É verdade este bilhete

Trabalhei por vinte e cinco anos no Banespa, banco estatal, privatizado em 2000 e “doado” ao banco espanhol Santander. Eu era diretora do sindicato dos bancários numa cidade do interior de São Paulo. O sindicato era muito aguerrido, lutador, e aprontamos muito contra os patrões. O sindicato era tão diferente dos demais, que até rodízio dos diretores tinha: éramos liberados para o sindicato por um período e trabalhávamos na agência em outro. 

Faltando pouco mais de dois anos para eu me aposentar, fiz o último rodízio. Só que o banco estava bravo com nossa luta e aproveitou para me punir. Eu trabalhava na maior agência da nossa base. O banco me mandou para um posto bancário com apenas três funcionários, de frente do quartel da polícia militar. Entramos na justiça alegando perseguição, assédio moral, essas coisas. Mas, sabe como é a justiça: o mais comum é ficar do lado dos patrões. Perdemos. E lá fui eu cumprir a minha pena. O lugar era tão pequeno que nem cadeira pra mim tinha. 

O que fiz? Li. Levava livros e lia de pé sob um arquivo. Li Dom Quixote, todos os volumes de O Tempo e o Vento, de Érico Veríssimo, A Sociedade do Espetáculo, Guy Debord, entre outros. Sentia-me como os prisioneiros do século XIX que liam nas bibliotecas das prisões (risos). 

O posto bancário era longe, mas eu ia a pé. Numa dessas caminhadas, vi numa loja – dessas que vendem um pouco de tudo – livros usados. Claro que fui explorar. Você, caríssimo leitor, pode não acreditar, porém achei uma coleção enorme de livros de contos. Livros de capa dura, com brilhantes introduções, pequena biografia dos autores, e contos, muitos contos. Cada volume de um país: Maravilhas do Conto Universal, Editora Cultrix, SP, cuja data da edição vem em números romanos (1959, MCMLIX), e “impresso nos Estados Unidos do Brasil”. Não é demais? 

Ah, como viajei naquelas páginas… e muito bem acompanhada. Com Thomas Mann, “era como se o sonho não tivesse interrompido as suas angústias”, O Pequeno Senhor Friedmann; na Introdução do conto hispano-americano, “(…) na América os assuntos geralmente, ainda aguardam os seus intérpretes”, Edgard Cavalheiro; Gorki, “A vida tem sua sabedoria que se chama acaso”, Ruivo; “os vagalumes teciam uma trama de luz vacilante”, Afonso Arinos, Assombramento; Willa Cather, “(…) e Paulo regressou ao imenso desígnio das coisas”, O Caso de Paulo. E, Mário de Andrade, Vestida de Preto, “Tanto andam agora preocupados em definir o conto que não sei bem se o que vou contar é conto ou não, sei que é verdade”.

Bom, o banco continua enchendo as burras de dinheiro, os bancários continuam lutando, e eu me aposentei. Hoje até me arrisco nuns contos. Este, não sei se é conto ou não, “sei que é verdade”.

Léo

14 comentários em “É verdade este bilhete

    1. Nossa Miau, muito obrigada, seu comentário só me fortalece! Sim, meus companheiros. Jorge Luis Borges disse numa entrevista que ler é uma forma de viver. E como sei que livros também são teus companheiros, vamos viver!

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  1. A luta por demandas salariais, através dos sindicatos, sempre termina truncada em todo o mundo. O poder do dinheiro supera o destino dos trabalhadores assalariados. A corda quebra para os fracos. Sua história nada mais é do que um retrato da vida e do infortúnio de um funcionário que, no final, ganhou um bem muito valioso: o valor da leitura.
    Uma história que, como sempre, também atende às expectativas de uma excelente leitura que deixa uma reflexão.
    Um grande abraço querido e apreciado Leo
    Manuel

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    1. Lutar é como um poema. Eles atacam, a gente luta. O poema vem, a gente escreve. Se pensar bem poeta, o “fraco” são eles, os patrões: número reduzido, nada produzem, só sugam, só destrói. Eu tenho orgulho da minha história de vida. Hoje sou livre e escrevo. Eles perderam.
      Gostei da tua nova foto. Você leve e sereno, acompanhado do mar.
      O mar é uma espécie de cosmos aqui na Terra. O mar… é imenso!
      Beijos revolucionários pra ti.

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      1. Eles deram a você a oportunidade de tirar o melhor proveito de si mesmo. Sua escrita e seu talento para deixar seus sentimentos em cada palavra. É uma luta de Davi contra Golias. Mas eles nunca podem ter a consciência limpa.
        Obrigado pela foto. Eu cresci de frente para o mar no Peru. A praia é de uma ilha, Margarita, na Venezuela.
        Um grande abraço e um bom fim de semana
        Manuel

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