Romance, leitura, escola

“Só quem se move livremente entre papéis, máscaras, disputas, disfarces, altos e baixos na escala social sabe apreender de fato o sentido de certas aparições, sabe de fato individualizar, quando ainda não é muito forte, o histrião com os bigodinhos que está falando em pé sobre a mesa de uma cervejaria” Antonio Faeti.

Antonio Faeti, no ensaio Um negócio obscuro, escola e romance na Itália (in: A cultura do romance, Franco Moretti (organizador). Tradução Denise Bottmann. São Paulo: Cosac Naify, 2009), apresenta uma relação curiosa. Analisa a escola italiana do pós-Risorgimento, nascida da unidade do país, e a leitura. Esta relação complexa pode nos ajudar a pensar na escola, no romance e na leitura, em qualquer lugar, em qualquer época: “(…) o romance, a sua presença no imaginário, as modalidades do seu acolhimento ou de sua recusa, podem receber um olhar especial, não habitual, capaz talvez de iluminar também regiões que não raro permanecem na obscuridade” (p. 139).

Em 1906 a Itália vive uma época bastante promissora na literatura, em especial no romance. Mas “a escola, no que tange à leitura, e ao romance, era totalmente destituída de uma vocação para o prazer de ler, era dominada pelo medo de que a leitura (…) se revelasse portadora da desordem e da transgressão” (p. 141).

A escola rechaçava os romances quando estes apresentavam uma “irreverência labiríntica”, escapavam dos limites de uma didática e pedagogia supostamente adequadas. Os romances fora do escopo eram lidos num filò, serão familiar, como forma de divertimento, realizado em um estábulo ou celeiro. Leitura como alternativa e fora do controle pedagógico. Justamente por isso, era temida: “(…) um enigmazinho persistente, do ódio acirrado que opõe a escola ao romance, encontra-se na observação das famigeradas ‘fichas’ didáticas, que aviltam, destroem, esgotam os textos que compõem a biblioteca ideal dos livros para ler nas escolas médias” (p. 146).

O autor deste ensaio exemplifica com Ilha do tesouro, de Stevenson. No auge da aventura de Jim, “que a tudo vê, que está em toda parte, que é fiador adolescente de olhos grandes da realização da maravilhosa aventura”… a escola saca de um “ficha” científica para discutir o escorbuto, por exemplo, “até inibir toda possibilidade de fruir o prazer do texto, como se se procedesse a uma infibulação crítica, a uma castração literária” (pp. 146-7).

A escola com “fichas” e mais “fichas” purgam “de toda libido textual páginas como as do afeto da menina pelo ‘monstro’ em O sol é para todos, e não há Macondo que sobreviva” (p. 147).

Sobre a aversão da escola pelo romance, o autor tem uma hipótese de que a instituição tema que o romance tome seu lugar, que atenue o papel dos professores, corroendo a própria escola. “Como instrumento didático, o romance é muito forte na definição de identidades não passíveis de serem suprimidas, induz a se perscrutar, acolhe as comunidades dos leitores, mas prefere a solidão do leitor como momento definitivo de acesso ao texto, portanto, contraria a homologação imposta, a massificação miserável, a extinção da fantasia, ou seja, põe-se a si mesmo contrariamente aos eixos do ensino escolar” (p. 147).

Um grande efeito é a Itália estar em último lugar, em questões de leitura, entre os países industrializados do Ocidente. Há que se pensar.

Léo

A Casa Verde

“Quando a casa ficou pronta, Dom Anselmo decidiu que fosse inteiramente pintada de verde. (…). De casa em casa, de salão em salão, as beatas cochichavam, as senhoras olhavam para seus maridos com desconfiança, os vizinhos trocavam sorrisos maliciosos e, um domingo, na missa do meio-dia, o Padre García afirmou do púlpito: ‘Prepara-se uma agressão contra a moral desta cidade'”. A Casa Verde, Mario Vargas Llosa.

A Casa Verde é um labirinto. Senti-me embriagada, sonhando, em transe. Perdida no entrelaçamento do tempo. Presente e passado na mesma página. Os fatos não em linha evolutiva, mas aos saltos. Deslumbrada com tantas histórias e personagens nas quase 400 páginas.

Peru, anos quarenta do século passado, durante a segunda guerra mundial. O caucho, árvore que produz um látex, é procurado como fonte de riqueza em plena selva amazônica. Uma luta constante entre cristãos e os chamados “selvagens”, tribos dos aguarunas e huambisas. Mario Vargas Llosa entrecruza dois relatos “ambientados em lugares muito diferentes do Peru: Piura, no extremo norte, cercada por grandes areais, e Santa Maria de Nieva, um pequeno povoado na região amazônica. Como ele mesmo diz (…), ‘Piura é o deserto, a cor amarela, o algodão, o Peru espanhol, a ‘civilização’. Santa Maria de Nieva é a selva, a exuberância vegetal, a cor verde, tribos que ainda não entraram na história, instituições e costumes que parecem sobrevivências medievais'” (p. 408).

O capítulo inicial é descrito com tanta destreza, o narrador tão preso aos fatos, que a gente demora para perceber a violência. Madres e guardas adentrando a selva para roubar meninas dos ditos “selvagens”. As cristãs, numa selvageria, as arrancam de sua tribo para levá-las ao convento num ato de “salvação”: “Madre Angélica distribui os presentes que os aguarunas recebem sem dar mostras de entusiasmo, mas logo, quando as madres e os guardas começam a comer pedacinhos de peixe (…), os dois homens, sem olhar, abrem as bolsas, acariciam espelhinhos e colares, repartem as contas coloridas (…)” (p. 13).

Em troca dos “presentinhos”, o rapto de duas meninas pelos guardas e as madres: “Os dois aguarunas se mantêm dóceis frente aos fuzis (…). As mãos das meninas não alcançam o rosto de Rubio, só seu pescoço, cheio de risquinhos violáceos, e rasgam sua camisa e arrancam os botões. (…). O Rubio, Madre Angélica, e as meninas se desvanecem também entre ondas de pó” (pp. 16-17). As garotas raptadas serão “civilizadas”, ganharão um deus, aprenderão que suas vidas pregressas eram pecado – implantam o pecado em seus corações. Posteriormente servirão de empregadas domésticas, cozinheiras, babás, em casas de gente rica e de classe média. Ou terminarão na Casa Verde como prostitutas. Como a personagem , que primeiro tem um nome cristão de Bonifacia, e termina por se chamar Selvática.

Este romance lembra o rio Marañón, tão bem descrito como se fosse um personagem, com sua força, muitas entradas, lugares secretos. Personagens ricos, mesmo secundários ou somente citados, como Domitila Yara: “Anos depois morreu Domitila Yara, a santeira (…), a beata sempre vestida de negro, rosto velado e meias escuras (…). Onde havia partos, mortes, doenças, desgraças, acudia a santeira com sua imagem e suas rezas. De seus dedos apergaminhados caía até o chão um rosário de contas enormes como baratas” (p. 233). Descrições maravilhosas: “Ao cruzar a região das dunas, o vento que desce da cordilheira se abrasa e endurece: armado de areia, segue o curso do rio e quando chega à cidade aparece entre o céu e a terra como uma deslumbrante couraça. Ali esvazia suas entranhas: todos os dias do ano, à hora do crepúsculo, uma chuva seca e fina como serragem de madeira, que só pára à alvorada, cai sobre as praças, os telhados, as torres, os campanários, as sacadas e as árvores, e assoalha de branco as ruas de Piura” (p. 27).

Esta edição de A Casa Verde vem acompanhada de um ensaio do autor sobre a própria escrita do romance: História secreta de uma novela (Círculo do livro, tradução de Remy Gorga, filho. São Paulo, 1971). Muito interessante ler sobre a espinha dorsal que originou o romance, as aventuras que o próprio autor viveu e que geraram a escrita.

Se há algo que nutre todas as páginas de A Casa Verde é a violência. Num belo e poético relato. Violência. Mas não é esta a história da América Latina desde sua colonização?

Léo

Golpe de ar

há algo de estranho acontecendo nessas terras
lagartos se fingem pedras
garças acuadas já não voam mais

fardas trucidam inocência

há algo de estranho nessas terras
messias, ofuscando alternativas,
carregam em suas mãos
"as velhas formas de viver"

deuses fogem apressados

há algo de muito estranho acontecendo nessas terras

yanomamis, uirapurus,

o golpe já foi dado

Léo

Noite na Taverna

“Aspirações, a vida mesma vão-se na rapidez de uma corrida, onde todo esse complexo de misérias e desejos, de crimes e virtudes que se chama a existência se joga numa parelha de cavalos!” Noite na Taverna, Álvares de Azevedo.

Este livro tanto tempo em minha estante… De súbito, o abro. Não, o devoro: Noite na Taverna, Álvares de Azevedo, Editora Ediouro, 1997.

Adonias Filho, na apresentação, diz que este livro “não seria escrito fora do romantismo, poderá ser verdade, mas é o gênio de Álvares de Azevedo que o sustenta em sua duração no grande processo renovador da literatura brasileira” (p. 5). No primeiro capítulo, Uma noite do século, quatro homens em uma taverna embriagados – “Espiritualista, bebe a imaterialidade da embriaguez!” – travam uma discussão filosófica. Alma? “a imortalidade da alma? pobres doudos! e por que a alma é bela, por que não concebeis que esse ideal possa tornar-se em lodo e podridão, como as faces belas da virgem morta, não podeis crer que ele morra?” (p. 14). Vida? “a vida não é mais que a reunião ao acaso das moléculas atraídas (…)”. Deus? “crer em Deus!?… sim! como o grito íntimo o revela nas horas frias do medo, nas horas em que se tirita de susto e que a morte parece roçar úmida por nós!” (p. 15). Ciência? ” a ciência é falsa e esquiva, que ela mente e embriaga como um beijo de mulher” (p. 16). Poesia? “Meio cento de palavras sonoras e vãs que um pugilo de homens pálidos entende, uma escada de sons e harmonias que àquelas almas loucas parecem ideias e lhes despertam ilusões como a lua às sombras… Isso no que se chama os poetas” (p. 48).

Embebidos nesta visão pessimista, cada qual conta sua historia, um conto em cada capítulo. Álvares de Azevedo poeta, “e poeta ainda quando escreve os contos” (p. 6). Adonias Filho os chamam de fantásticos de fundo trágico. Eu diria de terror, sobrenatural: cadáveres povoam todas as páginas, canibalismo, rapto, traições, orgias, libertinagem, incesto. Narradores homens, a mulher é que sempre desencadeia os fatos, e mais como vítimas. A morte e vida num duelo constante. O amor, não como salvação, e sim tragédia. Crueldade encoberta com pura poesia.

” (…) compreendemos afinal porque em ‘Noite na Taverna’ se abriga um reino. Um reino que não é encantado”, como afirma Adonias filho. Estes homens narradores são perseguidos pela memória. “O encontro na taverna, à noite, não acontece por acaso. Todos se embriagam, todos têm uma estória maldita, é o demônio – o demônio goetheano – quem puxa as redes do inferno” (p. 8). Das tragédias, os narradores são sobreviventes, porém mortos-vivos cheios de remorso e culpa.

Mas salva está a literatura. Este poeta constrói grandes imagens: “Quando as nuvens correm negras no céu como um bando de corvos errantes, e a lua desmaia como a luz de uma lâmpada sobre a alvura de uma beleza que dorme, que melhor noite que a passada ao reflexo das taças?” (p. 13). A poesia dá o ritmo das narrativas. Li em voz alta este grande poema. Deste poeta que morreu tão moço, aos vinte anos.

Como escreveu outro poeta, Walmir Félix Ayala, “a poesia é necessária para o contato do homem com o mistério que o rodeia. Este enigma a que o homem se lança, este dualismo de vida e morte entre cujos extremos tantos imprevistos florescem”.

De qualquer forma, brindemos, como os narradores na taverna, ao deus Baco: “Ao vinho! ao vinho!”

Léo

Poema para Duncan

manto vermelho
nasce Isadora, filha da deusa Ísis, dádiva de Ísis

no frio e fome da infância
sem brinquedos e brincadeiras,
mas ao som de Schubert e poetas,
dança no meio da floresta de frente ao mar

"as árvores dançam comigo"

nua, descalça
sapatos, prisão
roupas, correntes
dançando em harmonia
com o movimento do universo

"quem é você, com seus milhões,
para tentar capturar minha alma?"

rodeada de chamas e fúria,
dança no túmulo de uma América imperialista
de uma Europa carmomida
impossibilitadas de compreender
seu sonho libertário

ruma para uma Rússia rubra,
também menina em seus primeiros anos de revolução

"e quando digo viver, quero dizer dançar"

deseja os órfãos que tudo perderam
fundar uma escola que ensine a viver
- não para o palco -
para dançar livremente
crianças como "campo de papoulas vermelhas"
ondulando ao vento
abraçando o mundo
estendendo-se em direção do sol, da luz,
das estrelas

Isadora, filha de Ísis,
dançou a Marselhesa
contra a guerra
dançou a Internacional
para traçar o futuro

dançarina, teórica da dança,
leitora voraz da filosofia e poetas,
mulher livre, revolucionária,
lutadora, aventureira, dançarina

Isadora Duncan, filha de Ísis,
"dança ondas som ondas luz ondas"

(poema que escrevi a partir do livro Isadora, fragmentos autobiográficos, tradução Lya Luft, L&PM Editores, 1981).

Léo