Danilo

Danilo é lixeiro. Negro esguio pelo balé diário em caminhão de coleta. A rua é seu palco. Sua família numerosa veio do norte com as promessas do sul. Promessas que não se cumpriram. Seus pais fizeram o caminho de volta em frustração. Danilo resolveu ficar.

Morava na favela e lá teve contato com o Movimento Luta Popular. Aprendeu que eles eram lixo em uma sociedade doente. Lixo. Descarte. A lição era se unir. Assim fizeram. Ocuparam uma grande área tratada até então como especulação imobiliária. Tiveram que enfrentar a polícia diversas vezes como um exército improvisado: capacetes de motos transformados em elmos, tampa de lixo em escudo, paus e pedras como armas de ataque. As batalhas foram muitas. Contaram com a solidariedade de outras ocupações, de trabalhadores, e discutiram com a cidade se seria justo um terreno ficar à merce de lucro futuro enquanto tantos não tinham onde morar. Ganharam. Transformaram a área abandonada em lar. Cavaram poço, limparam tudo, plantaram horta e pomar. Neste aprendizado do valor do coletivo e da força da organização surgiu outra beleza: as habilidades individuais. Pessoas até então apáticas ressurgiram como artistas, renovando roupas descartadas, reformando velhos sofás, cadeiras, mesas. Costuravam, bordavam, cozinhavam. Iam transformando o lixo, o descartável, em objetos úteis, em obra de arte. Construíram um lar solidário.

Danilo gostava das engrenagens. Via poesia nos motores. Desmontar e montar. Uma cafeteira que jogavam fora, liquidificador, aparelho de som…

Danilo, negro esguio, bailarino das ruas, trabalhador de serviço essencial e mal remunerado, lutador pela sobrevivência, acabou de consertar um rádio. Está tocando Sonho Impossível, letra de Chico Buarque e Ruy Guerra, na voz de Maria Bethânia: “E o mundo vai ver uma flor/ brotar do impossível chão”.

Léo

11 comentários em “Danilo

  1. Esse sistema de produção é irracional. Danilo aprendeu a manejar as engrenagens. Ao desmontar, cavou uma cova pra enterrar parte desse lixo. Muitas covas serão necessárias.

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  2. Este é o olhar da sensibilidade poética… Sofia e Emmanuel quando escutam o caminhão da coleta descer a rua, correm a gritar na janela..,.Vão com Deus… Obrigada… Assim grita Sofia… Emmanuel balbucia: ão, ão, ão… de caminhão… Por enquanto, do alto de seus dois anos acha engraçado o caminhão e os homens atrás a correr…
    Lindo texto…

    Curtido por 1 pessoa

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