Brincar

"O mar é só mar, desprovido de apegos, (...) / Não precisa do destino fixo da terra, / ele que, ao mesmo tempo, / é o dançarino e sua dança".
Cecília Meireles, Mar absoluto. 

Vi um documentário nacional, Tarja Branca (direção Cacau Rhoden), sobre o brincar. A criança está plena na brincadeira, se joga inteira em descobertas, na precisão de se elaborar um brinquedo. Faz uma pipa, depois a empina. E o sorriso largo ao vê-la flutuando no céu.

Perdemos essa lógica: tudo tem que ser “útil”, pragmático (serve para quê?). Não se brinca, não se perde tempo, não se joga num momento sem pensar em mais nada. Não se sente pleno.

O cientista no laboratório não deixa de ser uma criança. Experimenta, testa, levanta hipóteses. Deixa a imaginação ecoar: e se…?

A questão é que na lógica do capital tudo se transforma em mercadoria, produto. Tudo é para a venda. E o “jogo” científico só é jogado se tiver uma utilidade vendável. Perverso.

A pandemia do coronavírus atingiu a humanidade toda. É como uma nuvem que vai se espalhando pelo planeta e abraçando a todos. Diante de algo mundial deveria ter uma resposta também mundial: cabeças pensantes elaborarem a melhor vacina, fabricação em massa, distribuição em massa. Porém o que impera é a lógica do capital: disputa de laboratórios. O mundo continua dividido em dois: nações ricas vacinando a todo vapor e as pobres vacinando como é possível, com os restos da mesa.

A pobreza se alastra tão assustadoramente quanto as variantes do vírus. Pobreza num sentido amplo. Perda de postos de trabalho, famílias inteiras atirada às ruas, educação mais sucateada, fome.

A falência do capital explícita. Porém sempre transvestida.

Então como brincar sem ter o que comer?

É preciso manter o espírito alerta às barbaridades do presente; perceber e refletir. Brincar ao imaginar outra lógica, outro mundo.

Um mundo como os corais. São animais, mas parecem pedras, plantas. Adquirem cores e formas variadas e bonitas. São abrigo e alimento para os peixes e outros animais. São proteção para os humanos.

A ciência é um método para se pesquisar a realidade. Deve-se pensar na humanidade, na natureza, no planeta, no universo. No todo, no inteiro.

Brincar! Como o mar, que é , ao mesmo tempo, dançarino e sua dança.

Léo

2 comentários em “Brincar

  1. Olá Léo, me incomoda também este momento histórico onde tudo é monetizado, mesmo nas catástrofes. Enquanto uns choram outros vendem lenços, infelizmente é a realidade. Mas acredito numa minoria silenciosa que ainda resiste como sementes que ficam por anos em estado de vigília.

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