Horizonte

Não sei se você percebeu. Em filmes, quando a personagem fica muito tempo confinada, trancafiada; em liberdade, busca o simples. Dançar, comer a comida preferida, sentir o sol, o vento, a brisa, ver o mar, assistir quieta o cotidiano.

Estamos numa espécie de confinamento em uma sociedade de classes. O motor é o lucro e tudo transformado em mercadoria, inclusive nós. Enquanto saímos às ruas para reivindicar a salvação da nossa espécie, eles, os poderosos, ressuscitam guerras intermináveis. Eles têm outros planos: construir uma rota de fuga para Marte, Lua, Júpiter, e transformar o universo em sua imagem e semelhança. Eles, os poderosos, estão tentando nos dirigir para o matadouro feito gado, para o precipício.

Darcy Ribeiro, antropólogo brasileiro, se declarou fracassado. Fracassou em tudo que tentou na vida: alfabetização das crianças, salvar os indígenas, projeto de uma universidade séria. Mas concluiu que nunca, nunca queria estar no lugar dos vencedores.

Quer saber? Darei um pulo até a praia e apreciarei o encontro da imensidão do mar e do céu. E vislumbrar um horizonte sem eles. Um horizonte de coisas simples, compartilhado por todos, e todas, e todes… e nós!

“Deixe tudo acontecer a você
Beleza e terror
Apenas continue
Nenhum sentimento é final” (Rilke)

Léo

entre parênteses

há tantos pássaros 
em meu peito,
que, às vezes,
é ensurdecedor

Léo

física

somos cercados
por ondas eletromagnéticas,
ondas de rádio, micro-ondas,
"radiação infravermelha
emanada de objetos quentes
e de pessoas e animais"

somos atravessados pelo invisível

o mundo é bem mais do que parece!

Léo

Saturno

Saturno devora seus filhos,
na mitologia
assim como o tempo
tão relativo
e de aparência tão concreta

o tempo devora o dia de ontem

o devorado, no entanto,
insiste em espreitar o presente
embriagado do futuro distante

tudo tão denso
que quase esquecemos
do infinito
do sem fim
do sem tempo

do antes, antes, antes,
antes de tudo

mas, Saturno está lá
devorando seus filhos

Léo

cheiro de quintal

acordo com pássaros
gritando sua existência
abro as cortinas
um jardim do outro lado da rua
plantas contentes com o sol
ou a chuva
"se a chuva cair"

no corredor,
caminho pela fresta do sol
avisto um prédio
com jeito de futuro
bem ali

da varanda,
forçando um pouco,
um pedaço de mar
potente

impassível ao meu poema

Léo

paradoxo

gasta-se bilhões
para simular
a vida em Marte,
construir uma infraestrutura elétrica
na lua

e quase nada
para sustentar
este planeta
tão bonito

aqui já tem tudo

Léo

entre tantas coisas

entre tantas coisas,
o corpo desfalecido na praia.
a morte o abraçou no mar
num belo dia de sol

entre tantas coisas,
o corpo ali,
desfalecido na praia
num belo dia de sol

os garotos prosseguiram
com seus castelos de areia.
a barraca do lado,
de som estridente,
nenhum minuto de silêncio.
o vendedor de picolé,
seguiu adiante o seu trajeto.

entre tantas coisas,
o corpo desfalecido na praia
num belo dia de sol

no céu,
nuvens aladas

Léo

reconstrução

no verão,
sentar à sombra
e uma brisa leve
feito carinho

na tarde, praia
o céu pintado de arco-íris
e a lua boiando
em pleno dia

olhar a cidade bonita,
lá de cima,
a vida embaralhada
em contraditórios

aguardar
as folhas de outono
caírem no momento preciso

coalhando o chão
corando a terra

Léo

quimera

quisera eu
escrever o poema
exato
para te capturar
em armadilha

e içá-lo aos meus pés

te torturaria
em pisadas macias

a felicidade
chegando de mansinho

"quero fazer contigo
o que faz a primavera às cerejeiras" (Neruda)

Léo

Cartas de muito longe (11/2009)

 Fico pensando em como amo a humanidade. Como a respeito. Mesmo nas suas crueldades, eu a respeito. Lembrar de cenas desta história humana como campos de concentração, guerras absurdas, massacres, corrupção, assassinatos frios… é só lembrar de uma parte do humano. É não ver o todo.

A garra que este ser – que brotou neste planeta de poeira cósmica, da água, sei lá – teve que ter para sobreviver, e criar outra história. Vencer os animais, as forças da natureza, as plantas, outros seres vivos, a falta de explicação, o absurdo da vida. Vencer e dominar, infelizmente numa perspectiva de poder e não de equilíbrio. Mas, até esta história eu respeito. Porque  junto com este poder também pousa sua fragilidade.

Veja o apagão, por exemplo. Eu e o Jonas estávamos juntos vendo um filme (cuja ideia era melhor do que o próprio filme) e de repente a escuridão. A noite chuvosa, digna de um filme de terror, só era iluminada pelos faróis dos carros – obra humana. Praticamente o Brasil sem luz. O Jonas me disse: Mãe, a natureza, o planeta, estão cansados de tanta luz. E ficamos conversando sobre assuntos iluminados por aquela escuridão toda: o infinito, o universo, como somos reféns da energia elétrica, coisas assim…

Nos noticiários posteriores assisti os problemas causados pelo apagão: pessoas sem transportes, o caos no trânsito, pessoas morrendo nos hospitais, presas em elevadores, o medo da rua deserta e sem iluminação. Mas, eu e o Jonas tivemos outra experiência. E deve ter tido outras por aí: alguma história de solidariedade, alguém pode ter encontrado seu amor, pessoas podem ter encontrado um desconhecido que as tenham fortalecido naquele momento de medo. Mas, essas histórias dificilmente estarão nos jornais.

Porém, houve uma notícia que gostei demais. Creio que no Ceará, há um campo de “moinhos de vento” modernos: há até um inventor de poste movido a energia do vento; e está construindo um que pode armazenar por uma semana a energia derivada do vento e sol, que pode ser usada em regiões onde o vento não seja abundante. É deste ser humano que falo: o que constrói alternativas.

É, o lodo e o pântano são grandes, enormes, até parecem insuperáveis. Entretanto é preciso enxergar a flor de lótus.

Mas, o que faço com toda essa reflexão? Onde ponho toda essa energia? A energia do vento e do sol podem ser armazenadas por uma semana; a da água não, se ela não for usada imediatamente, se perde.

E a minha?

Léo