Querêncio

“Perdi meu lenço e meu passaporte, /- senhas inúteis de ir e chegar” Despedida, Cecília Meireles

Para Laís, Lívia e Rafael, sobrinhos

Querêncio tinha a aparência de um garoto de dez, porém sua idade verdadeira era de 127 anos. Morava no quintal – como ele chamava – em sua árvore flutuante.

Rafael, o lagarto, era um dos seus amigos de aventuras. Um lagarto multicolorido; adquiria as cores do que estava próximo: azul, perto de uma árvore azul; rosa, junto de uma pedra rosa; cores de fogo flamejante, azul, vermelho, amarelo, quando se aproximava de um arbusto incandescente. Rafael tinha pequenas asas. Seu voo não era de grandes altitudes. Pequenos voos. Contava histórias, “que eu mesmo inventei”, sempre dizia. Era bem falante.

Kika, a gata, era outra companheira. Falava pouco, mais murmurava. Gostava de ficar no colo de Querêncio e ser acariciada em sua plumagem cinza azulada. Ou se espreguiçar e se deitar nas costas de Rafael em pequenos passeios.

Laís e Lívia, fadas em vestidos rendados, sempre apareciam com notícias da floresta: o tigre Benzino está apaixonado pela tartaruga Anastácia. “Ela faz que nem liga”, Laís diz com um sorriso travesso. “Mas bem que ouvi seus suspiros”, acrescenta Lívia também sorrindo. Elas têm cabelos longos cheios de fitas coloridas como um arco-íris. Voam como se deslizassem num ringue de patinação. Graciosas, passeiam pela floresta. São suas guardiãs. Colhem sementes e as espalham pelos ares. Assim as plantas vão se mesclando: é melancia num pé de pepino; é caju em arbusto; é mamão em ramos rasteiros. É orquídea no limoeiro… Elas gostam dessa misturada toda.

Neste lugar a morte não existe. Quando um bicho come o outro, eles se metamorfoseiam: então tem leão-cervo, lagartixa-pirilampo… assim como as plantas. Por aquelas bandas, só Querêncio era ser humano.

Querêncio é aventureiro e descobridor. De dia vasculha lugares novos. Ontem mesmo, com Kika, Rafael, Laís e Lívia, ele pegou carona numa nuvem e foi até a montanha gelada. Ficaram vagando ao seu redor: parece uma noiva, assim toda coberta de neve. Os amigos seguiram a rota e viram rios correndo soltos, árvores gigantes que chegam no céu, pássaros que formaram uma orquestra e seus cantos ecoam pelos ares. Rafael contou como esta orquestra aconteceu. Os pássaros cantavam isolados. Quando uma avalanche aconteceu foram os bichos que socorreram as plantas soterradas. Os pequeninos pássaros não podiam fazer quase nada, então resolveram cantar para alegrar a bicharada. E foram improvisando com gravetos, folhas, frutos, os instrumentos. No fim quase todas as plantas foram salvas e aquele lugar – depois da montanha noiva – ganhou esta linda orquestra de pássaros.

De noite voltaram: a nuvem da carona estava bem cansada. Eles também. As fadas foram para a floresta. Querêncio, a gata e o lagarto, só queriam entrar na toca da árvore flutuante e ter uma boa noite de sono. Só que a árvore flutuante é muito brincalhona: ela parava perto e quando eles iam saltar, ela ia para o outro lado; eles iam para onde ela estava, e ela voltava… E ria, ria, pois eles não conseguiam entrar. Querêncio já estava irritado. “Tá bom, tá bom, podem entrar”, ela disse finalmente. A toca é grande, cheia de tapetes. Eles se jogaram no colchão de penas e dormiram bem enroscados.

Na manhã seguinte foram acordados pelas fadas dando notícias que os elefantes estavam distribuindo uvas de variados sabores. Kika ficou toda animada. Murmurou algo como “que belo café-da-manhã”. Até a árvore flutuante quis ir. E foram. Querêncio caminhando com Kika no ombro. Rafael no seu voo rasante. A árvore flutuante com as fadas e suas fitas coloridas.

A bela tropa ia cruzando com outros animais que também souberam da notícia. Fazia tempo que os elefantes não apareciam. Quando chegaram, o elefante Tomásio organizava tudo. Sabem como é, né? Todos queriam provar das uvas. Eles a trouxeram de terras longínquas em suas trompas. Eram uvas de sabor de chocolate, baunilha, groselha; umas bem geladinhas como sorvetes; outras pareciam bolos de aniversário. Várias cores. Vários sabores. Foi uma festa. Aproveitaram para contar histórias. Rafael todo prosa. A orquestra de pássaros apareceu. Até o bicho-preguiça ficou lambendo uma uva cereja com aqueles olhos tristes. Mas estava se fartando. A festa foi até de tardezinha.

Querêncio propôs irem todos para a cachoeira cujas águas corriam para cima. “Podemos ir até a lua hoje”. Todos se animaram. Só o bicho-preguiça ficou no seu canto com sua uva cereja. Os elefantes também não foram. A viagem foi longa e eles queriam descansar. Justo.

Quando chegaram cumprimentaram a cachoeira numa voz uníssona. Só assim para ela ouvir. Também com aquele aguaceiro todo. Os peixes foram aparecendo. Eles é que eram os barcos. Assim se formou uma longa embarcação navegando para cima. A lua estava linda e ficou muito feliz com a visita. Ela sempre tão solitária… e todos ali para lhe fazer companhia. Rafael já engatou uma história. A árvore flutuante e as fadas deram um longo passeio pelas crateras lunares. Querêncio com Kika no ombro, ficou mirando a Terra cintilante lá embaixo. Estrelas e cometas foram chegando, passeando ao redor. Todos conversando, rindo… Uma verdadeira festa no céu.

Voltaram em silêncio deslizando pela cachoeira. Estavam felizes e cansados.

No dia seguinte, novas aventuras. Mas aí já é uma outra história.

Por hoje é só, pessoal.

Léo

7 comentários em “Querêncio

  1. A história de Querencio é única onde a fantasia voa livremente devido à sua inspiração inacabada.
    Uma terna dedicação aos seus sobrinhos. Eles certamente ficarão orgulhosos de ter uma grande escritora como tia.
    Uma história cheia de fantasia que deixa a sensação de querer pertencer ao mundo de Querencio.
    Um grande abraço Léo

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      1. Este fim de ano está bem difícil. Vou ficar só, sem viajar, isolamento. A situação da pandemia está muito grave no Brasil. Eu me decidi ficar. O universo despedaçado, como escreveu em tua poesia.

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      2. A notícia é que eles têm um grande problema com o vírus. Eu imagino sua preocupação.
        Portanto, é melhor ficar em casa.
        Meus filhos estão em outros países e também não podem vir.
        Espero que no próximo ano a situação melhore.
        Nós estaremos em contato.
        Boa noite

        Curtido por 1 pessoa

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