A face escondida da criação

“Se não podemos dar respostas conclusivas acerca dos mistérios da criação, podemos refletir a respeito e esta reflexão é, em si própria, um ato criativo” Moacyr Scliar.

A face escondida da criação (Editora Universitária, RS, 2005) é resultado de uma proposta de Clara Pechansky, artista plástica, que, reunindo um poeta, uma intérprete musical, um escritor, um cineasta, ela própria, um teórico de arte e dois psicanalistas – todos do Sul – jogassem luz sobre o processo criativo.

No prefácio, Moacyr Scliar compara este processo ao deus Jano, o de duas faces, que “no caso da criação só uma face é visível, aquela que representa o resultado final do processo: o quadro, o livro, a escultura, a composição musical. A outra face, a da criação propriamente dita, fica escondida. Até hoje é um mistério, um enigma” (p. 11). Sabe-se do criador e vemos a criatura, a obra de arte pronta e acabada. Mas como?

Fayga Ostrower, na apresentação, defende que “pensar na inspiração como instante aleatório que venha a desencadear um processo criativo, é uma noção romântica. Não há como a inspiração possa ocorrer desvinculada de uma elaboração já em curso, de um engajamento constante e total, embora talvez não consciente” (p. 5). O poeta Armindo Trevisan, ” (…) pronunciemos a palavra mágica: inspiração! Acredito nela, por mais que se desconfie dela. Também desconfio, mas de outro jeito. A inspiração existe. Não é senão uma vontade incrível de sair de si, comunicar-se” (p. 100). Paul Valéry, “a primeira palavra, os deuses a dão aos poetas! As outras, ele tem de achar por conta própria”. Millôr Fernandes, “inspiração é coisa de amador”.

Clara Pechansky fala do prazer da criação. “Antes de mais nada, ela dá prazer a quem faz: nas batalhas da criação, por maiores que sejam os embates que o artista trava a cada obra, é impossível separar o lado lúdico, o jogo consigo mesmo, o desafio constante, que transformam cada ato criativo numa nova fecundação e num novo parto” (p. 79). Issac Pechansky, psicanalista, “o impacto estético causado pela obra de arte nos transporta por um caminho de sentimentos, fantasias e desejos que se aproxima muito das fontes que geraram a própria criação da obra. (…). Pode-se dizer que o artista instiga sensibilidade e desperta sentimentos, estabelecendo com aquele que o aprecia um misterioso conluio estético (…)” (p. 115).

Olinda Allessandrini, pianista intérprete, faz uma bonita reflexão: “Sendo a obra musical uma elaboração do compositor, ele é o seu criador. E, para garantir a sua própria imortalidade, ele necessita do elemento intermediário, um outro artista: o intérprete, que faz a conexão entre sua música e o ouvinte. (…) a obra musical precisa sempre renascer” (p. 23-5). Recriação. Lembrou-me do trabalho de uma tradução. Mesmo porque Raul Hartke alerta: “É lugar comum dizer-se que ninguém cria algo do nada. Não geramos filhos do nada, todas as nossas produções humanas, científicas e culturais, têm alguma história, uma genealogia, um contexto presente” (p. 33). Como a linguagem que é uma criação coletiva (Armindo Trevisan).

Jorge Furtado, cineasta, vai mais longe: contra a originalidade. “Einstein era um gênio que sabia que o mais valioso poder da mente é o de relacionar ideias e não propriamente de criá-las” (p. 47). Ideias que nascem no terreno pantanoso entre as certezas e dúvidas, do incompreensível. E do desejo de comunicar, da comunhão. Desconfie do óbvio. Ser irreverente.

A face oculta? Permanece. Mas é gostoso procurar respostas.

Léo

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