Muitos anos atrás passei o dia inteiro com minha vó no hospital. Eu não sabia que seria seu último dia na Terra. Ela passou em delírios confundindo o passado com o presente, se imaginando em casa e não em um leito hospitalar.

Eu brigando com as enfermeiras, pois acreditava que não estavam fazendo algo por ela. Eu não aceitava o fim, a sua morte, o seu delírio de morte. Queria desesperadamente uma saída.

Fiquei com ela até o final da tarde. Quando chegou uma prima de outra cidade, cedi meu lugar. E minha vó morreu. Percebi que eu não a deixava ir.

Minha vó, tão bonita e forte. Contava o passado com uma força dos detalhes que até hoje me assombra. Eu já não tenho essa memória. Perdi suas histórias. Fico mais com lembranças e sombras e restos. Lembro-me que ela se casou e teve seis filhos, o mais novo meu pai. Esse avô morreu deixando dívidas e filhos pequenos, e minha avó sustentando a família na lavoura. Fez questão de pagar centavo por centavo das dívidas.

Com os filhos criados, ela se encantou por outro homem, e os contrariando, se casou com ele, que também tinha seus filhos. Este é o que conheci e, junto com minha avó, foi meu padrinho de batismo. Ele vendia verduras e frutas em uma carroça percorrendo as ruas. Eu e meus irmãos, muitas vezes, íamos com ele. Era bem divertido. Ele, como menino brincalhão. Depois morreu. Creio que foi a primeira pessoa que eu conhecia que morreu. Meu padrinho me apresentou a morte.

Minha vó foi morar no fundo do quintal de casa com meu tio. Os filhos construíram uma casa para eles.

Lembro-me dela me benzendo com ramos de arruda, me contando suas histórias. E no sol, secando seus cabelos ralos e brancos e longos, sentada numa cadeira no quintal. Depois virou crente e não benzia mais. Mas, sempre linda, mesmo mau-humorada. Como dizia um professor meu: estou velho e tenho todo direito de ser mau-humorado.

Fico pensando que aquela postura que tive no hospital com minha vó em seu último dia, é uma marca minha. Não aceito. Sempre quero mais da vida. Alternativas. Pois guardo em mim o que é possível e não é efetivado. Tenho sede de outra vida, de outra possibilidade. E se acha que a idade me apaziguou, sinto muito. Continuo no caminho contrário: a sede, a fome, a fúria, me povoam desde meu nascimento. Não suporto o medíocre, a terceira via com cheiro de primeira e gosto da segunda. Quero outra saída. Outro modo. E, por vezes, exagero. Como querer que minha avó, com mais de noventa anos, ainda estivesse viva. Por vezes, ainda me sinto naquele quarto de hospital me debatendo com a morte. E, destas vezes, sou eu que deliro.

Mas creio que a poesia reside neste lugar onde tudo é possível.

Ai, minha vó!

“E me vejo somente/ pequena sombra/ sem tempo e nome,/ nisto perdida,/- nisto que se buscara/ pelas estrelas,/ com febre e lágrimas,/ e que era a vida” Cecília Meireles, Realização da vida, trecho.

Léo

10 comentários em “

  1. Realização da vida, Cecília Meirelles, falando da morte, e, da vida que vem depois da morte, será? Talvez, não sei, mas, que Cecília, você e eu, e, quase todos buscamos e, mesmo sem perceber, queremos acreditar, ah, como queremos!

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