Colônia

“Todas as coisas já foram ditas, mas como ninguém escuta é preciso sempre dizer de novo” André Gide.

Colônia é uma série ficcional, 2021, Canal Brasil, dirigida por André Ristum. Vem do livro de Daniela Arbex, Holocausto Brasileiro: Genocídio: 60 mil mortos no maior hospício do Brasil. E, também, do documentário da HBO, Holocausto Brasileiro.

Eu só assisti a série. Começa alertando que as personagens são fictícias, mas os fatos aconteceram realmente. E lembra do artigo 5° da Declaração dos Direitos Humanos: ninguém será submetido à tortura, nem a tratamento ou castigo cruel, desumano e degradante.

Artigo completamente ignorado em Barbacena, Minas Gerais, no ano de 1971, ditadura militar no Brasil. Pelo menos no hospício chamado de Hospital Colônia de Barbacena.

O início é numa estação de trem. Preto e branco. Bonita fotografia. Uma moça é segurada pelo capataz da fazenda de seu pai. Ela implora para ser solta. O trem para, um homem de branco salta, pergunta se é para Colônia. Abre o cadeado de um vagão todo fechado, joga a mulher e sua mala. O som da porta se fechando. Escuro.

Assim conhecemos Colônia. Todos os indesejados são jogados e esquecidos por lá: garotas solteiras grávidas, amante de prefeito que ameaça contar o caso para a esposa, homossexuais, presos políticos, pessoas com transtornos mentais. E a lista dos que não se enquadravam era enorme. Mais de 60 mil mortos. O hospital durou quase um século.

Também frequentado por ratos, baratas, piolhos. Banho por esguicho de água fria uma vez por mês. Comida de péssima qualidade. Tratamento terapêutico, nenhum. Nenhuma atividade, com exceção de uma horta cultivada por alguns eleitos. Guardas cruéis que tratam os internos como lixo humano; por falta de consciência e, em nome da sobrevivência pessoal, cúmplices do holocausto diário. A secretária é a imagem da burocracia, onde a documentação é inacessível; capacho do diretor. O médico, covarde, é o instrumento da tortura; com um resto de consciência mas sem força, se droga. O diretor trata o lugar como uma empresa, ganhando o seu “por fora”, trocando de carro, usando os funcionários para serviço próprio, bebendo seus vinhos caros enquanto corpos se acumulam no porão.

O porão é o terror do lugar. Tratamento de eletrochoque para os mais revoltados. Em nome da ciência, claro. Como dizem os personagens: só se sai deste lugar, morto.

Depois de assistir a série, sonhei com uma revolta na Colônia. Afinal, olhando de fora, os internos eram a maioria. Bastava se unir, render os guardas, tomar as armas e depor o diretorzinho nojento. Ou submetê-lo a sua própria prescrição: eletrochoque. Pensei: Colônia é um microcosmo da realidade aqui “de fora”.

A cena final da série – que não conto – dá um certo alívio pela via da vingança. Mas não a justiça. Tão distante naqueles dias. Tão distante dos dias de hoje.

Pensei também: que bom que alguém se debruçou em pesquisas, escreveu um livro; outras realizaram um documentário, uma série ficcional. Assim lembramos de mais uma página da história vergonhosa deste país. Deste Estado violento que tem a prática diária e constante de holocausto, extermínio, de índios, negros, pobres. Dos indesejados. Dos que não se enquadram na engrenagem.

Foi assim que voltei a escrever.

Léo

6 comentários em “Colônia

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