Vicente

20h20′ Um tiro certeiro no coração.

19h17′ A campainha toca. Vicente está apreensivo. Quando abre a porta do escritório do estacionamento, dá de cara com a tropa de choque. Mau sinal, pensa ele. André não veio. O gorducho com cara de hiena entra com mais dois gorilas. Até parece que Vicente iria reagir. Bastava só o gordo… Vão entrando e se postando em sentinela. Fuga nem pensar. O gordo com risinho na cara já faz a pergunta, sem rodeios: – Cadê o dinheiro? Vicente gagueja querendo saber de André. – Moreno não é trouxa. Já sabe que André faria corpo mole. Me dá o dinheiro e a novela acaba. Vicente começa a suar frio: – Vamos com calma. Um dos gorilas lhe mete a mão na cara. Vicente cai na cadeira do escritório. – Olha, eu só consegui a metade da grana. Mas se Moreno me der mais uma semana… eu prometo, pago o resto. – Por acaso se morre pela metade? Os gorilas dão risada do gordo. Vicente suspira: – Só uma semana! Veja, aqui está a metade… pode contar. – Você é burro ou o quê? Moreno quer nota por nota. Senão já sabe. – Liga para o André. Diga que consegui a metade. Vamos, vamos, não custa nada… O gorducho com cara de hiena olha para os lados irritado. Eles só querem acabar logo com isso. Acaba ligando. André não atende. O gordo sacode o telefone pros lados, como quem diz: viu? você está perdido. Vicente pede para que insista. Três vezes e nada. – Chega, já tentei. O que posso fazer é ligar direto pro Moreno. Mas, já sabe… Vicente se vê encurralado. Suor escorrendo. Anda pra lá e pra cá no escritório pequeno. Passa a mão pelos cabelos. – Liga então. Explica que tenho a metade. E dentro de uma semana, consigo a outra. Palavra! – E jogador lá tem palavra? – Eu prometo. Prometo! – Vou ligar só porque é amigo do André, em respeito a ele, entendeu? – Certo, certo. O gorducho liga no viva-voz: – Moreno, o rapaz só tem a metade do dinheiro. Diz que em uma semana tem o resto. Silêncio. Vicente já nem sente mais as pernas. Cai na cadeira do escritório com o coração aos pulos. – Espera… responde Moreno.

19h07′ Vicente se dá por vencido. Já nem pensa mais que alternativa teria. Foi atrás de todas. Acende um cigarro e pragueja: – Droga, aqui nem janela tem.

18h56′ Vicente está no telefone com o terceiro agiota que procurou no dia. – Seu Mário, se me emprestar essa quantia pagaria dentro de um mês. – Como vai pagar? Não tem mais nada pra vender. – Eu dou um jeito. Eu pago o senhor. – Se tivesse algum jeito teria o dinheiro pro Moreno. E, pelo que sei, ele até foi paciente demais com você. Nunca esperou tanto. – Eu sei, eu sei. Sabe como é, né? Fui jogar em outras casas, tentar a sorte, mas não consegui. – E se eu te emprestar vai tentar a sorte outra vez. – Eu prometo, Seu Mário, me dá só um mês. – Olha, rapaz, eu não quero problema pra mim. E com Moreno não se mexe. Não tenho como te emprestar esse dinheiro. Deveria ter pensado antes. E desliga o telefone.

17h39′ Vicente entrega seu carro por um valor irrisório. Pelo menos assim tem a metade do dinheiro. A outra metade tentará emprestar do Seu Mário, o agiota que resta. Vicente acende um cigarro e sai caminhando para o escritório do estacionamento. Seu pensamento está tão embaralhado que nem se dá conta da chuva miúda que cai apagando o cigarro.

16h27′ Vicente entra num corredor quase escuro de um prédio que parece abandonado. Bate na porta nº 457. Um brutamonte abre. – Preciso falar com o Gilberto. O brutamonte o olha de cima abaixo e o deixa entrar. Espera. Finalmente Gilberto o atende. – Não me diga que quer dinheiro emprestado? – Gilberto, eu paguei da última vez. – Sim, depois de uma boa surra. – Mas, paguei. Preciso me acertar com Moreno. – Olha, rapaz, da outra vez já te alertei que comigo não teria mais nada. Eu te avisei. – Sei, sei, mas é uma emergência. – Todos que me procuram é porque tem uma emergência. – Te pago dentro de um mês. – Se eu falei que não te empresto mais dinheiro é porque eu não te empresto mais dinheiro. Cai fora! Carlão, berra Gilberto aborrecido. Vicente já presumia, mas o desespero o fez tentar. – Está bem, está bem, já estou saindo. Lá fora, o desespero aumenta. Caminha algumas quadras e tenta outro agiota. Mas nem entrar consegue.

13h41′Vicente aperta a campainha. Sua mãe atende e o olha com desdém. – O que você quer? – Oi, mãe. Como vai? – Vicente, o que você quer?, diz a mãe sem paciência. – Posso entrar? A mãe dá um suspiro como quem diz: conheço esta cara. Mas acaba escancarando a porta. – Quer comer? Estou quase acabando o almoço. – Se não for incômodo… Vicente passeia os olhos pelas velhas cortinas da sala. O sofá ainda é o mesmo de cinco anos atrás. Parece que nada mudou. Só o ar está mais velho. Acompanha a mãe até a cozinha. Ela tira uns bifes da geladeira. – Você ainda está no hospital? – E onde mais estaria? – Mora sozinha agora, né? – Nem pense em morar aqui. – Não, mãe, não é isso. – Seu irmão se casou. – É, fiquei sabendo. Os dois mergulhados na última vez. A mãe, faxineira no hospital, trabalhava de noite. O pai morreu com os dois filhos pequenos. Deu duro para sustentá-los. Honesta até a medula, não suportou os trambiques do filho mais velho. Depois de tantas brigas e avisos, o expulsou. Ele não tinha mais conserto. Vicente foi morar com André, mais velho que ele, companheiro das farras. Fora de casa, se viu livre para pequenos furtos. Queria ser rico de qualquer maneira. Só pensava nisso. Mas, não era esperto. André sim. Foi trabalhar com Moreno e se ajeitou. No mundo do jogo se deu bem, pois não jogava. Só cuidava dos maus pagadores. Vicente tentou caminhos ousados. Ideias mirabolantes. Sempre acabava mal. Não aprendia. Tentava enrolar todo mundo. Uma ciranda: emprestava de um para pagar o outro. Quando quis jogar, André avisou várias vezes. – Isto é bobagem. Ganha algum, perde muito. Vicente não ouviu. Moreno já sacou o tipo logo de cara. Deu corda. Nas primeiras vezes, o ganho. Vicente se animou. E foi… se enforcando cada vez mais. A mãe prepara a mesa enquanto Vicente fala amenidades. Depois almoçam em silêncio. – Vamos, fala logo. – Mãe, estou enrascado. Preciso de dinheiro. – E acha que eu tenho algum? – Se eu não pagar, eu morro. – Eu te avisei que o caminho que tomou era perigoso. Eu te avisei. – Eu sei, eu sei. Mas se eu sair dessa… – Não me venha com promessas. Nunca cumpriu nenhuma. Vicente não tem mais força para argumentar. Fica ali quieto tomando o café. Já olha tudo com melancolia.

10h02′ Vicente encontra André na porta do escritório do estacionamento. – Desta vez é pra valer, Vicente. Moreno quer o dinheiro. – Se ele me desse mais tempo… – Você é muito cara de pau mesmo. Já consegui tempo demais pra você. – Eu sei. Joguei a noite inteira, mas nervoso como estava, perdi todas. – É o que eu te disse de manhã. Não tem mais jeito. – Você não pode me emprestar, André? – Você tá louco? E o tanto que já me deve? Conversam mais um pouco. André se vai. Vicente acende um cigarro. Faz um balanço geral: tudo que tinha já perdeu. Resta o carro. Os agiotas, só em último caso, já tinha levado muita surra. Pensa, pensa, e não consegue uma saída. Fugir não dá, está sendo seguido. Tentar ser preso é bobagem. Tem policiais a mando de Moreno e na prisão não sobreviveria nem um dia, Moreno dá as cartas. Pensa na mãe.

9h01′ Vicente chega na casa do Seu Moacir, dono do estacionamento onde trabalha. Seu Moacir nem abre a porta direito. – Eu te avisei, eu te avisei. – Mas, Seu Moacir, recebi um ultimato. Preciso de dinheiro. – Nem pensar. Quando te dei o emprego, já te avisei pra nunca me pedir dinheiro emprestado. E só te arrumei o emprego porque fui amigo do teu pai. – Mas, Seu Moacir, se eu não pagar, eu morro. – Sinto muito. Sou seu patrão e não agiota.

7h50′ Vicente sai da cama. Não adianta, não consegue dormir depois do telefonema. Faz o café, come alguma coisa, toma um banho. E não vê saída. O que percebe é que sua casa está sendo vigiada.

Vicente meio atordoado pelo sono, demora em entender que é o telefone tocando. Tinha jogado até às quatro da manhã. Saiu sem nada. Vê que é André ligando.

5h13′ – Vicente, você tem até hoje à noite. Se não pagar, morre.

P.S. Este conto poderia se chamar Morte anunciada ou Um dia de cão (risos).

Léo

13 comentários em “Vicente

    1. Foi inspirado em Crônica de uma morte anunciada. De Amnésia, não me lembrei. Irreversível, não conheço. Deu trabalho escrever este conto, pois escrevi do fim para o início. Imaginar o tempo, as possíveis saídas que o personagem teria… Foi um bom exercício. Foi o meu primeiro conto em que o personagem não é do “bem” (risos), e isto também foi um bom exercício. Enfim, um bom combate. Obrigada, Ygor, pois seu comentário me fez escrever sobre o processo da escrita. Abraço.

      Curtir

  1. Nossa! Muito bom! Instigante, de perder o fôlego. Muito criativo, muito bem feito. Fiquei impressionado. Daria um bom filme pro Tarantino kkkkk mas no Brasil. Ótimo.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Ele o convida a ler a história, uma e outra vez, porque é muito original e ágil. Concordo plenamente com o que pensam ser um roteiro de filme, aqui você me surpreendeu e me deu o prazer de ler um grande escritor. Bom para você Leo. Boa semana e vejo seu nome no crédito de um filme de ação. Dinamite pura.
    Um abraço forte
    Manuel Angel

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s