A Incrível História de Miguel Littín!

Yo pisaré las calles nuevamente, de lo que fue Santiago ensangrentada” Pablo Milanés.

Meu filho apresentou-me este livro anos atrás. Prepare-se para A Aventura de Miguel Littín Clandestino no Chile, de Gabriel Garcia Márques (Editora Record). Parece ficção esta realidade que o escritor Garcia Márques nos conta em dez capítulos. O truque da narrativa foi ouvir Miguel Littín em Madri por dezoito horas, mudar alguns nomes e circunstâncias para proteção dos protagonistas, e transformar uma reportagem em um texto literário. “Preferi conservar a narrativa na primeira pessoa, do jeito que Littín me contou, tratando de preservar dessa forma seu tom pessoal (…). O estilo do texto final é meu, é claro, pois a voz de um escritor não é intercambiável (…)” (p. 5).

Miguel era cineasta no Chile de Salvador Allende: “Doze anos antes, às sete da manhã, um sargento do exército à frente de uma patrulha tinha soltado sobre minha cabeça uma rajada de metralhadora, e mandou que eu me juntasse ao grupo de prisioneiros que iam sendo levados ao edifício da Chile Films, onde eu trabalhava” (p. 28-9). Assim figurava numa lista de cinco mil exilados que não podiam retornar de jeito nenhum à sua terra.

Na Europa, em conjunto com toda uma rede de clandestinos políticos, arma um plano mirabolante: filmar um documentário sobre a realidade chilena em plena ditadura de Pinochet. Em 1985 entra no Chile com três equipes de filmagens, uma italiana, uma francesa e outra com credenciais holandesas. “Nenhuma das equipes deveria saber da existência das outras duas. Nenhum dos integrantes teria conhecimento do que realmente estava sendo feito, nem saberia quem os estaria dirigindo nas sombras (…)” (p. 9). Seis semanas depois – e com ajuda de outras seis equipes juvenis da resistência interna – tinham “mais de sete mil metros de película sobre a realidade de seu país depois de doze anos de ditadura militar”. Incluindo filmagens dentro do Palácio de La Moneda. O resultado final foi um documentário de quatro horas para a televisão e outro para o cinema. No livro não constam seus títulos.

Tão bom quanto o truque da narrativa é o truque da realidade. Miguel Littín sofre o drama de se transformar em outro. Corta a barba de anos, tinge o cabelo, acentua a calvície, muda a sobrancelha, e o toque final foi o uso de óculos de grau. Esta despersonalização física foi acompanhada de “mudança de classe”: “Em vez das calças jeans que usava quase sempre, e de meus blusões de caçador, tinha que usar roupas de tecido inglês de grandes marcas europeias, sapatos de camurça, gravatas italianas de flores pintadas” (p. 11). A mudança foi tão significativa que nem ele próprio se reconheceu no espelho e nem sua mãe alguns dias depois. “A única coisa que devia evitar era rir, pois meu riso é tão característico que teria me delatado (…) ‘Se você der risada morre’” (p. 13).

Além de ser “uma gozação à prepotência de Pinochet” (p.8), este livro é recheado de peripécias dignas de um agente secreto. Senhas e contrassenhas, códigos, gravador em miniatura, passaporte falso, esposa falsa, nacionalidade falsa, taxistas e engraxates informantes da polícia, tensão e aventuras divertidas. E grandes figuras. Elena, a esposa de fachada, “tinha cumprido muitas missões políticas importantes em diversos países (…)” (p. 13).  Uma freira muito jovem e bonita, que por duas vezes, serve de contato. E Clemencia Isaura – nome fictício – que usava vestido caro, chapéu e luvas, e tomava chá das cinco em ponto com biscoitinhos, mesmo estando sozinha. Esta senhora de hábitos ingleses, com “uma boa marca de saltos em paraquedas”, fica feliz em ser procurada para um assunto clandestino: “– Para morrer numa cama com os rins podres – disse ela – prefiro que me picotem a tiros num combate de rua com os milicos” (p.121).

“Em todas as partes pão, arroz, maçãs, no Chile arame, arame, arame” Pablo Neruda.

Nestas páginas podemos ver um Chile muito bonito com sua cordilheira, “paisagem polar deslumbrante, com imensos precipícios de gelo e mares tormentosos” (p. 105). Um povo lutador que realizou grandes greves, manifestações, e que foi alento para todo o mundo com as falsas promessas de socialismo de Salvador Allende.

Doze anos de ditadura sangrenta de Augusto Pinochet apresentada no livro, nos dá a dimensão de, pelo menos, dois Chiles: “Na fachada do edifício havia um enorme letreiro azul: Chile avanza em orden y paz. Olhei o relógio: faltava menos de uma hora para o toque de recolher” (p. 17). Um Chile em estado de sítio, “de cortiços operários e quarteirões pobres, que sofreram uma repressão sangrenta durante o golpe militar” (p.22). O outro mostra uma Santiago “como uma cidade radiante, com seus veneráveis monumentos iluminados e muita ordem e limpeza nas ruas” (p. 22-3). “Na medida em que nos aproximávamos do centro da cidade, desisti de olhar e admirar o brilho material com que a ditadura tratava de apagar o rastro sangrento de mais de quarenta mil mortos, dois mil desaparecidos e um milhão de exilados” (p. 23).

A Junta Militar desnacionalizou tudo que Allende tinha nacionalizado, e vendeu o país ao capital privado e às corporações multinacionais. “O resultado foi uma explosão de artigos de luxo, deslumbrantes e inúteis, e de obras públicas ornamentais que fomentavam a ilusão de uma bonança espetacular” (p. 53). A dívida externa saltou de quatro bilhões para quase vinte e três bilhões. “O milagre militar fez muito mais ricos uns poucos ricos, e fez muito mais pobres o resto dos chilenos” (p. 53).

Na superfície, as pessoas tinham suas almas em rostos “sacudidos pelo vento gelado. Ninguém falava, ninguém olhava em nenhuma direção definida, ninguém gesticulava nem sorria, ninguém fazia o menor gesto que delatasse seu estado de espírito (…). Os poucos grupos que conversavam na esquina faziam isso em voz muito baixa para não serem escutados pelos tantos ouvidos dispersos da tirania (…)” (p. 23-4). Os que ficaram também eram exilados.

Mas nos subsolos, nos subterrâneos, Sebastián Acevedo, “um humilde mineiro do carvão, tinha tocado fogo no próprio corpo (…) depois de tentar sem resultado que alguém interviesse para que a Central Nacional de Informação (CNI) parasse de torturar seu filho (…) e sua filha, detidos por porte ilegal de armas” (p.59). Nas poblaciones, enormes bairros marginais, “cujos habitantes curtidos pela pobreza desenvolveram uma assombrosa cultura de labirinto”. A polícia e exército preferiam não se arriscar; teriam que “enfrentar formas de resistência originais e inspiradas, que escapam aos métodos convencionais da repressão” (p.69). Nos subsolos, a nova geração enfrenta com pedras na rua as tropas de choque, combatem com armas na clandestinidade, conspiram e fazem política. Nos subterrâneos, Allende e Neruda são mortos que nunca morrem.

A incrível história de Miguel Littín é a incrível história da resistência.

img_20181113_092405
Capa de Agenda da Editora Sundermann.
Anúncios

Noites Sem Sol!

“Não sei, realmente, porque estou triste.

Isso me enfara; e a vós também, dissestes.

Mas como começou essa tristeza,

de que modo a adquiri, como me veio,

onde nasceu, de que matéria é feita,

ainda estou por saber.

E de tal modo obtuso ela me deixa,

que mui dificilmente me conheço”.

O Mercador de Veneza, Shakespeare.

Luzes

acenda a lampada às seis horas da tarde 
acenda a luz dos lampiões 
inflame  
                a chama dos salões  
                fogos de línguas de dragões  
                vagalumes

numa nuvem de poeira de neon 
tudo é claro   
               tudo é claro   
               a noite assim que é bom

a luz acesa na janela lá de casa 
o fogo  
               o foco lá no beco      
                                            e o farol

esta noite vai ter sol

                                   Paulo Leminski

Almas Silenciosas

É um filme do russo Aleksei Fedorchenko de 2010. Contemplativo como um poema. Bela fotografia. É sobre a cultura Merja, antiga tribo do centro-oeste da Rússia que vivia às margens do Lago Nero. Uma cultura que agoniza. Almas silenciosas.

Quando uma mulher morre, o marido convida um amigo para os rituais fúnebres. Eles a limpam e a enfeitam com fios coloridos espalhados pelo corpo. Como a noiva, que são enfeitadas com estes fios presos nos pelos pubianos. Depois, fazem um armado de madeira, queimam o corpo e jogam as cinzas no rio. No trajeto funerário, o marido “esfumaça”: conta histórias da morta que não contaria quando viva. “Esfumaçar”. Contar segredos.

A água é sagrada para este povo. Morrer afogado é a melhor morte. Mas, eles não se afogam por querer: “é indelicado querer entrar nos céus antes dos outros”.

O narrador era filho de um poeta. Sua grande lição: “Quando a alma estiver doendo muito, escreva sobre o que vê ao redor”.

almas silenciosas

O Menino Inerme

Bertolt Brecht

O Senhor K., falando do péssimo hábito de deixar passar em silêncio as injustiças, contou esta pequena história. Um transeunte quis saber de um rapazinho em lágrimas a razão de suas penas.

– Eu tinha nas mãos dois marcos para pagar uma entrada de cinema – disse o menino –, quando chegou um garoto mais forte do que eu e me arrancou um deles das mãos.

E apontou um jovem, que ainda podia ser visto a uma certa distância.

– E você não pediu socorro? – perguntou o passante.

– Claro – respondeu o menino, soluçando ainda mais forte.

– E ninguém o ouviu? – indagou ainda o estranho, acariciando-o amavelmente.

– Não… – soluçou o garoto.

– Quer dizer que você não tem capacidade vocal, que o habilite a gritar com mais força? – interrogou o homem. – Nesse caso, passe já pra cá esse outro marco!

Tomando-o, meteu-o no bolso e continuou tranquilamente o seu caminho.

Ninguém

PALAVRAS VÃS

“Nós poderíamos ser muito melhores se não quiséssemos ser tão bons.” Sigmund Freud

Insanidade em névoa que chega rompendo a barreira do som e esmigalhando o cérebro em mil pedaços. Egocentrismo líquido que perfura a pele e pega carona na corrente sanguínea na velocidade da luz. E de tanto juntar os cacos e tentar colá-los direitinho no lugar, um Frankenstein mal costurado acorda com um raio e se pergunta:

Quem sou eu?

Meio acordado, meio entorpecido, hora se sentindo um astro do rock mas por vezes um verme em um universo decomposto, mesmo assim deslocado em seu sentido. Tentando chegar mais perto da luz de uma estrela que talvez já tenha morrido há muito, muito tempo sem cogitar que isso seja uma possibilidade.

Quem sou eu?

Enquanto olhava por cima dos ombros e das cabeças da multidão, e a angústia lhe assaltava como um homem armado, nada via, nada se…

Ver o post original 164 mais palavras

Balzac

“- Mas (…) Paris é um lodaçal?”

O Pai Goriot, Balzac.

 

Paris 1819
Caminhe em uma avenida em Paris, 1819, Bellange. In: magnolia box.

Estamos em 1819, Paris. O período é o da Restauração, monarquia constitucionalista. Uma coligação de potências europeias derrotou Napoleão em 1814. Época bem conservadora, porém, com constantes perturbações e agitações civis. Passa-se entre 1789, revolução em que a burguesia toma o poder político nas mãos, e 1848, quando o proletariado surge como classe social e “a maré das revoluções populares obriga as burguesias europeias a reconhecerem o particularismo do próprio interesse” (Schwartz, Roberto. Um Mestre Na Periferia Do Capitalismo. São Paulo: Duas Cidades, p. 167).

O cenário é uma “pensão burguesa para os dois sexos e outros” (p. 11), a Casa Vauquer, na periferia de Paris. A proprietária é a senhora Vauquer, e “toda sua pessoa explica a pensão, como a pensão implica sua pessoa” (p. 14). Os internos são em número de sete. Dentre eles Pai Goriot, um velho fabricante de massas; Eugène de Rastignac, estudante de Direito; e Vautrin, que se dizia ex-negociante. A pensão é descrita em detalhes: “(…) ali reina a miséria sem poesia” (p. 13). Entretanto “uma tal reunião devia oferecer, e oferecia, em miniatura, os elementos de uma sociedade completa” (p. 21). E, como “há muitos mistérios numa pensão burguesa!” (p. 36), O Pai Goriot, de Balzac (Editora Ediouro), é um romance imprescindível.

Pessoalmente tenho dificuldades numa narrativa em que não se adere à nenhuma personagem. Não há o bom, não há bondade, não há o certo. O que se encontra são as entranhas de uma sociedade onde “o dinheiro é a vida” (p. 179). A nobreza está perdendo o poder e empobrecendo. A burguesia está tentando se afirmar e é desprezada pela nobreza: “(…) há pobres burgueses que, usando nossos chapéus, esperam ter as nossas maneiras” (p. 69). As mulheres: “Mas, sair àquela hora, a pé ou de carro, não seria perder-me? Senti a infelicidade de ser mulher” (p. 152). Há compra de títulos, burguês barão, burguês conde. Os casamentos são negócios e já pressupõem amantes. Os empregados são muito parecidos com os patrões em seus vícios e visão de mundo. O romance foi escrito em 1834.  Na apresentação do livro desta edição, afirma-se que Balzac “tinha acabado de encontrar a ideia e o mecanismo que lhe permitiria construir o mundo romanesco de A Comédia Humana. E nos oferece: “Viu o mundo como ele é: as leis e a moral impotentes para com os ricos, e viu a fortuna a ultima ratio mundi” (latim: argumento supremo do mundo) (p. 70). “Paris é Paris, percebe?” (p.151).

Balzac é o que nos salta aos olhos. Tão bela quanto a exposição deste lodaçal é a beleza das artimanhas da arte de narrar. Brinca com o leitor: “Assim fareis vós, que segurais estes livros com vossas mãos brancas e mergulhais numa poltrona macia pensando: Talvez isto me divirta” (p. 10). Brinca com a noção de romance, ficção, verdade: “Ah! Sabei: este drama não é ficção nem romance. All is true” (p. 10). Há descrições maravilhosas como esta: “Para explicar o quanto esse mobiliário está velho, rachado, apodrecido, oscilante, carcomido, maneta, zarolho, inválido, moribundo seria necessário fazer descrição que retardaria demais o interesse desta história, o que o leitor apressado não perdoaria”. Dialoga com outros autores como Homero, Walter Scott, Rousseau, Voltaire, Chateaubriand, Molière. Há canções populares. O realismo e o romantismo: “Cavalo puro-sangue, mulher de raça, tais eram as locuções que começavam a substituir os anjos do céu; as figuras ossiânicas, toda a antiga mitologia amorosa repelida pelo dandismo” (p.33-4).
Se a literatura mistura continuamente o mundo real e o mundo possível, como afirma Antoine Compagnon, “ela se interessa pelos personagens e pelos acontecimentos reais (a Revolução Francesa está bem presente em O Pai Goriot), e a personagem de ficção é um indivíduo que poderia ter existido num outro estado de coisas” (O Demônio da Teoria. Editora UFMG, p. 133). Marx tinha planejado “um estudo completo sobre Balzac” (Eagleton, Terry. Marxismo e Crítica Literária. Editora Unesp, p. 12). “Engels observou (…) que o genuíno personagem deve combinar a tipicidade com a individualidade; e tanto ele quanto Marx consideram essa uma grande realização de Shakespeare e Balzac” (Eagleton, p. 58).

Em Balzac nada é superficial. Vasculha a alma de Paris com profundidade e ironia. Percebe “a mão de ferro sob a luva de veludo” (p. 99). É de tal forma mordaz que não há redenção: “Quem decidirá o que é mais horrível de se ver, corações secos ou crânios vazios?” (p. 10).