Objetos cortantes

“Eu me corto, sabe? E pico, e fatio, e gravo e furo. (…). Minha pele grita, vê? (…). A única coisa de que tenho certeza é que, na época, era crucial ver essas letras em mim; não apenas vê-las, mas senti-las” Objetos cortantes, Gillian Flynn.

É um livro bruto, violento, forte, e de uma fragilidade explícita. Objetos cortantes ( Editora Intrínseca, RJ, 2015, tradução de Alexandre Martins) é o romance de estreia da jornalista norte-americana Gillian Flynn. Romance que também gerou uma série, Sharp Objects, HBO, 2018, direção Jean-Marc Vallée. A série captura o espírito do livro com pequenas transformações. Gostei, assim como gosto de um novo arranjo para uma música, ou um livro transformado em filme. Uma obra gerando outra. No geral não dá muito certo, por isso as exceções são bem-vindas. O último episódio é que não deu conta do recado: muito rápido, condensado, e fica tudo no ar. O livro é mais redondo. Não deixa ponta solta, e o epílogo é redentor. Gostei mais.

Camille Preaker é jornalista do jornal Daily Post, “quarto jornal de Chicago, relegado aos subúrbios” (p. 8). Cobre assassinatos, ocorrências policiais. Frank Curry, seu editor, pergunta por Wind Gap, cidade de Missouri, cujo “principal negócio é o abate de porcos. Tem cerca de dois mil habitantes. Famílias ricas e escória”. “- Você é qual?”. “- Sou escória. De família rica”. (p. 9).

Wind Gap “é uma daquelas cidades decadentes com vocação para a desgraça”. A desgraça da vez vêm em dose dupla: duas garotas de 9 e outra de dez anos, estranguladas e dentes arrancados. A polícia sem pistas do assassino. Curry quer a “chance de conseguir algo. Grande” (p. 10). Assim o jornal poderia se tornar o preferido de Chicago e ter credibilidade nacional. “Trabalho triste (…). Tempos tristes” (p. 18).

Esta cidade de “abraços frouxos” (p. 40) é onde nasceu Camille Preaker. E também “morreu” quando garota, quando outra garotinha morreu: Marian, sua irmã mais nova. Cidade que abandonou por mais de dez anos, ficou internada em uma clínica devido aos cortes que fazia na pele, e levava uma vida ainda sem rumo. A volta seria “sacudir a poeira”. Procurar a causa e o assassino das garotas seria procurar pelas causas de sua própria morte.

Mergulho no passado. Encarar monstros. Esta é a viagem do romance. O que pude sentir é que esta cidade não abate somente os porcos. As relações pessoais – como a sociedade que vivemos – se baseiam no medo, no controle, na chantagem emocional, no poder. A família, que poderia ser um lugar de afago, abrigo, refúgio; as amizades, de troca e fraternidade; transformam seres humanos em coisas, objetos cortantes. A história de vida numa repetição de abuso que ganha proporções ilimitadas, cuja ponta do iceberg são duas garotas estranguladas e seus dentes arrancados.

A inquietação familiar, a falta de amor, a infelicidade, faz Camille usar o sexo, drogas, bebidas, como fuga, ou refúgio. Porém a dor é tamanha que grava em seu próprio corpo, palavras. Materialização.

Objetos cortantes. Tesouras, facas, estiletes, agulhas, pessoas. Palavras.

Léo

2 comentários em “Objetos cortantes

  1. Muito bom! Gostei muito da série e agora fiquei curiosa pra saber o final do livro.
    E que texto bom de ler, é ótimo quando alguém faz uma reflexão mais aprofundada e vai colocando pontos que a gente só ‘passa por cima’ ao ter contato com uma história. Uma ótima manneira de começar o dia!

    Curtido por 1 pessoa

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