OS LIVROS QUE NÃO ESCREVI

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Gilberto Scarpa fez um curta-metragem chamado Os Filmes Que Não Fiz. Gostei da brincadeira: dos filmes que não realizou, fez um. E eu escrevo um texto sobre livros que me impactaram.

Desde garota gostava muito de ler. O que me chegava à mão. Mergulhar em outro mundo, conhecer pessoas, brincar com as palavras. Fugir de uma infância pobre num mundo cheio de tristezas. Ler era como percorrer outros caminhos. Li muitos gibis, fotonovelas de amor, livrinhos de faroeste, fotonovelas de agente secreto em plena Guerra Fria. E romances. Creio que meu primeiro amor – e que permanece até os dias de hoje – foi Machado de Assis. Sua ironia fina, seu ceticismo querendo acreditar, e suas brincadeiras com o leitor (“Caro leitor…”) o chamando para dentro da história.

Na juventude conheci os textos políticos, teóricos. Outro mundo se descortinou: o que está atrás das coisas, das palavras, a luta de classes. Não mais a fuga, e sim um mergulho na realidade. Conhecer a história para mudar o futuro, construindo o presente. Tão impactante quanto Machado me seduzindo com suas piscadelas. Só mais tarde, bem mais tarde, é que percebi que no fundo todos falam do real.

Por volta dos vinte anos, Cem Anos de Solidão, Gabriel Garcia Marques. Anos Oitenta. No meio da militância política, luta pela derrubada da ditadura, adentro um mundo mágico, realismo fantástico, nomes intermináveis que se repetem de geração em geração, cultura popular. Mundo mítico. Os Buendías me acompanham até hoje. Como esquecer Amaranta tecendo sua mortalha como Penélope de Ulisses? O homem perseguido pelas borboletas amarelas? Aquela que – estendendo lenções – sobe aos céus? A força de Úrsula? A solidão percorrendo cem anos? Anos depois fiquei sabendo que bebês que choram no ventre são adivinhos mesmo. Quase conheci um deles.

Na maturidade conheci Grande Sertão: Veredas. Não consigo me lembrar o que me motivou a encomendar o livro. Mas sinto até hoje como o peguei nas mãos. Era uma edição muito bonita. Um livro pesado. Aqueles dois pontos no título. Quando mergulhei nas palavras de Riobaldo, quando conheci Diadorim, senti-me arrebatada. Como se pode brincar assim com as palavras? Reconstruí-las? Manter um ritmo em seus sons? Cada palavra é um poema. Não conseguia ler muitas páginas num dia. Era intenso demais.

Devo confessar, “que muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento…”, percebi que tinha muito de Madame Bovary. Preferia os livros à vida. Demorei muito para entender que “a realidade é mais rica que qualquer teoria”. E que me limitei no papel de leitora. Pensava: já escreveram tanta boniteza, por que me arriscar nas palavras? 

Caro leitor, é que sinto um turbilhão dentro de mim. Um vulcão sempre em erupção. A beleza das palavras e suas traições, o mundo construído pelos autores só me faz pensar e refletir sobre o nosso. Agora consigo construir pontes. “Atar as duas pontas da vida”.  E a escrita é minha ferramenta.

 Não, não escrevi livros. Mas gosto tanto de escrever sobre eles.  

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