Mudar de ideia

Quando conheci Curitiba em 2008 me apaixonei pelo Passeio Público, no centro da cidade. Quando me mudei para cá em 2010, consegui alugar um apartamento que, da varanda, o tenho como companheiro. E uma gigante araucária, símbolo do Estado.

O Passeio é onde as pessoas caminham, correm, passeiam. Tem um lago com peixes e tartarugas. Recentemente abrigo também de quatro patos – que sempre que os avisto sinto uma alegria sem explicação. Pássaros em gaiolas grandes, que segundo placa, são animais que não conseguem mais sobreviverem na natureza, fruto de acidentes ou maus-tratos. Pavão, flamingos com suas cores maravilhosas, gavião, urubu rei, alguns macacos. Refúgio para os bichos e pra nós, humanos.

Já vi borboletas de cores variadas. Um esquilo, que avistei na araucária e depois no chão quando fui caminhar; todos pararam para observar aquele ser perdido por ali. Uma lagarta no caminho, justamente quando eu estava escrevendo sobre o livro de contos de Antonio Carlos Viana, Jeito de matar lagartas; não a matei, claro; só fiquei contente com a sincronia. E, dia desses, fiz alongamento em minha sala, observando um bonito pica-pau na araucária com sua plumagem vermelha. E tem as garças. As graciosas e elegantes garças. Que chegam de mansinho em meados de julho e estão todas aqui em agosto. Em meados de março elas se vão. Para onde? Não sei. De onde vêm? Não sei. E tem revoada de pombas e pássaros no final do dia. Balé aéreo. Tão bonito.

Porém desde o ano passado, acho, começaram uma reforma no Passeio Público. Derrubaram um quiosque enorme, todo de madeira, que tantas vezes bebi cerveja, comi feijoada e tilápia na chapa. Tudo ao chão. Construíram canteiros e mais canteiros de flores, todas “certinhas” demais. Barquinhos com flores no lago. Irritante. Um coreto digital enorme, com cadeiras de ferro. Irritante.

Comecei a pensar como um espaço público é modificado, sem ter nenhuma participação do povo, por um gabinete qualquer. E assim é com a cidade toda. Não dispomos de nenhuma ferramenta onde dizemos que cidade queremos. E não vale as tais audiências públicas que muitas cidades se utilizam, pois não podemos ser chamados só para opinar sobre os detalhes. Teria que ser o todo, incluindo os salários de governantes e juízes, por exemplo. Construir uma cidade. Porque, desconfio, que por trás do “embelezamento” do Passeio Público, há uma linha diretriz de afastamento de pedintes, andarilhos, prostitutas, que também frequentavam o lugar. Claro que o poder público não resolveu a questão – que, em última análise, é fruto da crise, fome e miséria crescente. Resolve escondendo, afastando, “embelezando”. E eu, praguejando.

Numa certa altura, um espaço gramado com árvores, bastante frequentado por andarilhos, começou a ser cercado. Sem nenhuma explicação. E eu, praguejando. As grades pintadas, algumas árvores plantadas, uns banquinhos de madeira…. e eu, praguejando. Nenhuma explicação.

Numa manhã, acordo com latidos de cachorro. Abro a janela. Vejo no espaço cercado, um alegre cachorro brincando, correndo… tão alegre quanto seu dono. E assim, todas as manhãs. O espaço cercado é “espaço para os bichos”. Por aqui tem muitos prédios de apartamentos. E tem muitos cachorros “prisioneiros”, que são levados por seus donos para um passeio, presos por coleiras. No tal espaço, eles correm à vontade, brincam, rolam, latem. É até um espaço de socialização para os humanos, pois vejo os donos conversarem entre si, sentam nos bancos, no chão… É um espaço harmonioso.

Mudei de ideia sobre aquele espaço. Apesar da não participação do povo, das não explicações. O espaço foi uma boa ideia. E gostei de minha capacidade de olhar, perceber, refletir, e …. mudar de ideia. E, olha, que nem tenho cachorro.

Léo

6 comentários em “Mudar de ideia

  1. Adorei 👏🏻 sua reflexão Léo. As mudanças muitas vezes nos inquietam e nos incomoda. Quando não somos consultados pior ainda. Faz parte rsrsrs.
    Fico feliz que tenha sido boa, nem sempre é assim. Um lugar ao sol com liberdade, beleza e possibilidade de interação com espaços sendo usados a contento é maravilhoso. Abraços

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  2. Oi Léo, gostei do seu olhar sobre o Passeio Público. Não sabia que ele era tão rico em vida. Aí em Curitiba ele é um patinho feio. Muito se fala do Jardim Botânico , Parque Barigui e São Lourenço e pouco dele. Quando voltar aí , vou conferir e depois dar uma passadinha na confeitaria Gênova e comer um folheado de creme pra matar a saudade. Hum hum delicia.

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  3. Muito importante isso q vc levsntou. Onde eu moro vai acontecendo uma enorme mudança no coração da cidade. O projeto foi apresentado por diversas vias e foi pedido a participação da população sobre o que achou do projeto e sugestões. Foi mesmo enviado um formulário.
    Vi tb isso na época do governo de Miguel Arraes, mas acabava por só alguns mais políticos participarem.

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