Cartas de longe – terceira

José Saramago num de seus romances, o personagem diz que a juventude tem energia mas não tem experiência, o velho tem experiência mas não tem energia. Wood Allen questionado sobre a morte responde que continua contra. João Ubaldo Ribeiro, escritor brasileiro, numa entrevista fala dos problemas da velhice, no entanto afirma que a outra alternativa é pior (a morte). Boa parte dos filmes o velho (a velha) aparece como vilão, conselheiro do protagonista, com doença terminal e faz algumas loucuras, ou sendo ridículo.

Tenho 59 anos e tenho questionado muito como se encara a velhice. Não sou daquelas que afirma ser a melhor idade. Bobagem. Cada idade tem suas angústias e delícias. Também não sou consumista e vejo até com tristeza o mercado se apropriando deste período da vida como nicho mercadológico. Pode-se envelhecer preso ao passado ou tentando recuperar a juventude perdida. Também não caio nessa: cada tempo é importante. Tem os céticos; os críticos da juventude como se nada pudesse ser mudado; os que arrotam “no meu tempo era melhor”; os que vivem em função de filhos e netos; os deprimidos; os que se apegam a religião. Não, não, nenhum desses papeis me interessam. “Calculem”.

Nunca trilhei o caminho da chamada “normalidade”. Fui militante de um partido revolucionário e sigo suas diretrizes até hoje, assim sou socialista mas não stalinista. Fui direção de um sindicato de luta, e continuo lutando. Sou feminista, nunca me perguntei se posso fazer tal coisa sendo mulher; fiz e faço o que considero que sou capaz. Sou ateia, acredito na capacidade humana num sentido amplo. Fui casada e faz dez anos que vivo só; gosto da minha companhia, me amo e me respeito. Sou mãe e tenho orgulho dos meus filhos, que seguem suas próprias vidas, e somos parceiros. Escrevo, gosto muito de viajar, ler, e aprender.

Então como envelhecer? As referências são, no geral, ruins. Não quero ser vilã, nem conselheira, nem ridícula, nem alvo de mercado. Sou autônoma e independente, mas preciso do Outro: amigos, amor, leitores.

Pensei: a gente nasce no meio de uma cena, sem saber se é tragédia ou comédia; sem direção; sem script, sem roteiro. A vida não tem ensaio. Viver é mesmo complicado (risos), mas a outra alternativa é pior (risos).

Termino com uma cena de um bom filme: Lucky (de John Carroll Lynch, 2007, USA). “Um dia tudo vai desaparecer. O escuro, o nada”. “E o que podemos fazer?” . “Sorrir”.

Léo

20 comentários em “Cartas de longe – terceira

  1. Léo, adoro quando você conta sobre sua história. Imagino quanta coisa você tem pra contar! E lendo esse texto lembrei de algo que vem passando muito pela minha cabeça: a falta de equilíbrio entre os “novos” e os “velhos”. Acredito que está faltando dosar a experiência com a energia. Beijos!

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  2. Adorei ler suas reflexões Léo. Outro dia conversávamos sobre o assunto e uma amiga saiu com uma destas: a velhice é uma doença degenerativa. Entendi o ponto de vista dela, mas achei um tanto quanto cruel. Costumo dizer que “a idade é apenas uma marcação do tempo” (marcação também no sentido de “pegar no pé” kkkkkkk) Bom… estou na mesma faixa etária, também preciso dos amigos, amor, leitores, e sempre acho que o melhor está por vir. Obrigado por compartilhar seus pensamentos, minha cara amiga… que seu fim de semana seja iluminado! Beijo no coração

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    1. Concordo contigo. Cada fase tem seus encantos. O bom mesmo seria vivê-las em plenitude, coisa inimaginável na forma de organização social que vivemos. O bom é que os sonhos não envelhecem (pelo menos no sentido de querer que estes se realizem). Então, vivamos. Beijos

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    1. Você é muito gentil e carinhoso. Posts muito pessoais como este, acabam me deixando inquieta. Pensei bastante depois da publicação e acho que é um “grito de alerta”. Estou cumprindo rigorosamente o isolamento devido a pandemia. E sinto muito falta de ir ao cinema, show, museu, caminhar livremente pelas ruas. E interações com pessoas só por vídeo vai cansando. Preciso ver “frente a frente”, abraçar… E sinto muita falta das viagens. Espero ter a paciência necessária para este período difícil. Este mundo doente me angustia, ainda mais sabendo que a humanidade tem a resposta. Uma resposta que não se efetiva.
      Meu amigo, que faz da vida uma oração, obrigada. Que teu Deus te dê em dobro.

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  3. Já que resolvestes ‘se abrir’ um pouco, então, me sinto à vontade para continuarmos esta prosa… Antes da pandemia eu estava num ritmo de trabalho muito grande.. Duas escolas (privada e particular) distantes em maus de 70 km uma da outra num dos trechos mais pesados da região metropolitana de BH. Confesso que por este lado o home office ajuda, não me desloco diariamente, mas, por outro, ficar em casa (apto) 24 hora/dia com duas crianças pequenas não é de todo saudável para elas, para mim e para minha esposa. Mas, temos encarado isto tudo como um momento que passará. O que mais me incomoda é o comportamento infantil de autoridades e seus seguidores.
    Você é suficientemente madura para superar este momento, mas, não é fácil.. Nossas vidas contemporâneas exigem mais do que conexão… precisamos de movimento e, neste, momento, precisamos ainda mais de paciência para não virarmos pacientes.. Te cuida..

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  4. Ah não tenho um Deus… apesar de ter entendido o que dissestes… Este Deus personalista e teísta apregoado mundo afora e que está apenas na boca de seus pseudo-seguidores… eu também sou ateu… não consigo acreditar neste ‘deus’..

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