Selma

“Enquanto o futuro não se decide,/ o agora me parece uma boa opção”

Sérgio Vaz

Selma casou cedo por uma gravidez inesperada. Assim como veio, foi-se: aborto espontâneo. O marido não era bruto e nem se amavam. Seus dias eram opacos.

Numa manhã, Selma levantou-se no mesmo horário, fez o café de sempre, arrumou a mesma marmita para o marido. Quando ele saiu para a lida, Selma pegou uma mochila, poucas roupas, uma blusa mais encorpada, tênis confortável, um pedaço de espuma e uma coberta. Deixou chaves e documentos. E começou a caminhada. Sem rumo. Sem destino.

Caminhou por horas numa estradinha de terra. Parou ao encontrar uma pequena cascata. Tirou a roupa e a lavou; tomou um banho e se secou ao sol. Na sombra de uma mangueira, tomou água, comeu manga, e ficou quieta observando o final do dia. E viu que era bom. Dormiu por ali mesmo.

Percurso retomado chegou numa casinha no meio do nada. Bateu palmas. Um casal de meia idade a atendeu. Pediu água. Como a perceberam cansada a convidaram para entrar. Selma devorou o café e o pão. Todos acostumados ao silêncio. Ofereceram um lugar no celeiro. Ela dormiu um dia e uma noite inteira. De manhãzinha, acordou disposta. Limpou o celeiro, ajudou a tratar das galinhas, dos porcos. Comeu, banhou-se, e se foi.

Chegou numa cidadezinha. Selma já tinha perdido conceitos como nome, sobrenome, futuro, esperança. Vivia o agora, sem luxo. Por isso se inquietou quando Cecília, a assistente social do abrigo, fez perguntas clássicas como nome, cidade onde nasceu, de onde vinha, para onde vai… Selma já não sabia responder. Perguntas sem sentido. Seu choque foi maior quando percebeu compreensão nos olhos de Cecília. Esta sim é que contou sua história, projetos, notícias. Selma a ouviu como se fosse canto de pássaros. Sentia a melodia da voz e não o significado.

Ficou alguns dias no abrigo. Jogou suas roupas surradas no lixo, arrancou um dente que lhe incomodava… e seguiu.

Numa cidade maior prestou atenção nas pessoas que andavam ligeiras como se fossem para algum lugar precioso. Viu praças enormes com voos das pombas; prédios abandonados; vitrines vendendo luxo descartável; restaurantes vazios. Ao sentar-se sob uma marquise de uma agência bancária que anunciava juros baixos, um homem – também andarilho – se aproximou oferecendo aguardente. Ela não bebia. Ele queria sexo; ela, por compaixão, deu. Nada sentiu, mas beijou seus cabelos quando ele terminou.

Depois seguiu seu caminho. Seu tempo é o agora. Selma, a andarilha.

Léo

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