Milton Cego

Olavo Bilac

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Desvendava-se ao cego o mistério: (As idades

Sem princípio; de sol a sol, de terra a terra,

A eterna combustão que maravilha e aterra,

Geradora de bens e de felicidade;

 

Cordilheiras de espanto e esplendor, serra a serra,

De infinito a infinito; asas em tempestades,

Tronos, Dominações, Virtudes, Potestades,

Luz contra luz, furor de chama e glória em guerra;

 

E os rebeldes, rodando em rugidoras vagas;

E o Éden, e a tentação, e, entre o opróbrio e a alegria,

O amor florindo ao pé da amaldiçoada porta;

 

E o Homem em susto, o céu em ira, o inferno em pragas;

E, imperturbável, Deus, na sua glória!…) Ardia

O poema universal numa retina morta.

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Lagarta

“Não há devassidão maior que o pensamento” Wislawa Szymborska.

 

Esta é a epígrafe do livro de contos Jeito De Matar Lagartas (Editora Companhia Das Letras, São Paulo, 2015). O autor é Antonio Carlos Viana, sergipano, falecido em 2016.

Devassidão, caráter ou procedimento de devasso; libertinagem, licenciosidade. O narrador desses contos tem esse caráter. É libertino, licencioso. E é uma delícia lê-lo. Paulo Henriques Britto, poeta, nos apresenta a escrita de Antonio Viana como “(…) uma recusa a qualquer forma de sentimentalismo, sem que isso implique indiferença ou cinismo”. Que “a secura do texto potencializa a crueldade dos personagens e paradoxalmente gera, ao mesmo tempo, um humor discreto e devastador (…)”.

Lagartas são insetos quando estão na sua fase inicial de metamorfose. São larvas que posteriormente se transformarão em borboletas, mariposas ou outros insetos. Os personagens dos contos são como lagartas. Boa parte deles com potência para a metamorfose, mas que “morre” antes ou se conforma nesta “fase inicial”. Não dá o salto. Há casos de falsas esperanças, no entanto o cotidiano os arrebata. Como em Roteiro da Solidão com seus subterfúgios, “a vida e seus descaminhos” (p. 19). Frustra o leitor. Até parece que este intento é mais importante que a história. O narrador parece que está rindo baixinho, num canto qualquer, com as mãos nos lábios, todo sapeca. Amarelo Klimt, ressoa o incômodo, a tensão, algo no ar, incertezas. Uma psicopatia, que também a reconhecemos em nós. Os personagens são apresentados em abreviações, MN e LR, aumentando o tom do descompasso. “LR havia lido que um dos traços do psicopata é não ter pena dos animais, não ter compaixão de nada nem de ninguém” (p. 30). Se “(…) o mundo se dividia entre os de coração aflito e os de maldade extrema” (p. 47), Cara de Boneca, nos prega uma peça. O narrador, o que tem voz, é o de coração de “maldade extrema”, e o narrado sem voz, tem o “coração aflito”. A narração é de um adulto relembrando sua meninice, portanto com plena consciência. E a tristeza é grande. O uso, a solidão, o sexo. A instrumentalização do outro. Um lindo conto.

Florais, talvez seja uma exceção. Um alento saber de Dona Delfina, viúva, “(…) da vida que passa sem a gente sentir (…)”. Que liga para as amigas, “como se tivesse acordado de um sono do qual ela mesma não se dera conta (…)” (p. 50), descobrindo “que o amor exige desrespeito, senão fica incompleto” (p. 54). “O corpo, depois do luto pesado, começara a exigir coisas estranhas, como se estivesse se despedindo de si mesma” (pp. 51-2). Na outra ponta, Professor Locarno, o corpo já é de despedida: “Há um momento em que o corpo fica impaciente com a vida e só quer descanso absoluto” (p. 58). Perdido em sua festa de aniversário preparada, recorda Clarice Lispector em outro conto, Feliz Aniversário. “Para que cantar ‘muitos anos de vida’ agora?” para um velho de oitenta e nove anos; “(…) ele desejou muito que o coração afrouxasse de vez e nunca mais ele soubesse o que significava outro dia” (p. 59).

O sexo é sem adorno. É selvagem, instintivo, bom: “(…) dele fazer nela as boas coisas da vida” (p. 61). “(…) Valdireno pôs (…) uma gamela de madeira, coberta com umas folhas (…) que desprendiam um cheiro selvagem, de coisa cozida no mel, e ao mesmo tempo de uma sensualidade a toda prova, como se desprendesse das entranhas de uma mulher toda aberta esperando a hora de ser vasculhada com os dedos (…)” (p.66). Afinal “Não há histórias de amor sem cuecas e calcinhas” (p. 106), pois “O amor também tem seu lado porco, seu vocabulário de latrina (…)” (p. 107). E as putas tem voz, e quase cumprem uma função social: “Sim, já fui professora de jardim, mas o salário não dava. (…). Ontem mesmo um senhor chorou em minha cama (…). Veio só (…) pela fama que se espalhou a meu respeito, que recupero caralhos murchos” (pp 123-4).

Com linguagem bruta, seca, “humor discreto e devastador”, o narrador vai nos contando sobre Lucy in the Sky e seus caminhos solitários, dando uma suspensão na narrativa, deixando ao leitor o poder para imaginar sua continuação. Vai desbravando os territórios dos adultos. Faz a gente sofrer com Aline, a bailarina, “(…) porque a vida lhe tinha sido cruel além da conta” (p. 78). Entender: “(…) e viu como era fácil qualquer mulher trair. Bastava não ter esperanças” (p. 92); “Via agora que todo mundo traz dentro de si um assassino, é só aparecer a sua hora” (p. 108).  Passeia pelos corpos das senhoras, vagueia pelos dos senhores. Conhece com desenvoltura a maldade dos meninos.

Se as personagens permanecem lagartas, a potência está ali, mas não se efetiva, o narrador é que se metamorfoseia. É borboleta esvoaçando sobre fatos corriqueiros – na aparência – com suas tragédias e seus, quase, milagres. E “(…) outro dia chegou com as gracinhas de sempre (…)” (p. 59).

 

P.S. 1- Para minha filha, Beatriz, que me presenteou com este livro: “(…) a jovem devia      se chamar Beatriz, que é nome de mulheres que nunca perdem a beleza” (p. 103).

P.S. 2- Em https://semspoilerspfv.wordpress.com tem uma boa crítica de outro livro de Antonio Carlos Viana, Aberto Está o Inferno.

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Caminhando pelo Passeio Público, pensando neste texto que ainda escreveria, deparo-me com esta lagarta… Neste dia, não convoquei as Musas, agradeci diretamente ao autor.

Exterior

Waly Salomão

 

Por que a poesia tem que se confinar

às paredes de dentro da vulva do poema?

Por que proibir à poesia

estourar os limites do grelo

     da greta

     da gruta

e se espraiar em pleno grude

      além da grade

do sol nascido quadrado?

 

Por que a poesia tem que se sustentar

de pé, cartesiana milícia enfileirada,

obediente filha da pauta?

 

Por que a poesia não pode ficar de quatro

e se agachar e se esgueirar

para gozar

– CARPE DIEM! –

Fora da zona da página?

 

Por que a poesia de rabo preso

sem poder se operar

e, operada,

polimórfica e perversa,

não pode travestir-se

com o clitóris e os balangandãs da lira?

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Flor Miúda

 

 

 

O Sonho do Sonhador: Os Três Mosqueteiros

“A amizade que unia esses quatro homens e a necessidade de se verem três ou quatro vezes por dia, fosse para um duelo, fosse para um negócio, fosse para um divertimento, os faziam encalçarem constantemente um ao outro como sombras (…)” (Os Três Mosqueteiros, Alexandre Dumas).

 

Ah, este Ulisses do século XVII! D’Artagnan e sua odisseia para se tornar mosqueteiro! Alexandre Dumas, romancista negro, segue as pegadas de Homero e nos faz percorrer as ruas de Paris no ano de 1625 (Editora Abril Cultural, São Paulo, 1971). Vai nos guiando pelos bairros de Luxemburgo, Saint-Germain; os corredores e labirintos do Louvre, então morada do rei; tabernas; galerias subterrâneas da Bastilha, e suas salas de interrogatórios e calabouços. Neste cenário, Alexandre Dumas faz brotar o herói d’Artagnan, que o narrador nos apresenta como “Dom Quixote aos dezoito anos” (p. 9).

Este herói gascão ruma para Paris em busca de fortuna e glória. Munido de referências paternas, encontra o capitão dos mosqueteiros do rei, Sr. De Tréville, “(…) um Júpiter olímpico armado de todos os raios” (p. 29). E se depara com “(…) uns semideuses” (p. 29): “(…) Athos como um Aquiles, Porthos como um Ajax, e Aramis como um José” (p. 68), seu sonho personificado: os três mosqueteiros. Que, pelas notas do editor, fica-se sabendo, que não são apenas personagens de ficção, mas baseados em vida.

Nas peripécias desses “(…) incorrigíveis mosqueteiros, esses verdadeiros demônios (…)” (p. 30), vivemos aventuras com d’Artagnan vestido de mulher para se safar, vinho envenenado, emboscadas, raptos, ciladas, tramas, intrigas. E, qualquer coisa, duelo. Bravura, coragem, honra. “Naquele tempo, o conceito de altivez que hoje está de moda ainda não vigorava” (p. 63). Uma “(…) época tão cavalheiresca e tão galante” (p. 109).

Se nos falta Ciclope de Homero, temos o Cardeal de  Richelieu.  “Um homem de estatura mediana, expressão altiva e soberba, olhos penetrantes (…). E, se bem estivesse desarmado tinha toda a aparência de um homem de guerra (…)” (p. 116). Era o homem dos interrogatórios e que jogava seus inimigos na Bastilha, “(…) não se esconde nada do cardeal; o cardeal sabe tudo” (p. 117).  Tinha uma rede de espiões, homens e mulheres ao seu serviço, que faria inveja à CIA e KGB. Um Varys de Game Of Thrones, com sua teia de aranha. “Não tem ele a seu serviço todas as astúcias do demônio?” (p. 187). “Ele apagaria o sol se o sol o incomodasse” (p. 383).

O canto das sereias encantava os navegantes e os faziam perdidos, em Odisseia. Lady Winter entoa cânticos religiosos em seus dias de cativeiro entorpecendo seu carcereiro. “Essa mulher é agente do cardeal” (p. 170). Muitas máscaras: “D’Artagnan (…) não perdera de vista Milady e, pelo espelho, observou a transformação que se lhe operara no rosto. Agora que não se supunha observada, um sentimento semelhante à ferocidade lhe animava a fisionomia” (p. 264-5). Muitos nomes: Ana de Breuil, Condessa de La Fère, Lady de Winter, Baronesa de Sheffield. O narrador acrescenta outros: “a mulher era um monstro” (p. 278); “(…) figura transtornada, pupilas horrivelmente dilatadas, faces lívidas e lábios sangrentos (…) uma serpente (…)” (p. 304). “É um tigre, uma pantera!” (p. 308). A construção das páginas em que Milady está encarcerada em um castelo é brilhante, o leitor se sente completamente enfeitiçado, hipnotizado. Felton, seu guardião, vai se transformando em caça e ela sua caçadora. Um jogo de serpente entrelaçando sua vítima: “Milady reunia então todas as energias, murmurando o nome de Felton, única claridade que lhe chegava ao fundo do inferno em que caíra; e, como serpente que enrola e desenrola os anéis para avaliar a própria força, envolvia antecipadamente Felton nas mil dobras da sua imaginação inventiva” (p. 434).  “Crês que sou uma mulherzinha qualquer? Quando me insultam, não me sinto mal. Eu vingo-me, entendes?” (p. 293).  “Milady era tão bela, que não encontrava resistência da parte da carne, e tão hábil, que levava de vencida todos os obstáculos do espírito” (p. 433). O narrador é implacável: dos vilões, é a única punida. Esta “Lady Macbeth” (p. 417).

Não há Penélope tecendo de dia e destecendo ao anoitecer. Entretanto, a Sra. Bonacieux é tecida em raptos, conventos, cárceres. Seu marido, Sr. Bonacieux, é o exemplar do burguês, representante da classe que, no século seguinte, tomará o poder. Mas, por enquanto é visto como um mendigo, o não fidalgo. “O caráter de mestre Bonacieux era, fundamentalmente um misto de profundo egoísmo e sórdida avareza (…)” (p. 110). A Senhora, foi alvo do coração de d’Artagnan, perseguida pelo cardeal e vítima de Milady.

O narrador de Os Três Mosqueteiros não se apresenta em versos. No entanto, sua prosa é rica em reflexões, “Há horas que duram um ano inteiro” (p. 451), e, ao mesmo tempo, muito divertida. Não há Atena, “a de olhos glaucos”, não há a “Aurora, de dedos de rosa”. Mas há imagens dignas de deuses: “a aurora lhe pareceu tarjada de luto” (p. 111); relâmpago como “serpente de fogo” (p. 496). O narrador flerta com o leitor, dialoga: “De mais a mais, como sabe muito bem o leitor, de quem não ocultamos o estado de seus haveres (…)” (p. 92). O narrador prorroga a narrativa, usa e abusa do suspense.

Enquanto Ulisses tem sua odisseia na volta para sua morada, d’Artagnan tem suas aventuras na morada nova. Odisseu, “sou um simples mortal transitório”. D’Artagnan, “estou na idade das loucas esperanças”.

São pouco mais de quinhentas páginas de suspense, amizade, vinho, muito vinho, duelos, fugas, aventuras.

Mas, caro leitor, não se fie pelas minhas palavras. Delicie-se com este romance.

“– Senhores (…) estamos prontos?

  – Estamos (…).

  – Então, em guarda!” (p. 262).

“– Todos por um e um por todos” (p. 82).

Muitas Vozes

Ferreira Gullar

 

Meu poema

é um tumulto:

   a fala

que nele fala

outras vozes

arrasta em alarido.

 

(estamos todos nós

cheios de vozes

que o mais das vezes

mal cabem em nossa voz:

 

se dizes pêra,

acende-se um clarão

um rastilho

de tardes e açúcares

       ou

se azul disseres,

pode ser que se agite

    o Egeu

em tuas glândulas)

 

     A água que ouvistes

           num soneto de Rilke

    os ínfimos

    rumores no capim

          o sabor

          do hortelã

   (essa alegria)

   a boca fria

  da moça

           o maruim

  da poça

  a hemorragia

           da manhã

 

           tudo isso em ti

   se deposita

           e cala.

Até que de repente

um susto

               ou uma ventania

(que o poema dispara)

                                         chama

esses fósseis à fala.

 

Meu poema

é um tumulto, um alarido:

basta apurar o ouvido.

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O Alienista Alienado

“– Nada tenho que ver com a ciência; mas, se tantos homens em quem supomos juízo, são reclusos por dementes, quem nos afirma que o alienado não é o alienista?” (Machado de Assis, O Alienista).

 

“Um pensador húngaro chamado Georg Lukács disse no seu livro A Teoria do Romance que o romance é a história de um herói insatisfeito, que busca valores autênticos num mundo degradado (quer dizer, roto, descosido, malfeito)” (Flávio Aguiar, prefácio Murmúrios no Espelho in Contos, Machado de Assis, Editora Ática, 1976). O romance seria uma representação de como conciliar a manutenção de uma sociedade que não representa os interesses da maioria e não cumpre suas promessas de liberdade e felicidade. “Esse mundo ‘degradado’ enfrenta diariamente o problema de ter ou não sentido, de ser ou não absurdo, sem nexo” (Flávio Aguiar).

Entretanto, o herói de Machado de Assis no conto O Alienista, guarda uma peculiaridade: a ironia. Simão Bacamarte, o herói, não está imbuído de “valores autênticos” lutando contra o “mundo degradado”. O alienista busca “louros imarcescíveis”, isto é, louros que não murcham. O “degradado” também está na constituição do herói. Creio que, talvez, esta seja uma marca da escrita de Machado. Esta é a grande ironia, beirando o sarcasmo, o cinismo, o cético. Vejamos.

Dr. Simão Bacamarte é “filho da nobreza da terra e o maior dos médicos do Brasil, de Portugal e das Espanhas” (O Alienista E Outras Histórias, Machado de Assis, Editora Saraiva, 1957). “– A ciência, disse ele a Sua Majestade, é o meu emprego único; Itaguaí é o meu universo” (p. 19). Debruçou-se sobre os estudos e um “dos recantos” lhe chamou a atenção, “o recanto psíquico, o exame da patologia cerebral” (p. 20). Sendo um reino ainda quase inexplorado (o conto foi publicado em 1882), viu a chance de alcançar seus “louros”. Não poupou meios e artimanhas para construir uma casa de Orates, hospital psiquiátrico, em Itaguaí, a Casa Verde. Seus ímpetos de estudos fizeram da “Casa Verde (…) um cárcere privado, disse um médico sem clínicas” (p.45).   Primeiro recolheu os “desequilibrados”, depois os “equilibrados”, e por fim, a si mesmo. A cidade em polvorosa, viveu sua Revolução Francesa: o terror, a rebelião, e a restauração (títulos de capítulos do conto). Cada vez que Bacamarte tinha uma teoria nova, não se sabia quem seria recolhido: “Não se sabia já quem estava são, nem quem estava doido” (p.49).

O narrador é brilhante, implacável. Apoiando-se em “cronistas do tempo” – já que a narrativa era de “tempos remotos” – vai descrevendo a fala da personagem, o que vai na sua alma, e as fofocas dos “cronistas”. Vemos as camadas do narrado. Um bom exemplo é o herói ao escolher seu recanto de estudo: “Simão Bacamarte compreendeu que a ciência lusitana, e particularmente a brasileira, podia cobrir-se de ‘louros imarcescíveis’, – expressão usada por ele mesmo, mas em um arroubo de intimidade doméstica; exteriormente era modesto, segundo convém aos sabedores” (pp. 20-1). A ironia do narrador não poupa sacerdócio, o chefe da rebelião que se rende ao poder, as autoridades constituídas. Nada, nem ninguém, se safa do implacável narrador. Bacamarte, o herói, numa escolha científica de sua esposa, “apta para dar-lhe filhos robustos” (p. 20), vê-se logrado, “D. Evarista mentiu às (suas) esperanças”. Assim o ilustre médico com “olhos acessos da convicção científica” (p. 91), fica sem linhagem, sem herdeiros. Que ironia!

A crítica visível do conto é ao cientificismo, ao determinismo, uma sátira à ditadura da razão, termos muito em voga no final do século XIX. Além de ser muito engraçado, este conto cabe muitas reflexões. Se a espinha dorsal da realidade é a infelicidade geral, social e organizada, como diz Flávio Aguiar, Bacamarte lida com um conceito de razão alienado, no sentido marxista. Para este médico, “a razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades” (p.36). “– Supondo o espírito humano uma vasta concha, o meu fim, (…), é ver se posso extrair a pérola, que é a razão; por outros termos, demarquemos definitivamente os limites da razão e da loucura”.  Como ter o “perfeito equilíbrio de todas as faculdades” numa sociedade organizada na infelicidade? Quem pode decidir – de fato – os limites da razão num mundo degradado?

A ciência a serviço das vaidades é uma ciência alienada. Lida com a humanidade e a natureza como mercadoria, objeto. Busca o poder e não a compreensão da realidade. Ciência coisificada.

O alienista, com este conceito de razão desprovido de conteúdo social, vendo a doença (objeto) e não o humano (sujeito), se utilizando da ciência coisificada, é alienado.

Persistência

Otto Winck

A minha voz

– folha seca, passarinho –

voando na voragem vã do vento,

quer repouso,

quer silêncio.

 

A minha voz quer ser pedra

(no meio de todos os caminhos),

quer ser bronze, raiz, altar, cimento,

mesmo sendo tolice,

mesmo sabendo que será pó do mesmo jeito.

 

É por isso que ela,

cansada no ar,

                  no vento

                   e no céu,

                  

                  cai

                   de

                   boca

                   e

                   sangra

 

– na superfície branca do papel.

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