Antônia

“Ensaiei meu samba o ano inteiro…” Retalhos de Cetim, na voz de Benito de Paula.

 

Antônia olha mais uma vez o vestido deitado na cama. Valeu ter gasto suas economias… ele combina com seu tom de pele. Do lado, calcinha e sutiã, frutos de seus trabalhos de crochê nos finais de semana. E, finalmente, suas longas horas extras na fábrica, lhe renderam os bonitos sapatos. Sim, valia a pena, ele jurou que estaria lá. Lá é a festa na casa mais bonita do bairro. Sua mãe, que fazia as costuras da casa, conseguiu os convites. E ele jurou que estaria lá.

Sua irmã e amigas furtaram flores miúdas no jardim vizinho e enfeitaram seu penteado, cabelos presos em tranças. 

Antônia começa o ritual. Ele prometeu que estaria lá. Toma seu banho com muito cuidado com os cabelos. Ligeira maquiagem. Calcinha, sutiã, vestido em alças, sapatos… Ele estará lá.

Chega numa casa alegre, enfeitada com risos de convidados, música convidando para dançar, bebidas e comidas, casais, solitários, e Antônia vasculhando os cômodos… Ele jurou que estaria lá. Sobe escadas, desce, abre portas e mais portas, esbarra nos felizes, e sua busca interminável se vê num repente em angústias: não, ele não estava lá. Ele não veio.

Antônia, em seu vestido combinando com sua pele, seu bonito penteado e seus sapatos apertados, desmonta num banco solitário no jardim da casa em festa. Ele jurou que estaria lá, e ele não veio. 

Uma raiva de meses de preparo, um ódio pelas horas gastas num trabalho fabril, um amargo em crochê, vai transbordando dentro dela. Quase um choro… se não fosse numa casa toda em festa. Ele não veio. Ele não está. A tristeza surge devagarinho e vai tomando seu corpo todo. Uma dor silenciosa vai invadindo seu coração. Enfim, o cansaço toma conta. E seus pés doendo pelos sapatos novos. 

De mansinho outro se aproxima. Os olhos embaralhados de Antônia o reconhece de algum canto da fábrica. Ele se aproxima, ajoelhado tira seus sapatos, a pega no colo e a leva para seu quarto.

Desfaz o penteado derramando seus cabelos. Abre o zíper de seu vestido desarranjando as alças. O bonito vestido que combina com sua pele em desalinho num canto qualquer do quarto, acompanhado da calcinha e sutiã. 

O outro deita Antônia na cama.

Só restam as flores miúdas salpicadas nos lenções, como estrelas no céu.

Léo

2 comentários em “Antônia

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