Lições De Uma Guerra

“Épocas ‘complexas’ como a nossa criam a necessidade de avaliar o dia de ontem (…)”.

Leon Trotsky

Thomas Mann, em Doutor Fausto (Editora Nova Fronteira), narra a história de um músico alemão – Adrian Leverkühn – que faz um pacto com o diabo: “em troca da danação eterna, um prolongamento de sua vida para poder realizar uma grande obra (…)” (orelha do livro). O apresentador do romance dá uma dimensão política a este pacto: “a sedução de Leverkühn pelo Demônio é também a sedução e a danação da Alemanha pelo nazismo (…)”. Mas tratemos da primeira guerra.

Doutor Fausto foi publicado em 1947. Serenus, o narrador, escreve em 1944 a história de Adrian que perpassa a primeira guerra mundial. Este ponto de vista alemão é bastante interessante para se perceber a postura perante a primeira e a segunda guerra. Em 1914, a euforia: “O calorão dos primeiros dias de agosto de 1914 encontrava-me a passar de um trem superlotado a outro (…). Rebentara a guerra. (…). Na nossa Alemanha, (…), predominava sobretudo o sentimento de enlevo, entusiasmo histórico, alegria de pôr-se em marcha, dispensa dos afazeres cotidianos, libertação de uma generalizada inércia (…)” (p. 420). E o narrador participa desta euforia: “Não quero, aliás, negar que participei de corpo e alma do arroubo popular (…)” (p. 421). Se o sentimento na primeira guerra era de que tinha soado a hora da Alemanha, o narrador em 1944 tira outras lições: “(…) no ano de 1918, a conservação do bloqueio também depois da capitulação tenha servido às potências ocidentais de freio para controlar a revolução alemã (…)” (p. 475). Serenus, humanista convicto, vai além: “Há vinte e seis anos, a repugnância pela discurseira moralizante, farisaica, do orador burguês, (…), revelava-se em meu coração mais forte do que o receio à desordem (…)” (p. 476). Deseja que seu país derrotado busque apoio “de seu irmão na miséria, a Rússia”. “(…) prontificava-me a aceitar convulsões sociais (…). A revolução russa emocionou-me profundamente, e a superioridade histórica de seus princípios, em confronto com os das potências que dobravam nossa nuca aos seus pés, era, ao meu ver, evidente” (p. 476).

Leon Trotsky, Minha Vida (Editora Sundermann), diz: “Duas vezes eu vi as massas abandonarem suas bandeiras: após o esmagamento da revolução de 1905 e no início da guerra mundial” (p. 32).  A mesma euforia vivida pelo narrador de Doutor Fausto contamina as massas da Europa: “Existe um monte de gente que por toda a vida, dia após dia, vive uma monotonia sem esperança. É sobre essa gente que repousa a sociedade contemporânea. (…). As esperanças estavam afloradas. (…). A guerra apodera-se de todos e, por isso, os oprimidos, aqueles que a vida esqueceu, sentiram-se, então, no mesmo nível de igualdade que os ricos e poderosos” (p. 280). O espírito patriótico se alastra. A palavra de ordem é o nacionalismo, defesa da nação. Justamente uma guerra que “não podia ser outra coisa senão a revolta das forças produtivas capitalistas de todo o mundo contra a propriedade privada, de um lado, e contra as fronteiras nacionais dos estados, de outro…” (p. 286).

O que causa espanto é a capitulação de boa parte dos partidos socialdemocratas da Segunda Internacional. Abandonam a bandeira do internacionalismo e se agarram ao espírito patriótico. “O momento era de confusão absoluta” (p. 303). Trotsky vai descrevendo uma a uma das traições. Talvez a mais nefasta seja do partido alemão: onde se esperava revolução veio capitulação. “O telegrama que anunciou a capitulação da social-democracia alemã me abalou mais profundamente do que a declaração da guerra (…)” (p. 282). E “Lenin teve certeza de que era um documento falso, inventado pelo quartel-general alemão para enganar e assustar seus inimigos” (p. 283). A consequência mais atroz foi não ter feito a revolução dando, assim, sustentação a tese de “socialismo num só país” de Stalin. Porém, negando-se a “colocar os óculos nacionais”, delegados, que cabem em quatro carros, “em uma vila no meio do nada” fundam a Terceira Internacional. Responsável, em última instância, pela Revolução Russa.

Hoje no Brasil, quem faz o pacto com o diabo é o PSOL, PT, PCdoB. Depois de uma greve internacional de mulheres, de greve geral, jornadas de lutas, derrota da reforma da previdência, ceticismo das massas com as instituições burguesas e políticos tradicionais, esses partidos transvestidos de esquerda vem propor os mesmos caminhos da ordem: eleições. Há catorze anos ainda havia um gosto de novo. O povo acreditou que seria possível “governar para todos”. Mas, hoje? O reformismo realmente é um pilar de sustentação do sistema capitalista. Não nos enganemos.

Deixo-vos com Castro Alves: “Ai! Não queiras os restos do banquete!”.

 

 

 

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