Neiva

A primeira identificação que fizeram é que era menina. Quando nasceu, recebeu um quarto notadamente rosa, roupas rosa e brincos na orelha. Mas Neiva foi crescendo e gostando de todas as cores, de todas as brincadeiras e não escolhia amigos entre meninas e meninos.

Nos primeiros anos escolares, Valéria e Irineu, foram se tornando seus amigos – e logo, inseparáveis. Faziam tudo juntos, brincavam, estudavam, conversavam. Os professores até desistiram de trabalho em dupla, pois eles sempre faziam em trio. Quando os pais de Valéria lhes deram sua primeira bicicleta, os três aprenderam. E assim que todos tiveram as suas, faziam longos passeios pelo bairro. Iam até uma pedra grande que chamavam de mirante. De lá, avistavam boa parte da cidade. De lá, tudo parecia calmo e equilibrado. E trocavam confissões. E conversavam sobre assuntos diversos. E riam. Muito.

Neiva foi a primeira a menstruar. Os três participaram, pesquisaram. Quando foi a vez de Valéria, tiraram de letra. Valéria gostava dos esportes. Todos. Neiva e Irineu eram parte de sua torcida. Irineu gostava de ler, lia e contava para elas. Neiva gostava de desenhar bichos, plantas, caricaturas; porém logo foi se especializando em desenhar roupas, para meninos e meninas. Foi conhecer os tecidos. Gostava da textura.

Adolescentes, com os hormônios em turbilhão, numa festa de alguém da sala, dançaram e beberam. E se iniciaram juntos, conhecendo o corpo do outro, da outra. Assim souberam que seus destinos estavam traçados: trio.

Escolheram a mesma universidade e se mudaram de cidade morando juntos. Irineu, letras. Valéria, educação física. Neiva, moda. E frequentaram as mesmas festas, se embeberam, experimentaram drogas, turmas, corpos. Sempre juntos. Tão juntos que as famílias nem procuraram entender. Só aceitaram aquele estranho amor. No final de ano, as três famílias se reuniam e tudo era festa.

Hoje Irineu dá aula de literatura, promove rodas de leitura, sarau de poesia. Uma vez por mês saem pelas ruas do bairro recitando versos. O povo gostou tanto que tirou seus poemas das gavetas e aproveita o cordão: esbraveja seus guardados em céu aberto.

Valéria professora de educação física. Formou times de meninos e meninas. Só que ela entra no campo pra jogar junto. E xinga. E rouba. Assim todos aprenderam a chorar nas derrotas e a rir nas vitórias. Ela também ensina natação na piscina pública.

Neiva montou seu ateliê no bairro onde moram: a moda a serviço dos corpos, e não ao contrário. Desta forma, transforma pessoas comuns em modelos por uma noite em passarela improvisada.

Neiva. Valéria. Irineu. Companheiros de caminho. Nada mais.

Léo

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