Zilma

“Hoje quero viver sem perceber” Mafalda (Quino)

Nasceu mirrada e doente. Fora desenganada por médicos diversas vezes. Porém vivia por rebeldia e ia crescendo. Os pais, aconselhados a procurarem um esporte para Zilma, a franzina. Tentou artes marciais, ginástica olímpica, yoga, futebol… e Zilma não gostando de nada. Três meses era seu tempo máximo de experiência.

Por ser frágil era motivo de gozação dos colegas. Brincadeiras de menina, nem pensar. Os meninos não a aceitavam. Zilma ficava isolada, tímida. Uma raiva foi crescendo dentro dela. E os pais sempre insistindo em esportes. Mas como se ela não achava graça em nenhum?

Também não gostava de estudar. Não entendia os professores. Gostava mais de gibis, histórias em quadrinhos. Os traços feitos à mão, criar um mundo todo de rabiscos; os desenhos projetando sonhos, heróis, heroínas, no papel ou ganhando vida nos Animes, Mangás, Animações. A vida real era dura para Zilma, sempre rejeitada nas rodas, sempre frustrada por não ter com quem conversar. Fraca, se via nos HQs onde era possível saltar por flocos de neve e alcançar as estrelas. Doente, eram aqueles traços seus companheiros.

Conforme foi crescendo, Robert Crumb, Quino e Laerte eram seus preferidos. E tinha um carinho especial por Rê Bordosa, de Angeli.

Entretanto o compasso da vida lhe desenhou uma esquina. E nesta esquina tinha um velho galpão com jeito de abandonado… como ela. Porém trazia uma placa: escola de boxe. Entrou. Quando viu um garoto socando um saco de pancada, sentiu algo dentro de si. O professor observou aquela garota mirrada com cara de doente. O que percebeu foi a luz de seus olhos como chamas. Aproximou-se: – Quer tentar? Zilma vidrada no saco de boxe. Com os professores da escola sempre gaguejava ao responder. Para este, foi certeira: – Quero!

Ele lhe ofereceu as luvas e ficou assistindo. Zilma socava, socava… todos os meninos e meninas que zombavam dela; as insistências dos pais de um esporte qualquer; as risadas de deboche, os escárnios… socava, socava, até sentir dores em suas mãos.

O professor parou o saco. – Você tem talento, mas vê inimigos por toda parte. Precisa ter consciência dos verdadeiros, e disciplina. Canalizar esta raiva em gestos precisos. Ela o olhou como se pela primeira vez na vida alguém a compreendesse e iluminasse um caminho.

O tempo soprando páginas e páginas de ensinamento, aprendizagem e percepção, se depara na última cena.

Ela, com sua capa, vem se deslocando como se portasse asas sobre as cabeças dos pagantes e pousa suavemente no ringue. E lá lutou como uma guerreira mítica e dançou com Mohamed Ali… (Ah, se eu soubesse desenhar…): Zilma, lutadora de boxe

Léo

14 comentários em “Zilma

  1. Às vezes, como uma criança, não temos consciência do que somos e o que
    queremos, se não tivermos a orientação adequada
    Zilma, encontrou o seu destino que traçara.
    Que história ótima, Leo. Mergulho nele como uma criança com um brinquedo novo.
    Um grande abraço
    Manuel Angel

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    1. No final deste conto tentei me apoderar da linguagem do HQ, que Zilma tanto ama, para descrever o seu percurso.
      Assim como Zilma teve um professor que a compreendeu, eu tenho você, poeta-menino, que tem olhos para minha escrita.
      Obrigada. Abraço poético.

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      1. Eu só posso apreciar uma escrita excelente e é aí que você se envolve, e o mais importante, como ela é bem escrita.
        Aguardo aquele abraço que deixa minha pele impregnada de seu aroma poético e algo mais.
        Manuel Angel

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    1. Zilma pediu para agradecer seu comentário. Se sentiu compreendida. Também disse que agora ela tem no boxe seu caminho, seu esporte. Não sente mais necessidade de socar. Está segura de si. Seu professor a ensinou muito bem e Zilma é uma boa aluna. Bastou ter clareza do caminho.
      Obrigada. Abraço forte, mineiro de terras bonitas.

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