Contido

No poema há perguntas que não se responde
Compreensão sem explicar
Ocupa um lugar obscuro em clareira iluminada
Imagens despojadas da foto

É o coração que palpita aos murmúrios do poema
seus versos cantam ritmos desconhecidos

O olhar viciado não cabe no poema
O automatismo dos hábitos não cabe no poema
Cabe a dor, soldados vencidos, sombras
o veneno dos erros, a libertação vã dos pecados
saudade sem saber do quê
futuro sem trégua, passado veloz
um presente sem resposta

Tormento de um dia a dia apequenado
Febre que martela
vontade seca e dura que não vinga

O consenso, a unanimidade e o óbvio
não cabem no poema
Cabe a sede sem sentido
o choque sem permissão
Fúrias e açoites, chicotes da noite
o pobre, o moribundo, o sujo, o impuro
O imperfeito
o latido do cão perdido, o gato sem dono
o telhado esperando neve
a raiva da espera inútil

Os opostos cabem no poema
o contraditório, a elipse, o não dito, as entrelinhas
o banal pertinente, vocábulo sem graça
A tentativa da resposta

Pus, vômito, descarga, imundícies

Templo vazio

certeza medíocre, ocre, ferrugem corroendo as engrenagens

Bobagem
Tudo cabe no poema

Léo

6 comentários em “Contido

    1. Começo este poema com uma afirmação: as perguntas do poema é que importam e não as respostas. Porque creio que a poesia é um “lugar” acima do corriqueiro. A gente vai tentando alcançar as frestas, tentando se elevar do banal que encarcera a vida. Na tentativa, temos mais dimensão. E aí, o poema desmonta a tese e vê que “tudo cabe num poema”.
      Agradeço o comentário. Abração.

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