Valquíria

O homem de cabelos longos amarrados, de barbas longas, deu sua tarefa por terminada. Amanhecia. Conferiu tudo no farol e trancou a porta. Caminhou pela praia na direção de sua morada. Viu um corpo. Aproximou-se. Uma mulher de cabelos até os ombros, roupas rasgadas. O homem de cabelos longos percebeu que ela ainda respirava. Limpou a areia dos seus cabelos, do rosto. Estava desfalecida. Carregou-a no colo até sua casa. Chegou ofegante e a depositou numa cama sobressalente. Tirou suas roupas molhadas, a limpou com uma toalha, e como ela estava febril, a velou boa parte da manhã com compressas geladas. Ela delirava e falava confusões.

No final da tarde pediu para a vizinha cuidar dela. Ele iria executar seu trabalho: iluminar os navegantes.

De manhã, quando voltou, ela adormecia tranquila. Quando acordou se percebeu sem memória, ao ser indagada pelo homem de cabelos longos. Respondeu como Hilda Hilst, a poeta: “nem de mim mesma sei”. Porém se sentia confortável naquela casa. O homem do farol era de poucas palavras, acostumado ao silêncio de sua vida solitária. Ela percorreu a ilha, conheceu seus contornos, bosque, fazia longas caminhadas. Aos poucos foi dando conta dos moradores, acompanhava a chegada dos pescadores. Todos a acolheram sem ciência de sua vida pregressa: a aceitaram com um presente do mar.

Ela foi armando seus dias e nem se importava mais em não carregar lembranças. Numa tarde ao ver o homem saído do banho com seus longos cabelos soltos, pediu que se sentasse numa cadeira. Penteou longamente sua cabeleira. Procurou tesoura. E assim como Jason Bourne viu que sabia lutar, ela viu que sabia cortar. Aparou a barba longa, cortou alguns dedos dos longos cabelos do homem do farol. Gostou. Foi um encontro consigo mesma. Na manhã seguinte cortou seus próprios cabelos. A vizinha presenciando o ato, também quis. Ela pôs uma cadeira debaixo da árvore frondosa e esculpiu os cabelos da vizinha, dos seus filhos, do seu marido. Aos poucos atendia todo o povoado.

Eles se sentiam bonitos. E como ela não tinha nome, lhes deram um: Valquíria. Por que? Sei não.

Léo

2 comentários em “Valquíria

    1. É um conto. Inteiro. Gosto dessa ideia de uma mulher renascida, que tem do passado somente seu ofício: cortar cabelos. Transformar as pessoas. Creio que o espírito do conto seja esse: transformação.

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