Leila

Quase acreditei nas estrelas
Quase ancorei no espaço
Quase fiz um poema

 

Leila tinha os olhos mais tristes que se podia imaginar. Morava só no apartamento. Dançava com tinta neon espalhada pelo corpo, em seu quarto, para um site. Conforme o pedido dos anônimos – e o devido pagamento – ia se mostrando. Pintava-se, luz apagada, borrando boca, olhos, máscara fluorescente. Camisola fina, calcinha, sutiã. Ora só rebolava, ora se masturbava, ora se esfregava em travesseiros, ora sem roupa nenhuma, ora com alguma. A tinta sempre presente. Sua intimidade desvelada para pessoas que não via e nem conhecia. A tinta, sua armadura.

O mundo era um lugar estranho para ela. Dificilmente saia do apartamento. Seu Anselmo, zelador do prédio, é que fazia suas compras. Ele sempre insistia para que saísse, pelo menos, por cinco minutos para tomar sol. Como numa prisão. Leila obedecia. Descia pela escadaria do prédio, ia até uma pequena praça, sentava-se num banco e se expunha aos raios solares num tempo cronometrado. De volta, se lambuzava de tinta, se mostrava para um monitor, e ia cumprindo os desejos alheios. Desejos monetarizados.

Na praça, achou um livro de poemas esquecido no banco. Ana Cristina Cesar: “É sempre mais difícil ancorar um navio no espaço”. Leila foi descortinando o mundo das palavras. O poema se ancorou dentro dela. Foi se servindo da poesia para suas apresentações. Poemas mergulhados em tinta. Novos clientes excitados pelas palavras, pediam seu corpo, exigiam sua bunda exposta, suas mãos acariciando seios, clitóris, defronte à webcam.  

Um cliente pediu privacidade. Pagou bem. Só o rosto de Leila. Olhos fechados. Penumbra. E que ela descrevesse uma fantasia. Leila ia falando como se recitasse um poema: ele entraria no quarto. Luz apagada. Não. Quarto bem iluminado. Ela com sua camisola fina e transparente, sem nada mais, sem tinta. Línguas, bocas, mãos. O corpo todo como arma de delícia. Outros líquidos. Gozo. Orgasmo.

Leila abre os olhos de repente. Esqueceu-se do ambiente online, do cliente, do pagamento. Algo dentro dela se estilhaçou. A redoma duramente construída, no chão. Seu coração está livre e desperto.

Leila vende os móveis, entrega o apartamento, muda-se de cidade. Hoje faz  parte de uma Cia de dança. Estão ensaiando um espetáculo baseado nos versos de Ana Cristina Cesar: Bruta Aventura em Versos.

 

P.S. Inspirado em Bruta Aventura em Versos, documentário de 2011, dirigido por Letícia Simões. E no filme nacional Tinta Bruta, 2018, direção de Filipe Matzembacher e Marcio Reolon.

Léo

Úrsula

“Que tudo é desse mundo/ Surpresa também” Cruel, na voz de Luiz Melodia.

 

Nos anos de 1975 e 1981 a 84, o Festival de Águas Claras aconteceu. Anos de chumbo. Numa fazenda, no meio do pasto, na cidade pequena de Iacanga, nos arredores de Bauru, SP. A ditadura militar tinha seus anos contados. Em 75, Ernesto Geisel, ditadura bruta. Nos anos oitenta, o presidente era João Figueredo, aquele que preferia o cheiro do cavalo ao do povo. Anistia. Logo o país seria sacudido por um movimento Diretas Já, o Brasil se vestiria de amarelo. Mas Úrsula ainda não sabia disso. O ar era de querer mudanças, movimento hippie, amor livre, paz e amor, maconha…

A imprensa trata com desdém o festival. Ninguém acredita nele. Woodstock brasileiro? Mas Leivinha, seus irmãos e amigos, vão montando o palco. Vendem 12.000 ingressos e aparecem mais de 70.000 pessoas. A juventude, ávida do novo. E vão desfilando Paulinho Boca de Cantor, Raul Seixas, Grupo Rumo, Egberto Gismonti, Hermeto Pascal, Itamar Assunção, Almir Sater, Jards Macalé, Luiz Gonzaga e Gonzaguinha, Diana Pequeno, Anastácia. Walter Franco: “é uma dor canalha/ é um grito que se espalha”. A diversidade . A sociedade alternativa. E pasmem, João Gilberto. O mesmo que desistira de tantos palcos por falta de um bom som. Chove. A estrada encharcada. Levam os músicos de trator. E João Gilberto está lá. Canta acompanhado pelo público, o dia amanhecendo… Alguém diz: o impossível aconteceu.

Úrsula, ano de 1983. Morava numa kitnet em São Paulo, com mais três garotas. Desempregada e sem dinheiro. Fazia parte de uma turma linda de amigos. Dentre eles, José, que organizou um ônibus para o festival. Vendeu os assentos e a convidou, assim iria de graça. Sem barraca, os amigos ofereceram lugar. Sem ingresso, burlar os arames farpados. A viagem, deliciosa. No Festival, Úrsula acompanha Grupo Rumo, Raul Seixas bêbado, Egberto Gismonti tocando ao entardecer. Na madrugada embriagante, ela e José numa barraca, no meio do impossível que estava acontecendo. E nem sabiam disso. Começa uma parte significativa de sua vida. Mas Úrsula nem sabia… Alguns anos depois, seus filhos começam suas próprias histórias…

Úrsula, 2019. Tempos sombrios. Assiste o documentário O Barato de Iacanga, dirigido por Thiago Mattar (2019). Úrsula sorri. O improvável pode acontecer!

Léo

 

Miguel

” Meu rosto vermelho e molhado/ é só dos olhos pra fora/ Todo mundo sabe que homem não chora” Frejat.

 

Miguel jogava muito futebol. Gostava de volei, mas seu pai o ensinou que futebol é que era jogo de homem. Quando apanhava dos meninos maiores, apanhava em casa também. Seu pai lhe ensinou que tinha que aguentar o tranco e peitar a vida como macho. Miguel adorava o pai, e aprendeu cedo que homem não fala que ama outro homem. Ele via sua irmã mais nova abraçando sua mãe, claro, era coisa de menina.

Na escola tinha uma turma de garotos. Divertiam-se muito zoando com as garotas e com meninos mais afeminados que chamavam de um nome que ele nem entendia. Todos gritavam, ele também. Foi aprendendo a não levar desaforo pra casa. Não tinha conversa, era porrada. Foi crescendo e percebendo mudanças em seu corpo. Na turma não pegava bem falar sobre isso. O pai sempre cansado do trabalho, irritado, reclamando do jantar atrasado, Miguel não queria importuná-lo. Com sua mãe, nem pensar. Aprendeu com a garotada a ver filmes de pornografia. Foi sua escola. E, quando se apaixonou por uma garota, escondeu o quanto pode, afinal homem tinha que dar em cima de todas as mulheres. Já tinha aprendido a não expressar emoção.

Miguel cresceu, estudou e conseguiu um bom trabalho. O ambiente era bastante competitivo. Ainda bem que seu pai tinha lhe ensinado os “mandamentos da masculinidade”, ser forte e competidor. Que importância tinha seu medo de falhar, seus dias inquietos, seu sono atropelado? Aguentaria firme. Volta e meia falhava no sexo, achava que era o cansaço, culpava a parceira – não sabia fazer como nos filmes pornôs… 

Casou-se e as responsabilidades aumentaram. Sua angústia, do mesmo modo. Faltava o sono preocupado com as contas, o medo de perder o emprego, ainda mais agora que sua mulher estava grávida. Daria conta de tudo? E ela sempre enchendo o saco sobre os serviços domésticos. Veja lá se tem cabimento homem lavar louça. Ela não entende a pressão do trabalho, o chefe filho da puta que tem que aguentar. Miguel começou a beber. Saía do trabalho e ia espairecer com os amigos. Chegava tarde, a mulher reclamando. No dia seguinte voltava mais tarde ainda. Quem é ela pra dizer as horas que ele deve chegar? Ele não aguentava a ladainha dela, as reclamações de falta de atenção, sua dupla jornada de trabalho, sua gravidez e seus receios. Ele comportava-se como seu pai. Ela que se comportasse como sua mãe. Ele não estava aguentando? Ela que aguentasse também.

Numa noite, chegando tarde, depois de um dia em que o chefe o humilhou, não se conteve com as reclamações de sua mulher. Partiu para agressão. Era demais ter que suportar contas, chefe, medos, e ainda uma mulher lamentosa. No chefe não podia bater, perderia o emprego. Emprego que a sustentava e sustentaria seu filho. Ela trabalha, mas ele sim é o provedor. Agrediu e pronto. Foi denunciado.

Passado um tempo, recebeu uma intimação judicial. A promotora pública o convocou para participar de um projeto Tempo de Despertar. Miguel ficou muito revoltado. Já não estava mais com a mulher que tinha agredido, já tinha parado de beber. Que mais eles queriam? Teria que participar deste grupo que se reunia de quinze em quinze dias. Ele não teve outra alternativa, afinal era uma intimação judicial. Foi. Revoltado.

Nas primeiras reuniões teve que ouvir que a promotora, cansada de ver as reincidências de violências domésticas e instigada pelas vítimas, agora trabalhava com a outra ponta: Quem é este homem que agride? Por que agride? Como impedir que este homem continue nesta escalada de violência? Teve que ouvir sobre grupos de homens e rodas de conversas espalhadas pelo país. Teve que ouvir que os homens tinham que entender seu lugar de privilégio e saber se colocar, pois havia mudança na sociedade e eles estavam sendo empurrados pelas mulheres, que elas exigiam um novo homem. Miguel prestou atenção, muita atenção, quando disseram que os homens sofrem, mas sofrem calados e sozinhos. Que são criados como dominadores e isto diminui sua vida interior. Que, apesar de ocuparem uma posição de poder e falar o tempo todo, não se revelam. Que sustentam uma imagem. Que nunca se conversa sobre como ser homem.

Miguel se viu contando sua história, expôs o seu caso. Percebeu que tinha muita coisa para aprender; muito para mudar. Começou a sentir falta das reuniões. Começou a sair da escuridão.

Hoje Miguel e sua companheira farão faxina na casa. Não poderão sair com os amigos.

 

P.S. Inspirado em O Silêncio dos Homens, documentário dirigido por Ian Leite e Luiza de Castro. Disponível em https://www.papodehomem.com.br/o-silencio-dos-homens-documentario-completo. Agradecimento ao blog https://depressaocompoesia.com/o-silencio-dos-homens/.

Léo

 

Assassinos!

“A noite desceu. Que noite!(…)
A noite anoiteceu tudo… (…)

Aurora,
entretanto eu te diviso, ainda tímida,
inexperiente das luzes que vais acender
e dos bens que repartirás com todos os homens.(…)
Havemos de amanhecer.(…)”!!!

A Noite Dissolve Os Homens, trechos, Carlos Drummond de Andrade.

 

Os poderosos, milionários, os patrões e banqueiros, os governantes capachos da riqueza, são assassinos! Sabiam do vírus e não fizeram nada. São responsáveis pelas milhares de mortes, pelos desfiles de corpos, por não se poder sequer velar nossos mortos, por nosso confinamento. Assassinos! 

Fiquem em casa! Este é grito dos profissionais da saúde! Porém os patrões dão uma contraordem: Produzam operários! Vendam profissionais de telemarketing! Bancários cumpram metas! Como se a grande massa de trabalhadores tivesse escolha. E a mídia faz dos pobres, seres invisíveis. Ditando normas de procedimento para pessoas que nem tem saneamento básico, que moram em constantes áreas de riscos, sem água. A Europa abarrotada de refugiados, guerras insanas. Os poderosos são assassinos duplamente: ao saberem do vírus e não fazerem nada; ao vírus se instalar no mundo e continuar com ordens absurdas. Os governantes, em nome dos patrões, erguem o lucro acima da vida.

Estes mesmos é que são os responsáveis por este mundo doente. Transformaram um planeta azul em cemitério de pessoas, de florestas, de animais, de rios, de plantas… Um planeta inteiro cheirando morte. E para quê? Cifras e mais cifras. Dinheiro virtual. Ações em bolsas de valores. Lucro. Exploração. Vender o quê? Para quem? Por quê? Quem ganha? Por que nossas vidas estão submetidas nesta lógica insensata? 

O PLANO É NÃO MORRER! Sobreviveremos. Cuidaremos de nós mesmos. Cantaremos nas varandas pelo mundo afora. Tocaremos sax, piano, flauta… Ecoaremos música de resistência. Bateremos panelas. Gritaremos FORA BOLSONARO E MOURÃO, porque o presidente e vice do Brasil, são nossos piores vírus. Resistiremos, pois temos um mundo para reconstruir. Um mundo onde estes senhores não cabem. Um mundo onde limparemos nossas mãos – não mais com álcool em gel – e sim em águas límpidas dos rios. Um mundo onde a ciência será nossa ferramenta. Um mundo criativo, cheio de trocas e solidariedade. Nossos versos serão outros, caros endinheirados. Nossa pandemia será poemas, alegria; nosso contágio será a reconstrução em outras bases, com outra lógica, com outras prioridades. Já aprendemos que nossa resposta deve ser coletiva e mundial. Resistiremos, pois temos que descobrir muita coisa: uma teoria unificada do muito pequeno (mecânica quântica) e muito grande (teoria da relatividade); se existem outros universos, se há vida em outros planetas, como reconstruir a camada de ozônio, como despoluir nossas águas. Como em Matrix, mostraremos um mundo sem vocês, assassinos. 

Havemos de amanhecer!

Léo. 

Helena

“Era tal meu desvario, que em uma manifestação estudantil com pedras e garrafas tive que buscar forças na fraqueza para não me colocar na frente de todos com um letreiro que consagrasse minha verdade: Estou louco de amor” (Memória de minhas putas tristes, Gabriel García Márquez).

 

Helena é operária de uma metalúrgica multinacional. Começou na fábrica bem moça, depois de se formar em um curso técnico. No princípio só pensava em trabalhar bem e ganhar o seu dinheiro. Logo percebeu que isto não bastava. Pessoas tão boas quanto ela eram demitidas simplesmente por falar numa assembleia. Acidentes aconteciam e a culpa sempre era do operário, nunca da falta de equipamento de segurança. 

Helena tinha os olhos furtivos e perspicazes. Foi observando sua rotina de apertar parafusos e, muitas vezes, sentia-se tão máquina quanto as que manipulava. Lembrava-se de uma charge que viu no jornal do sindicato: um operário dizendo que, quando se aposentasse, iria até o final da esteira ver o que é que fabricavam. Começou a participar das assembleias e prestar mais atenção. Seu sindicato era combativo e lutador. Ofereciam cursos de formação e foi aprendendo sobre a tal luta de classes. Compreendeu que a engrenagem da fábrica se estendia pela sociedade. Que seu patrão não tinha um rosto, mas vários, e distantes. Rostos que manipulavam muitos e muitos como títeres numa esteira gigante. Consciência. Na fábrica, a palavra democracia carecia de sentido. Reinava era ditadura. Mais parecida com hospício ou senzala.

Participou de comissão de fábrica, foi delegada sindical e da Cipa. Assim, sua demissão era sempre adiada. Percebeu também que seus companheiros lutadores precisavam aprender que, além de exploradas como trabalhadoras, as mulheres eram oprimidas como gênero. Outra luta grande que se estendia pela fábrica, pelo sindicato, pela vida.

Helena gostava muito de ler. Marx, Trotsky, boletins sindicais, para compreender a realidade e se armar. Romances, contos, poemas, para entender pessoas, vida em sociedade e para seu conforto. Seus pensamentos estavam sempre construindo um novo modo de vida, um mundo novo, onde todos participassem da construção da riqueza e de sua distribuição. Gastava horas imaginando como seriam as escolas, o lazer, o transporte. Entre parafusos, esteiras, assembleias, conversas, ia preparando um mundo futuro.

Estava só. Tinha morado com alguns caras. Transas ocasionais. Casos esporádicos. No geral, homens machistas ou intimidados por sua força e perspicácia. Helena foi desacreditando que encontraria alguém que conjugasse o verbo trocar.

Até que, no ônibus fretado, às quatro e meia da manhã, prestou atenção num jovem recém-contratado. Ele, falando sobre a assembleia que aconteceria devido a tentativa da empresa em terceirizar setores. Ela até achou graça na inocência dele. Aproximou-se. Foi explicando que esse tipo de assunto era dito na surdina. Poderiam entregá-lo ao chefe e sua demissão seria certa. Ele, ingênuo, teve dificuldades em perceber o cenário. Então, todos os dias no fretado, Helena ia desvendando as arapucas de uma fábrica. Ele atencioso e esperto. Pegava rápido. O dia se preparando e eles se compreendendo. Na assembleia, ele quieto, ouvindo sua companheira, que agora, era dirigente sindical. A greve foi votada.

No meio de assembleias diárias, convencimento dos trabalhadores, enfrentamento com a polícia, entrevistas para a mídia, Helena e ele foram se conhecendo. Falaram de suas histórias pessoais, fizeram confissões, trocaram angústias, delinearam futuros. 

A greve conquistou algumas das reivindicações numa negociação bastante dura. Helena e ele conquistaram uma espécie de mundo novo: estavam loucos de amor.

Léo  

O Silêncio do Mar

“O que eu gosto do mar… é seu silêncio. Não falo da ressaca, de suas ondas, mas sim do que está oculto. Do que percebemos. O mar é silencioso. E temos que saber escutar” O Silêncio do Mar, filme.

 

França, 1941. Vilarejo litorâneo ocupado pelos nazistas. Jeanne, professora de piano, mora com seu avô. O quarto de sua casa, antes ocupado pelos pais já mortos, é requisitado pelos alemães. Este é o palco de O Silêncio do Mar, filme dirigido por Pierre Boutron, de 2004.

Numa cena muito bem construída, Jeanne ao piano junto com seu avô na sala, a câmera se desloca para as botas do invasor saindo do carro. Passos lentos ao som de Bach, ele adentra a casa – uma França abreviada. Ele se apresenta: “Sinto muito. Minha presença é necessária. Se pudesse, evitaria”. Eles, invadidos, em silêncio. Resistência. O invasor é gentil. Contradição. “Graças a Deus parece decente”, comenta o avô em confissão para a neta. 

Num ambiente de saques alemães, atentados franceses, escassez de alimentos, perseguições, todas as noites, o capitão entra na sala e questiona a própria guerra. “Sempre gostei da França”. Ele conta sua história. É militar por tradição da família. Porém seu talento é para a música. É compositor. Lamenta as perdas tanto numa pátria como na outra. “Enquanto ele estiver aqui não tocarei”, diz Jeanne ao seu avô. Ele lembra a grandiosidade da literatura francesa e a da música alemã. Eles, em silêncio.

O amor, desconhecendo guerras e fronteiras, vai brotando entre os inimigos que se respeitam. Contudo não abandonam suas trincheiras. O amor resplandece além das barricadas. A atmosfera é do trágico. Olham-se. Compreendem-se. Amam-se. Conhecem o absurdo. Ele quase toca seu ombro. Ela vasculha seu quarto, sente seu cheiro em suas roupas, travesseiro, cama. Suas mãos quase se encontram. “Eu queria te dizer uma coisa…” ele diz para ela, interrompido pelo avô. A força dos olhares. A força do não dito. A força de lágrimas que correm livres num horizonte bélico.

“Não há mais esperança. O que devo fazer? A única resposta é ser leal”. O capitão sente a guerra. Eles a compreendem profundamente. O movimento de Resistência atua. Final surpreendente.

A guerra os une. A guerra os separa.

Léo

Alice

“Às vezes não tem mais para onde olhar” Irmandade, série nacional, Netflix.

 

Alice casou cedo, porque grávida. Marido violento, logo mostrou sua força. Ele, trabalhador da construção civil, trabalho pesado, chefe abrutalhado, dinheiro minguado. Descontava na mulher. Ela, garçonete, suportava o bruto do dia a dia em nome da filha e não via alternativa. Ele a humilhava, a chamava de burra, entre murros e desforras. Ela, acreditava nele.

Alice trabalhava duro. Ouvindo conselhos absurdos, tentava salvar seu casamento. Cozinhava algo diferente, preparava a mesa do jantar, colhia flores para esconder a tristeza. Ele chegava tarde e bêbado. Chutava as flores. E, qualquer coisa, a esmurrava. E ela se perguntando o que tinha feito de errado. No dia seguinte, maquiagem para disfarçar, blusa de manga comprida. Assim, enfrentar.

Seu ato mais ousado foi quando ele ameaçou bater na filha. Voou para cima dele. Ele a violentou, exigindo sua obrigação de esposa. Alice procurou uma delegacia. Tentou∗. Mas eram tantas perguntas absurdas, tantas insinuações de concordância com o marido, que, atrasada para o trabalho, desistiu. Resignou-se. 

Certa tarde leu um anúncio de oficina de escrita. Alice sempre escrevia em cadernos secretos. Foi. O grupo era pequeno, eclético, engraçado. A professora fez uma primeira questão: por que escreve? Variadas respostas. Alice tímida e lembrando-se das palavras do marido. Quase desistiu. Na insistência, respondeu: alívio. 

A oficina foi propondo exercícios. Sempre ter um caderninho e ir anotando o que via, sentia, percebia. Alice começou a prestar atenção nos clientes, nos companheiros de trabalho. Nas nuvens, no caminho, no silêncio, na sua casa pequena e fria. Foi escrevendo. Outro exercício seria descrever algo que teria acontecido mudando o rumo da própria história. Alice não tinha dúvida: o dia em que deu para seu futuro marido. A proposta seguinte foi a mais dolorida de escrever: imaginar o tipo de vida que queria. Imaginou. Escreveu. E foi descortinando seu cotidiano áspero. 

O grupo foi se consolidando. Alice percebeu que escrevia bem. Era elogiada. Os impropérios do marido ecoavam sem sentido.

Numa manhã, um homem chora dentro de uma casa pequena. No quintal, folhas e folhas flutuam pelo vento. 

Alguém bate palma no portão e chama por Alice. A vizinha responde:

— “Alice não mora mais aqui”!∗∗

 

Tentei, curta nacional de Laís Melo, 2017.

∗∗Nome de um filme de Martin Scorsese, 1974.

Léo