Quarto de Despejo

“quando eu não tinha nada que comer, em vez de xingar eu escrevia”

“Quando estou na cidade tenho a impressão que estou na sala de visita com seus lustres de cristais, seus tapetes de viludos, almofadas de sitim. E quando estou na favela tenho a impressão que sou um objeto fora de uso, digno de estar num quarto de despejo” (p. 37). Quarto de Despejo é o diário transformado em livro de Carolina Maria de Jesus, diário de uma favelada.

Escrito em 1955 e 58 por uma mulher, negra, mãe solteira, moradora da primeira grande favela de São Paulo, Favela do Canindé, desocupada em 1960 para construção da Marginal Tietê. Carolina, nascida em Minas Gerais, era catadora de papel, tinha somente o segundo ano do ensino fundamental, e três filhos.

Entre catar papel, ferro, alumínio e carregar na cabeça, lavar roupa, cuidar dos filhos, escreve o que vive em “uns vinte cadernos encardidos que Carolina guardava em seu barraco” (p. 6). Cadernos apresentados para o jornalista Audálio Dantas, que escreve em 1993 o prefácio reproduzido nesta edição (Editora Ática, São Paulo, 2014). “Repórter, fui encarregado de escrever uma matéria sobre uma favela que se expandia na beira do rio Tietê (…). Lá, no rebuliço favelado, encontrei a negra Carolina, que logo se colocou como alguém que tinha o que dizer. E tinha!”. Trechos do diário foram publicados em jornal, 1958, em revista, 1959, e transformado em livro, 1960. Em poucos meses foram vendidos mais de 100 mil exemplares, traduzido para 13 línguas, referencial para estudos culturais e sociais, inspiração para música, adaptação para o teatro, televisão no Brasil e Alemanha, filme, documentário.

E o que tem neste livro?

A preservação da sua maneira de escrever. Os editores alertam que foi respeitada fielmente a linguagem da autora, a grafia e a acentuação das palavras, mesmo contrariando a gramática oficial. Dá realismo ao texto. E prova que a língua é construída por todos.

Seu dia a dia. “Fui buscar agua. Fiz café. Avisei as crianças que não tinha pão. (…). Tudo quanto eu encontro no lixo eu cato para vender. (…). Cheguei em casa, aliás no meu barracão, nervosa e exausta. Pensei na vida atribulada que eu levo. Cato papel, lavo roupa para dois jovens, permaneço na rua o dia todo. E estou sempre em falta” (p. 12).

Histórias da favela. “A Silvia e o esposo já iniciam o espetaculo ao ar livre. Ele está lhe espancando. E eu estou revoltada com o que as crianças presenciam. Ouvem palavras de baixo calão” (p. 14). “Tem um adolescente por nome Julião que as vezes expanca o pai” (p. 38).

Denúncia. “Em junho de 1957 eu fiquei doente e percorri as sedes do Serviço Social. (…). Foi lá que eu vi as lágrimas deslisar dos olhos dos pobres. A única coisa que eles querem saber são os nomes e os endereços dos pobres” (p. 42).

Dor. “A Vera (…) pede: – Mamãe, vende eu para a Dona Julita, porque lá tem comida gostosa” (41-2).

Ser preta. “E assim no dia 13 de maio de 1958 eu lutava contra a escravatura atual – a fome!” (p. 32). “O preto é perseguido porque a sua pele é da cor da noite” (p. 121). “Esquecendo eles que eu adoro a minha pele negra, e o meu cabelo rustico” (p. 64).

Povo. “Mas o povo não deve cançar. Não deve chorar. Deve lutar para melhorar o Brasil para nossos filhos não sofrer o que estamos sofrendo” (p. 54). “O povo não sabe revoltar-se. Deviam ir no Palacio(…) e na Assembleia e dar uma surra nestes politicos alinhavados que não sabem administrar o país” (p. 129).

Reflexão. “Quando eu vou na cidade tenho a impressão que estou no paraizo. (…) Tão diferente da favela. (…). Aquelas paisagens há de encantar os olhos dos visitantes de São Paulo, que ignoram que a cidade mais afamada da America do Sul está enferma. Com as suas ulceras. As favelas” (p. 85).

Paixão. “Quando ele passa uns dias sem vir aqui, eu fico lhe chingando. Falo: quando ele chegar eu quero expancar-lhe e lhe jogar agua. Quando ele chega eu fico sem ação. Ele disse-me que quer casar-me comigo. Olho e penso: este homem não serve para mim. Parece um ator que vai entrar em cena. (…). Mas quando eu estou deitada com ele, acho que ele me serve” (p. 136).

Poesia. “O céu é belo, digno de contemplar porque as nuvens vagueiam e formam paisagens deslumbrantes. (…). As aves percorrem o espaço demonstrando contentamento. A noite surge as estrelas cintilantes para adornar o céu azul. Há várias coisas belas no mundo que não é possível descrever-se” (p. 43). “A noite está tepida. O céu já está salpicado de estrelas. Eu que sou exotica gostaria de recortar um pedaço do céu para fazer um vestido” (p. 32).

Gyorgy Lukács diz que um escritor de nível elevado é aquele que tem um amor inquebrantável pelo povo, nota tudo e ama a vida. Não vê só a decadência, nem só o deslumbre. Vê o todo: “Apenas o amor à vida é capaz de conferir à veracidade corajosa do artista amplitude, largueza e profundidade em tudo o que ausculta e reproduz”. A arte não alheia à vida; a arte e vida pulsando juntas (Marx e Engels Como Historiadores da Literatura, p. 180).

Carolina Maria de Jesus é esta artista. Que sonha: “Eu durmi. E tive um sonho maravilhoso. Sonhei que eu era um anjo. Meu vistido era amplo. Mangas longas cor de rosa. Eu ia da terra para o céu. E pegava as estrelas na mão para contemplá-las. Conversar com as estrelas. Elas organisaram um espetaculo para homenagear-me. Dançavam ao meu redor e formavam um risco luminoso” (p. 120).

Carolina Maria de Jesus, você não é um “objeto fora de uso digno de estar num quarto de despejo”. O mundo é que está doente. Você é artista, é estrela, é luz.

Léo

11 comentários em “Quarto de Despejo

  1. 100 mil exemplares, um bofetada na tão “nobre” casta erudita da época. Ela mostrou o que o Brasil verdadeiramente é, feito de um povo que luta diariamente e briga para não ser invisível.

    Muito bom bela analise.

    Curtido por 1 pessoa

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