conto

o pássaro, na madrugada,
começa seu canto
para que os humanos acordem
sob seu manto melódico

ninguém presta atenção
vida apressada
uns, pela labuta da sobrevivência
outros, voltados para sua vida medíocre
ninguém presta atenção

o pássaro
toma a cor das folhas secas...
entristeceu
e ninguém presta atenção

mas o pássaro
não prestou atenção
no poeta
que o cortejou da janela

o poeta ficou tão encantado
com o pássaro e sua canção 
que fez um poema

Léo

Calçada

Folheando ao acaso uma revista antiga, deparo-me com um fato que parece arte.

Uma mulher, mãe de duas filhas, formada em Letras, em um casamento abusivo. O marido a agredia sistematicamente. Não por agressão física, mas a verbal. Agressão invisível. Ele, o provedor da casa. Ela, sem alternativa.

A mulher começa um trabalho com moradores de rua. E se apaixona por um, Fábio. Ele, sem bens materiais, lhe oferece o invisível: amor, compreensão, carinho.

Ela abandona o “conforto do lar”, o pão certo, o banho certo, os móveis, o endereço fixo. Vai para os braços aconchegantes do morador de rua. Entra na dimensão deste enorme exército invisível, sem endereço fixo.

A mulher ajuda Fábio em seu processo de recuperação. Ela presta um concurso público para trabalhar com os moradores de rua. Para sua surpresa, é aprovada. Porém enfrenta uma barreira: precisa abrir uma conta bancária para receber seus proventos. O banco exige um endereço de residência. Ela, rua tal, número tal, complemento: calçada.

Olhei sua fotografia de página inteira: bonita, cheia de anéis e tatuagens. Sorriso largo. A estampa de uma guerreira, que lutou por amor e respeito, que se entregou. A antiga estudante de literatura, que não escreveu um livro, escreveu sua própria história.

Teus olhos tinham algo raro: esperança. Teus olhos tinham luz.

Léo

escavação

desvendar a arquitetura da noite
sem se deixar
distrair pelas cores
ser sensível aos contornos

escavar a singularidade
transformando o negativo
no positivo da compreensão

dosar serenidade
com as inquietações da vida

presente ganhando sentido
e profundidade pelo passado
tecendo futuro

chão coberto de lilás
nuvens brancas
traçando seus desenhos

escavar o novo

Léo

P.S. Estou lendo Um antropólogo em Marte - sete histórias paradoxais, Oliver Sacks, 
tradução Bernardo Carvalho, Companhia das Letras, SP. 

basta um gesto

abrir as janelas
e se deparar
com um homem
abraçado numa árvore

apertar com firmeza
a mão da funcionária do supermercado
que se diz quase depressiva
olhar bem em teus olhos
e sussurrar:
"aguente firme, vai passar"

"pintar a lua de verde"
só para sorrir
imaginando
o susto do mundo

e transformar
o cabelo bonito
da garota negra
numa árvore frondosa

"lanterna de pirilampos"
"acender o cachimbo no vaga-lume"
"ser curiosa de abismos"

basta um gesto

Léo

Imagens do inconsciente

Olhos costurados
para uma realidade bruta
Olhos para dentro

O eu fragmentado
o inconsciente invadindo
a consciência

Nise da Silveira, psiquiatra,
não vê somente o transtorno
- mecanismo quebrado -
vê a ponte

E dá como ponte
pinceis, lápis, guache, tela, barro
e as imagens florescem

nos ensinando
aquilo que é de todos nós
inconsciente coletivo

Terra povoada de espíritos e deuses
os ritos, os símbolos, os rituais
a dança, os mitos, arquétipos

Nise da Silveira, anjo exterminador
do cartesianismo
que embrutece o real

Olhos costurados
Olhos para dentro

Léo

poema construído pela leitura de O Mundo das Imagens, Nise da Silveira, Editora Ática, SP, 1992.

Matinhos

o mar
"como um lençol estendido"

redes esquecidas
lembrando
o crespo das ondas

surfistas devorando ondas
peixes devorados pelos pássaros

urubus em prontidão
batalha em pleno voo
pelos restos mortais

garças coalhando os telhados
esperando...

areia deslizada pelo vento
ampulheta

barcos de pescadores
com nome de mulheres

e duas casinhas de madeira
com uma placa pomposa:
área militar
perigo de morte

(não é que fiz um poema
fui colhendo...)

Léo