Aracaju

Depois de tanto tempo confinadas pela pandemia, e depois de vacinadas, eu e minha filha nos abraçamos num calor de 30 graus: Aracaju, capital de Sergipe. Não há como descrever este momento. Somos sobreviventes e só por isso, vitoriosas.

Em sua casa, ela faz uma fritada de mandioca – que aqui é chamada de macaxeira – e oferece sua cerveja bem gelada – ela também é cervejeira. E vamos pondo a saudade em dia.

Sua casa tem vizinhança com grandes mangueiras repletas de frutos e pássaros. As vozes de mães ralhando com os filhos manhosos e chorões, músicas em alto volume e de gosto duvidoso, um pastor berrando na rádio sobre um tal salmo 91… Tem noites em que se ouve os tambores de um terreiro nas proximidades, tem domingo com desfile, procissão, de um tal santo que me esqueci o nome… Outras músicas ecoando numa sofrência que dá dó… “a vida como ela é”. Digo para ela que onde moro só ouço carros, motos, escapamentos, e – para minha salvação – pássaros. Pouco ouço vozes humanas. Bem diferente do seu bairro.

Minha filha tem um gato que a adotou. Isso mesmo. Ele apareceu do nada na antiga casa e por mais que o espantasse, ele não ia embora. Ela já se mudou duas vezes, ele sempre com ela. Companheiros. Ele parece que não mia e sim fala. Um miado com jeito de fala.

Conheço uma mulher que adora carne de bode, que eu até então nunca tinha provado. Carne muito apreciada no sertão, onde viveu sua infância. Conta de sua mãe que mora por perto, que tem um roçado, que pariu 10 filhos e sete sobreviveram. Ela é das mais novas. E que até hoje se ajudam em seus caminhos diversos. Família unida. Ela, que tem uma rotina dura: faz estágio de manhã, trabalha como coordenadora de escola estadual de tarde, estuda direito de noite. E ainda acha tempo para ser bem-humorada.

Conheço outra, advogada de um sindicato de luta, de uma categoria duramente atacada. Conta suas peripécias para defendê-la. E outro, que conta muitas histórias engraçadas, que mora em Itapuã. Isso tudo num bar de cervejaria artesanal.

Conheço Barra dos Coqueiros, cidade da outra margem do rio Sergipe, que corta o centro de Aracaju. Cidade do encontro entre mar e rio, recheada de coqueiros. Num bar, assistindo o por do sol, ouço com atenção uma diretora de escola se debatendo com a tal reforma do ensino médio provocada por um governo federal avesso a educação. Reforma que quer transformar a escola ainda mais massificante produzindo mão-de-obra barata para o mercado. Seu companheiro me conta que votou no Bolsonaro. Interessou-me o motivo: era eleitor do PT, mas cansado, queria o novo… que, rapidamente, percebeu que tinha caído numa armadilha. Também toca cavaquinho e me convida para o samba no próximo final de semana, respondo que “não posso ficar…”, já terei voltado para a casa.

Dia seguinte, almoçamos no povoado de São José num restaurante que lembra casa. Comida boa, galinhas e galos e caranguejos no quintal. E um vizinho lavando seu cavalo. Depois, banho num rio largo e bonito, com muitas árvores. Que um garoto entra com seu cavalo, me lembrando Guimarães Rosa.

Numa noite num bar da orla, conhecemos uma turista de Goiânia. Não gosta de lá, muito abafado. Gostou de Aracaju, muita brisa. Seu dilema é que sua filha, que mora com ela, se mudará para Portugal para estudar. Ela, a mãe, nunca morou sozinha. Nós a incentivamos a se mudar para uma cidade que goste e enfrente a aventura de morar só. Ela estava comendo carne de bode e me oferece para provar. Como. Acho uma carne de gosto forte. Mas forte mesmo é ela nos dizer que acha Ronaldo Caiado, governador de Goiás, bonito. Um ruralista, sempre contra o povo, argumento. Ela nem aí.

O mar de Aracaju é de tom marrom. Água se confundindo com a areia. O mar se encontrando com o rio. Há pequenas dunas para se chegar na praia, quase sem árvores, quase sem sombra, num sol escaldante. Praia de corredor imenso de areia, coalhada de conchinhas do mar. Avisto um navio na linha do horizonte e plataformas de petróleo.

Aracaju, encontro das palavras arara e caju. Arara não vi. Caju, saboreei. Delicioso.

Aracaju, meu reencontro com minha filha. Sentimos falta do meu filho. Seria muito bom nós três juntos. Fica para o futuro.

Por enquanto, eu e ela, entre tantas histórias…

Léo

5 comentários em “Aracaju

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