Hermano

O corpo está estendido no chão da cozinha. O assassinato, enfim, aconteceu. Hermano se verifica: sem sentimento de culpa, sem remorsos. Só resta uma raiva pelo corpo ainda resistir, os braços gesticulando como tentáculos querendo se agarrar em algo. Morte prevista pelos astros, pelas cartomantes. E o corpo ainda teimando. Ninguém sentiria a falta daquela vida sem graça, banal. Quem se perguntaria por alguém tão pálido, opaco, que se perde em qualquer multidão? Sim, o crime foi perfeito.

Hermano senta-se de frente da porta da cozinha. Vê pequenos pássaros buscando comida no chão. A grama salpicada pela chuva fina que caia. O cheiro de terra molhada subindo pelos ares.

Ele se olha no espelho: nenhum arroubo de arrependimento. Os últimos anos tinham sido gastos na elaboração do crime. Hermano sabia que teria de fazer.

Na cozinha, o assassinato se consumava. Seu velho eu estava morto. Seu velho eu não existia mais.

Léo

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