Seriamente cômico

“Antes não havia nem relações nem amizade entre o Diálogo e a Comédia. O primeiro limitava-se a ficar em casa, ou quando muito dava curtos passeios em companhia de alguns amigos íntimos; quanto à Comédia, entregara-se totalmente a Baco, e vivia nos teatros, rindo e fazendo rir…. (…). Nós, no entanto, ousamos aproximar esses dois gêneros totalmente díspares, e harmonizar coisas de tal forma discordantes que não pareciam capazes de nenhuma conciliação” Luciano de Samosata.

No romance de Umberto Eco, O Nome da Rosa, o monge Venâncio traduzia, em seus últimos dias de vida, um texto atribuído a Luciano de Samosata. E quem é este?

O livro O Calundu e a Panaceia: Machado de Assis, a sátira menipeia e a tradição luciânica (Editora Forence Universitária, RJ, 1989) é a tese de doutorado defendida em 1984 por Enylton de Sá Rego. Apresenta uma nova visão da obra de Machado de Assis. Enylton defende que Machado em sua maturidade literária (ou a chamada segunda fase), entrincheirado pelo romantismo, positivismo e o naturalismo, percebe suas limitações. Volta seu olhar para a tradição literária de há mais de vinte séculos chamada de “sátira menipeia” e se utiliza da poética da tradição luciânica. Assim, “Machado parodia as convenções literárias vigentes em seu momento, incorporando-as numa visão inovadora do romance e de suas relações com a história” (p. 4).

A tese é muito interessante, mas meu texto não trilhará este caminho. O convite permanece para quem quiser se aprofundar. O que me chamou para a escrita foram os autores de sátira, Menipo de Gadara, e Luciano de Samosata, tradição luciânica.

“A sátira menipeia deve seu nome a um personagem (…) imortalizado numa tela de Velásquez (…) e uma figura curiosamente misteriosa: ‘como o gato em Alice no País das Maravilhas, desapareceu deixando apenas um sorriso'” (p. 31). Diógenes Laércio é a fonte bibliográfica de Menipo, que no século III “anotou em algumas linhas informações de fontes secundárias sobre este pensador sírio que teria vivido quase cinco séculos antes” (p. 31). Nascido em Gadara, cidade síria de provável origem grega, foi escravo, e “teria vivido mais tarde como cidadão livre em Tebas. Todos seus escritos se perderam (…). Segundo a tradição, Menipo teria desenvolvido um tipo de sátira que desrespeitaria as tradições literárias vigentes”. Seu nome teria desaparecido se, dois escritores posteriores, não o tivessem evocado. Luciano é um deles.

A obra de Luciano de Samosata foi muito apreciada em seu século, esquecida na Idade Média, redescoberta no Renascimento, e perdeu o prestígio no século dezenove. “Sua importância histórica é no entanto grande: trata-se da maior e mais completa obra que liga a tradição grega da sátira menipeia às sua repercussões nos tempos modernos, do Elogio da Loucura de Erasmo aos romances dos satiristas ingleses do século dezoito ” (p. 43). Luciano era mestiço de origem humilde, de país periférico ao sistema imperial da época. Sua data de nascimento não se sabe com exatidão, em geral seus biógrafos a situam na primeira metade do segundo século da nossa era. Nasceu na Síria, na cidade de Samosata. Escrevendo em grego, abandonou a retórica e a oratória e iniciou uma “fase de produção literária caracterizada por sua inovação, produzindo em sua maturidade a maior parte dos diálogos que o tornariam tão famoso” (p. 45).

Sua obra compreende as mais variadas formas literárias. Vamos para suas principais características. 1- Criação – ou continuação – de um gênero literário inovador, unindo dois gêneros até então distintos: o diálogo filosófico e a comédia. 2- Utilização sistemática da paródia aos textos clássicos e contemporâneos, como renovação. 3- Extrema liberdade de imaginação, sem se ater às exigências da história ou da verossimilhança. 4- Estatuto ambíguo e caráter não-moralizante da maior parte de sua sátira, na qual nem o elemento sério nem o elemento cômico tem preponderância, mas apenas coexistem. 5- Aproveitamento sistemático do ponto de vista do observador distanciado, que, como um espectador desapaixonado, analisa o mundo, sua própria obra literária, e sua própria visão de mundo (pp 45-6).

É fascinante como este sírio brinca com tudo. Inova continuando a tradição literária: une o diálogo filosófico, considerado de nível elevado, e a comédia popular, tido como um gênero inferior. E ele mesmo escreve um texto em que é acusado pelos personagens Diálogo e Comédia à justiça. “E mais ainda, ele foi desenterrar um tal de Menipo, um cínico dos tempos idos, que só sabe latir com seus dentes afiados (…), um verdadeiro cão (…) (que) morde rindo” (p. 48). Junta a prosa e o verso, e… “já não sou prosa nem verso”. Luciano quase nunca diz o que pensa, “sua linguagem é a de relativizar constantemente suas próprias afirmações” (p. 49). Dizendo-se cansado das falsidades e exageros dos historiadores, Luciano em seu texto História Verdadeira, adverte o leitor que iria apresentar um relato “de fatos que não viu, de aventuras que com ele não se passaram e que não ouvira de ninguém, acrescentando-lhes coisas que não existem e não podem existir” (p. 54). Parodia os discursos retóricos dos sofistas com ditados, provérbios e frases populares, como “cair no fogo para evitar a fumaça” ou “ganha quem corre sozinho” (p. 56).

Segundo o autor da tese, “Luciano é – como Machado – um artista, e em sua arte é um pensador que critica acerba e ao mesmo tempo comicamente os exageros e as contradições dos sistemas filosóficos vigentes (…)” (p. 62).

Eu gostei muito de Luciano de Samosata. Seriamente cômico.

Léo

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