Jorge e Elisa

“Mas você sabe, devoto dedicado, eu vejo e acredito
que lutamos juntos por um mundo melhor
sem nem saber qual,
claro tendo apenas que tudo tem que ser mudado”
do blog antalgicapoetica.com

 

Mônica viajou com mais dois amigos. Foram de carro até uma cidade mineira. Caminho longo, travessia de balsa, fila, e a música Tradição com Gil e Caetano rolando. A última trincheira era um rio. Ainda bem que não estava cheio. Um dos amigos tinha feito universidade com Jorge e Elisa.

Mônica chega num sítio. A casa foi construída pelas mãos de Jorge e Elisa, com ajuda de moradores locais. Casa de chão batido e sem luz elétrica. Com cachoeira no “quintal”.

Os amigos logo iniciam grandes conversas, contam histórias, lembranças, memórias, futuros. Fogueira. Maconha. Bebida.

Elisa conta a barra de ser mulher naquelas paragens. A natureza exuberante contracenando com machismo e outras mulheres a olhando como se fosse bicho esquisito: bebe sozinha no bar, trabalha duro junto com seu companheiro. Elisa sente falta do mundo.

Jorge fala de política. A natureza vigorosa em meio à disputas familiares. Cabrestos eleitorais. Morte. Ele, professor de história ensinando mudanças.

Entre tantos casos, Mônica presta atenção no de um amigo do casal daquelas bandas: viajava muito, pois era seu trabalho. Mulher e filhos sempre sós. Esse amigo volta de uma de suas viagens e fica sabendo do amante. A cidade toda comenta. Jorge e Elisa preocupados. A morte por ali é fácil.

No domingo, outras pessoas aparecem, incluindo o marido traído. Todos vão tomar banho na cachoeira, fazer caminhada, fumar um baseado. Na volta, preparam o almoço.

Mônica numa certa hora vai fumar. Senta-se num banco sob uma árvore. O traído senta-se ao seu lado. Conta-lhe sua história: trabalha duro, viaja muito. E quando volta para casa, encontra sua mulher o traindo. Amante. Chifres. Não lhe restava outra saída senão matá-los. É o que se exige, diz ele. Mônica o ouve interessada. Nunca tinha escutado este ponto de vista. Após ouvi-lo com muita atenção, mostra o ponto de vista da mulher traidora: sempre só, dando conta dos filhos, do dia a dia, das penúrias de quem fica. Nunca viaja. Imagina sim, seu marido nos braços de outra,  longe e ausente. O traído ouve Mônica. Riem. Trocam ideias. Mônica soube, tempos depois, que as mortes não aconteceram.

Mônica volta sozinha de ônibus. Fará uma nova viagem. Acorda muito cedo. Jorge a leva de carroça até a rodoviária.

O sol nascendo, o trote do cavalo, um baseado. Jorge falando de si numa voz mansa e macia.

Mônica nunca se esquece de Jorge e Elisa. Eles são muito bonitos.

Léo.

5 comentários em “Jorge e Elisa

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