Pai Contra Mãe

“Não é parar a roda. É quebrar a roda” ( Daenerys, Game of Thrones).

Em novembro de 2019 visitei o museu da cidade de Amparo-SP. Estavam expostos os instrumentos de tortura usados na escravidão. Grilhões, correntes. Pesados. Ferros fortes e negros como os negros aprisionados. Esta cena me voltou em lembrança lendo o conto de Machado de Assis, Pai Contra Mãe (Contos Escolhidos, Machado de Assis, Editora Martin Claret, SP, 2012).

“A escravidão levou consigo ofícios e aparelhos, como terá sucedido a outras instituições sociais” (p. 303). O narrador, através do ofício e descrição dos instrumentos, vai nos assentando na amplidão da escravidão: “Era grotesca tal máscara, mas a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco, e alguma vez o cruel”. O tom sarcástico característico de Machado impera no conto todo. Sarcasmo e dor.

Do panorama, lança luz em um dos ofícios: “Há meio século, os escravos fugiam com frequência. Eram muitos, e nem todos gostavam da escravidão”. “Ora, pegar escravos fugidos era um ofício do tempo” (p. 304). Ofício, que ninguém se metia por estudo; a pobreza, a inaptidão, o acaso, “e alguma vez o gosto de servir (…) davam o impulso ao homem que se sentia bastante rijo para pôr ordem à desordem”.

Cândido Neves é a particularização, é a personagem que nos guia neste espetáculo grotesco e cruel. Seu ofício, capturar negro fugido. Não aguentava emprego, não suportava o tempo para aprender. Pobre, se casa com Clara, também pobre, órfã. “Quando veio a paixão da moça Clara, não tinha ele mais que dívidas (…)” (p. 305). Em pobreza profunda vem a gravidez. “A natureza ia andando, o feto crescia, até fazer-se pesado à mãe, antes de nascer” (p. 308). Quando nasce o menino, enche os pais de alegria e… dor. Sem casa para morar, sem dinheiro para o aluguel, o conselho vem da tia de Clara: a Roda dos enjeitados. “Em verdade, não podia haver palavra mais dura de tolerar a dois jovens pais (…)”.

Prestes a consumar o conselho, Cândido com seu filho no colo, rumo à Roda dos enjeitados com uma dor dilacerante, se vê frente a frente com uma escrava fugida. Grávida. Pai contra mãe.

No conto há um vencedor. Vitória pífia, é certo. Vitória como denúncia. Cândido Neves, ao executar seu ofício, torna-se o próprio instrumento da escravidão. O sujeito se iguala ao objeto, isto é, o sujeito é o objeto. O homem como ferramenta para garantir a ordem. Porém é a briga entre os debaixo da pirâmide. Como escolher entre o pai pobre e a escrava grávida? Qual filho deveria vingar?

Ou poderia ter outro desfecho. Que este pai e esta mãe, que este pobre miserável e esta escrava, descessem do ringue imposto, parassem de se digladiarem. Que o olhar focado entre ambos se voltassem ao verdadeiro inimigo: o senhor de escravos, a escravidão.

Que quebrassem a roda!

Léo