Otávio

“Hoje vi o sol refletindo na água, ela brilhava intensamente como se o sol jogasse estrelas nela” blog https://depressaocompoesia.com/.

Otávio, desde menino, trabalhava com sua família. Tinham uma barraca de verduras na feira livre. Bem cedinho se entrincheiravam na rua anunciando as promoções do dia. Otávio atendia os fregueses e lia nos intervalos. Além de estudar, tocava baixo numa banda de amigos e riscava umas letras de música.

Ao final do ensino médio, Otávio não sabia o que fazer do futuro. Gostava de muitas coisas. E pensava e se procurava, como se procura num poema. Conversou com seus pais sobre suas dúvidas. Decidiu-se percorrer o mundo antes de tomar posse de um caminho.

Como em Diários de Motocicleta (Walter Salles, 2004), iniciou sua jornada pela América do Sul. No Uruguai trabalhou como limpador de pratos enquanto lia Eduardo Galeano e viu um filme lindo Mau Dia Para Pescar (Álvaro Brechner, 2009). Tocou violão nas ruas argentinas e frequentava as inúmeras livrarias lendo Jorge Luis Borges e Julio Cortázar e os filmes de Ricardo Darín, ator que gostava muito. Em Chile, nas plantações, lia poemas de Pablo Neruda, “e o povo encha as suas ruas vazias/ com suas frescas e firmes dimensões”. Foi gari em Colômbia de Gabriel Garcia Marques.

Jamaica, tocou numa banda as músicas de Bob Marley. Cuba, foi contratado como leitor, lia contos para os trabalhadores de uma fábrica de charutos; lembrou-se do documentário Buena Vista Social Club (Wim Wenders, 1999), constatando que devia escorrer notas musicais nas veias do cubanos. México, se empregou num buffet de festa e saboreou os textos teóricos e a poesia de Octávio Paz, “através da noite urbana de pedra e seca/ o campo entra no meu quarto”.

Adentrou a terra imperialista diretamente por Nova Orleans, para pensar em Jazz, Bilie Holiday, Miles Davis, e até aprendeu a tocar sax. Como bilheteiro de salas de cinema, viu todos os filmes de Spike Lee. Banhou-se no Havaí, foi guardador de carros no Canadá e assistiu um filme forte e belo, Incêndios (Denis Villeneuve, 2010).

Rumou para África de navio descascando batatas. África é um mundo… conheceu a fome, guerras absurdas, o abandono deste continente e sentiu o quanto foi vilipendiado por tantos. Conheceu Mia Couto e a dança. O povo africano é um povo dançarino.

Percorreu de trem a Europa trabalhando num vagão restaurante. Identificou Balzac nas ruas de Paris e flertou com Madame Bovary, Flaubert. Portugal de Camões lhe trouxe a lembrança da revolução dos cravos, Capitães de Abril (Maria de Medeiros, 2000). Trabalhou nos bares da Espanha de Pedro Almodóvar e Paco de Lucía. Ah, os poetas ingleses, Jane Austen e o cineasta Ken Loach. E até avistou Hitchcock com seu cachorro na rua tentando não ser percebido. Enquanto tratava dos camelos no mundo árabe, absorveu Poemas Suspensos  traduzidos por Alberto Mussa. Passou por Israel e Palestina.  Prestou sua solidariedade ao povo palestino no viés da película Bubble (Eytan Fox, 2007). Passeou pelas ruas de Thomas Mann, Marx e Engels e tomou muita cerveja. Encantou-se com as mulheres curdas e das turcas e assistiu a trilogia de Semih Kaplanoglu, Ovo, Leite e Um Doce Olhar. Passou uns dias em Holanda, colheu tulipas, andou de bicicleta,  visitou monastérios e bebeu suas cervejas trapistas – foi indicação de sua amiga Bia. E, claro, fumou um baseado e foi ao museu de Van Gogh.

Aproveitou uma carona num Zepelim e rumou para Itália de Michelangelo, Alessandro Manzoni e Luchino Visconti. Pensando nas terras russas de Lenin e Tolstói e todo o Oriente conseguiu trabalho numa livraria. Numa tarde, um livro de Manoel de Barros caiu em suas mãos: “tudo que não invento é falso”. Sentiu seu coração apertar, uma sensação de tristeza, soluços se romperam… Era saudade. 

Depois de três anos, nove meses e vinte e quatro dias decidiu voltar. Tinha aprendido muita coisa, conhecido lugares distantes, trabalhos diferentes, culturas mil. Cada dia entendia menos as fronteiras. A beleza de cada povo limitada por linhas invisíveis e sem sentido. 

“É então chegado o entardecer dessa história” (Sérgio Sant’Anna). Otávio deixaria para o futuro o restante do mundo, outras viagens. Estava nutrido.

Voltou para o Brasil de alma leve e serena. Foi estudar música. Hoje é professor e rege uma orquestra de sopro de garotos e garotas da escola. Uma orquestra sem a rigidez dos adultos. Tem sim a alegria da meninada como as estrelas na água jogadas pelo sol.

Léo

13 comentários em “Otávio

  1. Octavio, um ser privilegiado como poucos na vida. Ele viajou pelo mundo das artes de cima a baixo. Para depois se dedicar ao que mais amava apesar de ter podido escolher várias carreiras com base na experiência adquirida nas viagens.
    Você me fez caminhar pelo mundo das letras, da música e da arte em geral, em uma história extraordinária
    Um abraço muito grande
    Manuel Angel

    Curtido por 1 pessoa

      1. Estevam, leu meus pensamentos? Tenho prazer em escrever, me desafiar, testar caminhos. Tenho prazer em ler o outro, prestar atenção no conteúdo, na forma, aprender… Mas, a troca é tão rara… que, às vezes, fico desanimada. Todos precisamos de alimento. Hoje você me ofereceu uma refeição inteira. Estava precisando, meu caro amigo. Que você tenha em dobro. Obrigada, inclusive, por me proporcionar o desabafo. Abraço bem apertado.

        Curtido por 1 pessoa

      2. Léo.. Vivemos num tempo de muito se mostrar… Mas, boa parte das pessoas, não conhece o significado de mutualidade… Ou então, acham que se bastam… Logo, apenas, buscam aplausos, sem se dar ao tempo de também ler, ver e aprender com o outro… O desabafo é mais do que justo.. 🌹

        Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s