Gabo, que enganou a morte.

Tinha eu vinte e poucos anos quando conheci Cem Anos de Solidão, Gabriel García Márquez: “Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo” (Editora Record, p. 7). Não li. Mergulhei. Esta brincadeira com o tempo. Esta transformação do gelo em algo mágico… Na época morava em São Paulo, perto do Horto Florestal. Meu namorado passava em casa e a gente caminhava por lá. Eu ia contando o livro, para ele, para as árvores, para o lugar. Alguns anos depois, ele foi o pai dos meus filhos. Muito anos depois, foi meu ex-companheiro. O livro ficou. E o encantamento permaneceu.

Gabo: a criação de G. G. Márquez, é um documentário espanhol, 2015, do diretor Justin Webster, Netflix. Assim fico sabendo que Macondo de Cem Anos, é Aracataca, cidade da Colômbia, onde nasceu Gabriel. Morou ali até seus nove anos de idade com seus avós. Seu avô era sério, culto, “o ser mais concreto que eu já conheci”, diz Gabo. A avó, supersticiosa, vivia num mundo sobrenatural, fantástico, onde tudo era possível. “Então eu vivia repartido entre esses dois mundos”. Macondo soa mítica, porém deixa de ser uma transposição de Aracataca e esses mundos de seus avós, e se transforma em “metáfora da América Latina inteira”, diz alguém no documentário. É o que ficou cunhado de realismo mágico: lendas e superstições fazem parte do mundo real. E o normal narrado como se fosse sobrenatural.

Este, que ganhou o Nobel, teve seu primeiro romance Revoada recusado por uma editora argentina. O editor não só o rejeita como o aconselha a fazer outra coisa da vida: “O senhor não leva jeito para a literatura”. Gabriel tinha então 22, 23 anos de idade.

Quando ele, em Paris, conhece a neve e brinca como um garoto, era correspondente de um jornal colombiano, no ano de 1957. O jornal fechou. García Márquez fica sem dinheiro e morando num sótão de uma pensão. E escrevendo Ninguém Escreve ao Coronel. História de seu avô, Coronel Márquez, que passou a vida esperando sua pensão de veterano da guerra civil. Pensão que nunca chegou. Gabriel diz numa entrevista que, se escreveu uma obra-prima, foi esta.

Relato de um Náufrago foi fato que saiu em todos os jornais. Em todos. No ano de 1955. García Márquez começou a escrever a notícia, um mês depois, como se fosse um romance. “O jornal começou a vender como água”, diz alguém. Ele tinha aprendido como contar a realidade contada mil vezes e transformar em algo novo.

Quando Gabo tem 12 anos conhece Mercedes Bacha de 9 anos. Apaixona-se. “Ele dava voltas no quarteirão da farmácia em que Mercedes trabalhava sem coragem de falar com ela. Ela não fazia caso”, relata alguém. Gabriel, numa entrevista: “Mercedes está espalhada pelos meus livros”. Muitos anos depois se casam.

Numa entrevista que o documentário mostra, Gabriel se revolta com a ideia da morte. “A morte é injusta, pois não nos dá opção”. A entrevistadora pergunta: O que fazer? Ele responde: Escrever muito.

Gabriel García Márquez. Gabo. O homem que venceu a morte.

P.S. Tenho um post meu sobre outro livro dele: A Incrível História de Miguel Littín!

Léo

14 comentários em “Gabo, que enganou a morte.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s