Vaz

Vaz acordou com um beijo de sua esposa. Ela tinha um caso difícil no escritório e estava indo mais cedo. Ele, sonolento, ouviu as recomendações: levar os meninos para a escola e passar no supermercado. Receberiam amigos para o jantar. Olhou pela janela e percebeu o sol. Não tinha mais como ficar na cama. Tomou banho, se arrumou, preparou o café e chamou os filhos.

O trânsito infernal. O rádio ligado anunciava as velhas notícias do dia: corrupção do governo, eleições que se aproximavam, e mais um corpo encontrado desmembrado em sacos de lixo. Os meninos, presos aos celulares no banco de trás, pouco se importavam. Vaz teve tempo de ver borboletas amarelas voejando pelo parque próximo. O trânsito infernal e lento.

O cliente chega no horário. Reunião sobre o projeto de arquitetura se alonga. Almoço rápido. Teria que sair mais cedo do escritório para ir ao supermercado. Desenha, prepara a agenda da próxima semana, conversa com os estagiários.

Quando chega em casa, sua esposa já está nos preparativos. Vaz toma um banho ligeiro, e, juntos, preparam o jantar. Os filhos ficaram na casa dos avós. Os casais de amigos vão chegando, bebendo, e conversando sobre os velhos assuntos: as eleições que se aproximam, os casos de corrupção, o segundo caso de um corpo achado no lixão. Um deles diz algo como “onde vamos parar? Retalhar um corpo?”. Reclamam dos filhos, das mensalidades da escola, contam pequenas cenas engraçadas. Um jantar tranquilo entre amigos.

Quando ficam sozinhos, ainda tomam mais uma taça de vinho. Falam entre si dos que se foram. Na cama, depois que transam, Vaz beija sua esposa sonolenta e diz que irá tomar um banho, o calor está insuportável.

São três horas da madrugada. Vaz estaciona o carro nos fundos do seu escritório: uma casa antiga que ele mesmo restaurou. Desce do carro, desce as escadas. Acende a luz do porão. Ali guarda os projetos antigos. No banheiro veste uma capa de chuva, forra a mesa com jornais velhos, aproxima a cadeira com os sacos de lixo. Abre o cofre e retira serra elétrica, facão, facas. Verifica tudo.

Abre o porta-malas. Ilumina com a lanterna um corpo franzino.

– Este não dará muito trabalho.

P.S. A inspiração veio do conto Passeio Noturno de Rubem Fonseca e do conto do blog https://gavetananuvem.wordpress.com/2020/11/02/no-acostamento/.

Léo

5 comentários em “Vaz

    1. Boa música.
      Vou te contar duas histórias que presenciei. Uma trágica e outra boa.
      A trágica foi com um dos advogados dos sindicato que participei. Lutamos lado a lado por muitos anos. Enfrentamos gerentes, justiça, viajamos juntos, conhecíamos a família do outro. Enfim, nos conhecíamos. Depois de já estar aposentada e morando aqui, estourou a notícia em minha cidade: sua filha adolescente fez uma denúncia na justiça contra seu pai por abuso. Segundo ela, ele abusava dos filhos desde pequenos. Imagina o susto. Ele foi preso. Nem sei o final, se era culpado ou inocente. Só sei que minha confiança nas pessoas ficou muito abalada.
      A história boa. Eu trabalhava numa grande agência bancária. Muitos funcionários. Por conta de ser dirigente sindical, conhecia todo mundo. Um dia veio a notícia: um dos gerentes e uma das telefonistas estavam juntos, apaixonados. Foi um susto. Nunca percebi nada. Eles ocultaram o relacionamento por motivos óbvios. E não era assédio. Era amor.
      Aparências, máscaras, subterrâneos. Ei sociedade louca.
      Este conto que escrevi tentei surpreender o leitor. Um homem de classe média, família, profissão, filhos…. e eis que…
      Bom, pelo menos foi esta minha intenção.

      Curtido por 1 pessoa

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