Amor de Perdição

“Muito engenhoso é o amor” Camilo Castelo Branco.

Portugal, início do século XIX. Dois jovens de quinze anos se apaixonam perdidamente. Vizinhos. Famílias rivais. Rivalidade frívola, é certo, porém o suficiente para decretar o amor de Simão Botelho e Teresa Albuquerque, impossível. Lembra Romeu e Julieta. Amor de Perdição, Camilo Castelo Branco (Ediouro – Biblioteca Folha, São Paulo, 1997).

Amor que transforma Simão, filho do corregedor de Viseu. Era valente, punha trinta aguadeiros em derrota. “Mirabeau, Danton, Robespierre, Desmoulins, e muitos outros algozes e mártires do grande açougue, eram nomes de soada musical aos ouvidos de Simão” (p. 27). Em três meses mudou seus costumes. “As companhias da ralé desprezou-as. (…). O campo, as árvores e os sítios mais sombrios e ermos eram o seu recreio” (p. 28). Simão amava. Sua vizinha, rica herdeira. “Da janela do seu quarto é que ele a vira pela primeira vez, para amá-la sempre”. Fez-se homem aos dezesseis anos.

Teresa amou-o também. “Viram-se e falaram-se três meses, sem darem rebate à vizinhança e nem sequer suspeitas às duas famílias” (p. 29). Planejaram um futuro sonhador. Seu pai deu cabo aos devaneios. Quer que se case com seu primo, Baltazar. Ao se negar, encerra-lhe num convento. Teresa se faz mulher em sua decisão férrea: “Esquecê-lo nem por morte” (p. 98).

“Não há baliza racional para as belas, nem para as horrorosas ilusões, quando o amor as inventa”, comenta o narrador. Esse amor impossível, acima da vida, alimentará esse grande romance. Terá peripécias mil, mortes, degredos, emboscadas, sentenças. Um amor que se alimentará de cartas e mais cartas; juras; suplícios; com as certezas que só a juventude tem. Um primeiro amor com as febres do eterno.

Há outro amor de perdição: Mariana, que ama Simão. Um amor sem perspectivas, sem palavras de amor, sem juramentos. Simão a chama de amiga, de irmã. A dedicação de Mariana é extrema, servil. “Mariana o amava até o extremo de morrer (…) sem ter ouvido a palavra amor dos lábios que escassamente balbuciavam frias palavras de gratidão” (p. 112-113).

Mas não é somente o enredo que encanta. Como Camilo Castelo Branco escreve bem. Não pense que somente lágrimas serão arrancadas. O riso também brota com um narrador irônico e perspicaz. Quando, por exemplo, descreve o pai de Simão: “Domingos Botelho era extremamente feio. (…) faltavam-lhe bens de fortuna (…). Os dotes de espírito não o recomendavam também (…)” (p. 19). Um dos capítulos que mais gostei é do primeiro convento em que Teresa teve como prisão. Uma freira falando mal da outra, pelas costas, claro: impostora, estúpida, trapalhona. “Enquanto foi nova, era a freira que mais escândalos dava na casa; depois de velha era a mais ridícula porque ainda queria amar e ser amada; agora, que está decrépita, anda sempre este mostrengo (…)” (p. 67). A situação é tão insólita que Teresa exclama: “Um convento, meu Deus! Isto é um convento?” (p. 69).

O narrador dialoga com o leitor. É mestre no suspense. Conversa sobre o próprio gênero romance: “A verdade é algumas vezes o escolho de um romance. Na vida real, recebemo-la como ela sai dos encontrados casos, ou da lógica implacável das coisas; mas, na novela, custa-nos a sofrer que o autor, se inventa, não invente melhor; e, se copia, não minta por amor da arte” (p. 150). E escreve trechos muito bonitos: “Emaçou depois as cartas, e cintou-as com fitas de seda desenlaçadas de raminhos de flores murchas, que Simão, dois anos antes, lhe atirara da sua janela ao quarto dela. As pétalas das flores soltas quase se desfizeram, e Teresa, contemplou-as, disse: ‘Como a minha vida…'” (p. 157).

Antônio Houaiss, no estudo introdutório desta edição, lembra que, enquanto Eça de Queirós “já não tinha ilusões quanto á formação histórico-social em que vivia e a que pertencia, ela mesma geradora das mazelas que ele revelava por debaixo e por dentro das aparências supostamente civilizadas”, Camilo Castelo Branco não só ainda tinha ilusões, mas tinha mais: tinha esperança de que, redimindo seus heróis-vítimas pelas provas novelescamente aduzidas, se redimiria ele também, já que, na prova da bondade dos outros por ele revelada, havia a prova de sua bondade. Camilo era assim um crente (…) na redenção social e individual (…)” (p. 7). E o compara ao Balzac, pois oferece um painel quase completo de Portugal na segunda metade do século XIX. Menos isento, “pois acima de tudo foi um moralista ou moralizante” (p. 15).

Houaiss chama atenção para a questão da língua. Camilo não foi um “obediente” usuário da língua, mesmo sendo um dos mais ricos e adequados vocabulários. Usava da intuição, do coloquialismo. “A riqueza da linguagem camiliana tem, porém, uma tal vitalidade, no geral, e é tão comunicante, que Camilo pode ser lido ou ouvido por leitores ou ouvintes portugueses semiliteratos com quase completa intelecção” (p. 13). E Antônio Houaiss conta sua própria experiência: seu primeiro emprego remunerado foi o de ler, “para suados e cansados assalariados portugueses do então fazia pouco inaugurado Copacabana Palace Hotel (…), durante um par de horas a cada dia, à noitinha, romances e romances de Camilo Castelo Branco”.

Se o amor é engenhoso, Camilo é um arquiteto.

Léo

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