Pietro

As montanhas ficavam onde o sol se quedava e esquecia no céu um vermelho tingido. Pietro gostava dessa hora. Café, cigarro, depois da lida, contemplar o adeus do dia.

O dia era feito de plantar, cuidar e ter a paciência do deus tempo para a colheita. De noite lia poemas, pois sabia que “os poetas, como os cegos, podem ver da escuridão” (Chico Buarque). Eram os poetas que lhe tomavam as mãos e o fazia passear pelos sentimentos do mundo. E ouvia os discos antigos só para relembrar seus pais dançando. De como eles se amavam, de como seus corpos se procuravam no rodopio do balé. Os três sorrindo numa plenitude, que Pietro ainda guarda em algum canto do corpo.

Ele mesmo, solitário. Nascera naquele lugar e pressentia que ali seria seu túmulo. Filho único. Pai morrera. Mãe que morreu de velhice mesmo.

Pietro cuidava de seu próprio sustento plantando e pescando. Banhava-se no rio, refletia no rio. Tinha um mundo particular e, talvez por isso, era abrutalhado por fora, na lida com as poucas pessoas que cruzava. Somente um atento perceberia que Pietro guardava uma certa pérola em si. Que o mundo externo não deixava aflorar.

Ia à cidade poucas vezes no mês. Vendia o excedente do que produzia. Comprava o pouco que lhe faltava. E passava pelo puteiro buscando a satisfação ligeira.

Quase me esqueço de mencionar Sansão e Pepita, dois cães negros e grandes. São eles que anunciam uma presença na noite fechada. Pietro passa a mão em sua carabina.

Do lado da estrada próxima vislumbra movimentos. Sansão avança. Pietro dá ordens. Vê surgir uma mulher de cabelos desalinhados e longos. Roupas rasgadas. Só um chinelo nos pés. Sinais de que fora espancada, o sangue seco denuncia. Não se sabe quem está mais assustado. Pietro afasta os cães. Tenta se aproximar. Ela tem os olhos de dor e transe. Ele tira o casaco e a cobre. Olha para todos os lados e a percebe só. 

Dentro da casa tenta limpar o sangue, mas ela sempre com gestos de defesa. Ele faz perguntas como o seu nome e de onde vem, só silêncio recebe. Traz um prato de sopa que ela devora com a fúria que só os famintos conhecem. Traz água e ela bebe como se tivesse andado no deserto. A leva para um quarto, pega suas próprias roupas e toalhas e deposita na cama. Ela espremida num canto. Pietro a manda deitar e sai do quarto fechando a porta. Sai lá fora, faz ronda e nada e nem ninguém. Acende um cigarro. Está intrigado e inquieto. Resolve ir dormir. Amanhã, veremos. 

Ao acordar espia a mulher que dorme profundamente. Ele sorve o café e vai para suas tarefas diárias, alertando Sansão e Pepita. Na hora do almoço, ela continua dormindo. No final da tarde a encontra encolhida num canto da cozinha. Ele não diz nada e apronta o jantar. Quando vai para perto e lhe oferece um prato, ela se espreme mais ainda junto à parede. Deixa o prato de comida próximo. Senta-se sozinho na mesa.

Fuma seu cigarro, faz a escrituração de seus negócios, procura ler. Uma irritação vai se elevando dentro dele. Sua solidão foi trincada. Da cozinha vem o barulho de pratos sendo lavados.

Na manhã seguinte ouve ruídos pela casa. Levanta-se rápido e topa com ela na cozinha. Café pronto e uma fornada de pão. Ele só olha a mesa posta e senta-se como vencido. No almoço, surpreende-se com o requinte dos pratos. Ele que só faz o trivial para matar a fome, se vê com iguarias de coisas simples. No entanto, antes de comer, ela  exige com os olhos que ele lave as mãos. Ele resmunga, mas lava. No fim da tarde acha o chão da sala escovado, flores nos vasos, e ela brincando, alegre como uma menina, com Sansão e Pepita. Pietro reclama baixo: o que ela está pensando entrando desse jeito por aqui?

Aos poucos o abrutalhado vai se rendendo. Enquanto limpa os peixes, ela faz bolo. E, sem perceber, ele colhe braçadas de amoras. Ele a ensina geleia, ela o ensina licor. E num dia de colheita pesada, lá está ela, pronta para a lida.

Pietro já não faz mais perguntas. Ela já faz parte do lugar. Ela só se assusta quando Pietro anuncia que irá até à cidade. Ele a vê com olhos aterrorizados. Não se preocupe, só vou para os negócios.

Assim a vida segue entre eles, nos afazeres e silêncios. Pietro sente que necessita dela. Numa noite, sentados no sofá, ele a olha e pergunta seu nome. Ela quieta. Ele se arrepende e dá boa noite. No quarto se aprontando para dormir, ela adentra e diz: meu nome era Marina, agora é Olívia. E vai se aproximando até alcançar sua boca. Pietro não dorme só esta noite. Ao acordar, seu coração está alegre como um passarinho.

Quando chega na cidade, depois das compras, vai tomar uma cerveja no bar da esquina. Um grandalhão embriagado está jogando no ar mil impropérios, maldizendo a esposa fugida. Jura acabar com a vida daquela vagabunda. Jura esfolar e surrá-la. Até terminar em choro compulsivo: Marina, Marina…

Pietro sorri. Paga a conta. Compra um lindo vestido, que pede para embrulhar para presente.

Esta noite Pietro convidará Olívia para dançar.

 

P.S. Tem um pouco de um filme que vi anos atrás, mas não me lembro do nome. Procurei e não o encontrei. Fica o registro. 

Léo

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