fiz para eles.

E comentários que me faz sentir que vale a pena!

Dois anos de blog, sou “amorosa do ofício”∗!

Encontro…

Ei delícia!

∗Guimarães Rosa

Léo

 

Sedução

Arremesso pelos ares
meu chamado
E você sente a brisa
mesmo sufocado em armadilhas do cotidiano

E, voejando, vem beijar a minha boca

Invento percalços
Conto mentiras
Digo um presságio
Confisco tua existência
Saboto tua memória
Rastreio tuas vontades
Sussurro desejos
Passeio por teu corpo
Peregrino teus sonhos
Aprisiono teus instintos

E, zás, o envolvo em minha teia

Solto a imaginação

E te seduzo até o amanhecer… 

 

P.S. O nome do poema me veio de um comentário de Estevam,
blog https://estevamweb.wordpress.com/. Merci.

Léo

 

Meu tio o Iauaretê

“Agora, tenho nome nenhum, não careço. Nhô Nhuão Guede me chamava de Tonho Tigreiro. Nhô Nhuão Guede me trouxe pr’aqui, eu nhum, sozim. Não devia! Agora tenho nome mais não. (…) eh, sou onça!” Guimarães Rosa.

 

Guimarães Rosa levou mais de vinte anos para escrever o conto Meu Tio O Iauaretê (Estas estórias, RJ, Nova Fronteira, 1985), segundo um professor que tive. Conto que é bom de ser lido com calma. Pausado. Sentir o ritmo. Ritmo da caça. Dá prazer. O próprio som da palavra é seu significado. Significante. Ler de madrugada, melhor ainda. No quieto. “Hum? Eh-eh… É. Nhor sim. Ã-hã, quer entrar, pode entrar… Hum, hum. Mecê sabia que eu moro aqui? Como é que sabia?” (p. 160). Assim é o início do conto. Assim entramos em outro mundo.

O pronome possessivo “meu” no título aproxima o leitor e o transforma em sobrinho. A narrativa se dá ao mesmo tempo da ação, presentifica, o leitor é transportado para “dentro”. O narrador é como um felino brincando com sua presa. O movimento do texto é o mesmo da caça. Tonho Tigreiro é o narrador. É o que fala. Mecê é o interlocutor, sem voz, sabemos dele por Tonho. Como Riobaldo de Grande Sertão: Veredas, também de Rosa. O narrador foi contratado por Nhô Nhuão Guede para acabar com as onças, que acabavam com o gado, numa espécie de missão civilizatória. Ele está na linha tênue entre civilização e barbárie, o humano e o animal. O “onceiro” se afasta do urbano, dos homens. “Só eu é que sabia caçar onça. Por isso Nhô Nhuão Guede me mandou ficar aqui, mor de desonçar este mundo todo” (p. 163). “Sozinho, o tempo todo (…). Tenho pai nem mãe. Só matava onça” (p. 187). 

Acontece que o caçador “vê” a caça, se enamora dela: “Sabia o que a onça tava pensando (…). Eh, então mecê aprende: onça pensa só uma coisa — é que tá tudo bonito, bom, bonito, bom, sem esbarrar. Pensa só isso, o tempo todo, comprido (…)” (p. 187-8). O onceiro mata mais não, “agora elas todas têm nome. Que eu botei? Axi! Que eu botei, só não, eu sei que era mesmo o nome delas” (p. 177). Onça. agora, “é meu parente” (p. 162). “Eu sou onça… Eu – onça!” (p. 171). 

O caçador não é mais necessário. O interlocutor, Mecê, tem a missão de exterminá-lo. O caçador vira caça. Mecê tem tudo: revólver, relógio, dinheiro, cachaça, cavalo, e a missão de exterminar quem está fora da pirâmide social, o que não se enquadra, o bárbaro. Nhô Nhuão Guede, que o deixou sozinho, abandonado, o usou e agora quer descartá-lo. O narrador só tem a voz. 

E que voz! Inquietante. Descreve todo o movimento das onças na caçada: “Vão caçar caladas” (p. 172). E Maria-Maria é o seu amor. “Elas sabem que eu sou do povo delas. Primeira que eu vi e não matei, foi Maria-Maria. (…). De madrugada, eu tava dormindo. Ela veio. Ela me acordou (…). Vi aqueles olhos bonitos, olho amarelo, com as pintinhas pretas bubuiando bom, adonde aquela luz…” (p 173-4). E que boniteza esse amor. “Eh, eh, eu fiquei sabendo…Onça que era onça – que ela gostava de mim, fiquei sabendo… Abri os olhos, encarei”. “Ói: onça Maria-Maria eu vou trazer pra cá, deixo macho nenhum com ela não. Se eu chamar, ela vem” (p. 179). 

Tantas questões cabem neste conto… Quem é o bárbaro? Quem é o civilizado? É civilizado o extermínio da onça? É barbárie aprender a beleza da onça? Ah, Civilização, “desvira esse revólver!” (p. 198). 

Léo