Lagarta

“Não há devassidão maior que o pensamento” Wislawa Szymborska.

 

Esta é a epígrafe do livro de contos Jeito De Matar Lagartas (Editora Companhia Das Letras, São Paulo, 2015). O autor é Antonio Carlos Viana, sergipano, falecido em 2016.

Devassidão, caráter ou procedimento de devasso; libertinagem, licenciosidade. O narrador desses contos tem esse caráter. É libertino, licencioso. E é uma delícia lê-lo. Paulo Henriques Britto, poeta, nos apresenta a escrita de Antonio Viana como “(…) uma recusa a qualquer forma de sentimentalismo, sem que isso implique indiferença ou cinismo”. Que “a secura do texto potencializa a crueldade dos personagens e paradoxalmente gera, ao mesmo tempo, um humor discreto e devastador (…)”.

Lagartas são insetos quando estão na sua fase inicial de metamorfose. São larvas que posteriormente se transformarão em borboletas, mariposas ou outros insetos. Os personagens dos contos são como lagartas. Boa parte deles com potência para a metamorfose, mas que “morre” antes ou se conforma nesta “fase inicial”. Não dá o salto. Há casos de falsas esperanças, no entanto o cotidiano os arrebata. Como em Roteiro da Solidão com seus subterfúgios, “a vida e seus descaminhos” (p. 19). Frustra o leitor. Até parece que este intento é mais importante que a história. O narrador parece que está rindo baixinho, num canto qualquer, com as mãos nos lábios, todo sapeca. Amarelo Klimt, ressoa o incômodo, a tensão, algo no ar, incertezas. Uma psicopatia, que também a reconhecemos em nós. Os personagens são apresentados em abreviações, MN e LR, aumentando o tom do descompasso. “LR havia lido que um dos traços do psicopata é não ter pena dos animais, não ter compaixão de nada nem de ninguém” (p. 30). Se “(…) o mundo se dividia entre os de coração aflito e os de maldade extrema” (p. 47), Cara de Boneca, nos prega uma peça. O narrador, o que tem voz, é o de coração de “maldade extrema”, e o narrado sem voz, tem o “coração aflito”. A narração é de um adulto relembrando sua meninice, portanto com plena consciência. E a tristeza é grande. O uso, a solidão, o sexo. A instrumentalização do outro. Um lindo conto.

Florais, talvez seja uma exceção. Um alento saber de Dona Delfina, viúva, “(…) da vida que passa sem a gente sentir (…)”. Que liga para as amigas, “como se tivesse acordado de um sono do qual ela mesma não se dera conta (…)” (p. 50), descobrindo “que o amor exige desrespeito, senão fica incompleto” (p. 54). “O corpo, depois do luto pesado, começara a exigir coisas estranhas, como se estivesse se despedindo de si mesma” (pp. 51-2). Na outra ponta, Professor Locarno, o corpo já é de despedida: “Há um momento em que o corpo fica impaciente com a vida e só quer descanso absoluto” (p. 58). Perdido em sua festa de aniversário preparada, recorda Clarice Lispector em outro conto, Feliz Aniversário. “Para que cantar ‘muitos anos de vida’ agora?” para um velho de oitenta e nove anos; “(…) ele desejou muito que o coração afrouxasse de vez e nunca mais ele soubesse o que significava outro dia” (p. 59).

O sexo é sem adorno. É selvagem, instintivo, bom: “(…) dele fazer nela as boas coisas da vida” (p. 61). “(…) Valdireno pôs (…) uma gamela de madeira, coberta com umas folhas (…) que desprendiam um cheiro selvagem, de coisa cozida no mel, e ao mesmo tempo de uma sensualidade a toda prova, como se desprendesse das entranhas de uma mulher toda aberta esperando a hora de ser vasculhada com os dedos (…)” (p.66). Afinal “Não há histórias de amor sem cuecas e calcinhas” (p. 106), pois “O amor também tem seu lado porco, seu vocabulário de latrina (…)” (p. 107). E as putas tem voz, e quase cumprem uma função social: “Sim, já fui professora de jardim, mas o salário não dava. (…). Ontem mesmo um senhor chorou em minha cama (…). Veio só (…) pela fama que se espalhou a meu respeito, que recupero caralhos murchos” (pp 123-4).

Com linguagem bruta, seca, “humor discreto e devastador”, o narrador vai nos contando sobre Lucy in the Sky e seus caminhos solitários, dando uma suspensão na narrativa, deixando ao leitor o poder para imaginar sua continuação. Vai desbravando os territórios dos adultos. Faz a gente sofrer com Aline, a bailarina, “(…) porque a vida lhe tinha sido cruel além da conta” (p. 78). Entender: “(…) e viu como era fácil qualquer mulher trair. Bastava não ter esperanças” (p. 92); “Via agora que todo mundo traz dentro de si um assassino, é só aparecer a sua hora” (p. 108).  Passeia pelos corpos das senhoras, vagueia pelos dos senhores. Conhece com desenvoltura a maldade dos meninos.

Se as personagens permanecem lagartas, a potência está ali, mas não se efetiva, o narrador é que se metamorfoseia. É borboleta esvoaçando sobre fatos corriqueiros – na aparência – com suas tragédias e seus, quase, milagres. E “(…) outro dia chegou com as gracinhas de sempre (…)” (p. 59).

 

P.S. 1- Para minha filha, Beatriz, que me presenteou com este livro: “(…) a jovem devia      se chamar Beatriz, que é nome de mulheres que nunca perdem a beleza” (p. 103).

P.S. 2- Em https://semspoilerspfv.wordpress.com tem uma boa crítica de outro livro de Antonio Carlos Viana, Aberto Está o Inferno.

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Caminhando pelo Passeio Público, pensando neste texto que ainda escreveria, deparo-me com esta lagarta… Neste dia, não convoquei as Musas, agradeci diretamente ao autor.
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