Mariá

João Alberto é editor de um jornal fuleiro, daqueles que se espremer sai sangue. Manchetes enormes abusando dos superlativos. Foi a forma que o jornal encontrou para sobreviver, assim como João Alberto. Com os leitores rareando, funcionários foram demitidos. João Alberto, e alguns poucos, acabam fazendo todo o serviço.

Ele e Mariá Fernandes. É assim que assina as notícias da coluna social: festas de madames ricas veiculando caridade, e os endinheirados em coquetéis de luxo pousando com seus charutos. Horóscopo do dia? Mariá Fernandes. As cartas dos leitores quem responde é Mariá Fernandes, e se não tem, ela mesma escreve e responde. Mariá é tão fictícia como seu currículo de jornalista. Sobrevivência de um jornaleco e de seu editor, João Alberto.

Porém a realidade andava esquisita. Os grandes crimes dignos de manchetes estavam minguando. A cidade parecia entorpecida na monotonia: morria-se de morte natural, doenças, coisas banais. Nada que vendesse jornal. A preocupação de João Alberto foi aumentando na proporção que o lucro ia baixando. Que fazer?

Se não há crime, faz-se! João Alberto começa a ler romances policiais, se atentar em séries de TV, anotar os detalhes para não se deixar pistas, estudar as possíveis vítimas.

Num dia que seria corriqueiro sem venda expressiva de jornal, eis que a cidade amanhece com sangue. João Alberto, com sua máquina fotográfica, chega quase junto com a polícia. Um corpo com dezoito facadas estendido no chão de uma casa nos arredores da cidade. Ele tira fotos, a polícia investiga, e Mariá Fernandes escreve a notícia. O jornal vende com a manchete escandalosa. E vende vários dias, pois a polícia sem pistas, sacode as teorias e mais teorias; a curiosidade se instala: quem matou? por que matou? Perguntas e mais perguntas vão se formando… e o jornal vendendo.

Quando o crime vai perdendo o interesse, surge outra vítima: desta vez num apartamento bem no centro da cidade. O mesmo modus operandi: as tais dezoito facadas, corpo estendido, sem pistas, e João Alberto chegando junto com a polícia. Mariá Fernandes escreve com tantos detalhes que as vendas se multiplicam.

As pessoas começam a suspeitar de um serial killer, o terror se espalha. E todo mundo sabe que terror vende jornal. Quanto mais os boatos se acumulavam, menos pistas a polícia tinha: local sem impressões digitais, sem sinal de arrombamento; a vítima sem inimigos; nada que apontasse o porquê de crime tão bárbaro.

O investigador Carlos Albuquerque está desnorteado. Nesta cidade nunca viu algo parecido. Dentre tantas perguntas o que mais chama sua atenção são as descrições de Mariá Fernandes. Como ela sabe de tanto se a polícia decretou sigilo justamente para não atrapalhar a investigação? Começa a suspeitar de alguém de dentro da delegacia que estaria repassando as informações. Seu foco mira os colegas. Quem será o delator? Enquanto isso as vítimas se acumulam: uma velha no asilo da cidade, um homem encontrado no matagal… O mesmo modus operandi, nada que ligue as vítimas, nenhuma pista.

E o jornal vendendo adoidado. João Alberto está até pensando em aumentar o quadro de funcionários. Não está dando conta das inúmeras cartas dos leitores aterrorizados, tem que pensar melhor para respondê-las. Assim como o horóscopo. Antes escrevia num enfastio prevendo pequenas aventuras para gêmeos, um novo amor para sagitário, viagem no horizonte para aquário… Com a cidade em nova atmosfera, era preciso que Mariá Fernandes refletisse muito sobre o quê prever para os de touro, por exemplo.

Eis que Carlos Albuquerque, investigador de polícia, invade a redação aos berros: quem é Mariá Fernandes?

João Alberto já sabe quem será sua próxima vítima.

Léo

10 comentários em “Mariá

    1. Talvez João Alberto mate o investigador de polícia. Talvez se mate. Talvez suma com Mariá Fernandes… Talvez o jornal acabe. Sei lá.
      É tudo roubo, viu? Ponho no caldeirão colheradas de contos de Rubem Fonseca, pitadas de um filme italiano que vi anos atrás, misturo bem e… me divirto escrevendo.

      Curtido por 1 pessoa

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