História social do Jazz

“O blues (…) não é todo o jazz, mas é o seu núcleo. (…). Como no mundo dos trabalhadores desorganizados e abatidos entre o qual esse maravilhoso idioma cresceu, o mundo do blues é trágico e impotente (…). E se permanece só” Eric J. Hobsbawm, História Social do Jazz.

Eric Hobsbawm, historiador e intelectual notável, se debruçou sobre a História Social do Jazz ( Editora Paz e Terra, RJ, 1990, tradução Angela Noronha). Sua pré-história, expansão, transformação, a música e seus instrumentos, a indústria, os músicos e seu público, discografia. Este verdadeiro raio x foi escrito em 1958. O autor é um apaixonado e como escreve bem, bonito.

“A história das artes não é uma única história, mas, em cada país, pelo menos duas: aquela das artes enquanto praticadas e usufruídas pela minoria rica, desocupada ou educada, e aquela das artes praticadas ou usufruídas pela massa de pessoas comuns” (p. 32). O jazz nasce no seio do povo pobre e foi suficientemente poderoso para entrar em território novo. De marginal é absorvido pela cultura oficial como uma forma de exotismo; se transforma; se divide entre os puros e os impuros da indústria; é arte popular, mito e sonho, e também protesto (p. 36). Um dos fenômenos mais notáveis do século XX.  

Luís Fernando Veríssimo, escritor e músico de jazz, escreve no prefácio que “a origem do jazz é bem mais sofisticada do que a plantação, é uma mistura em que formas musicais europeias têm quase tanta importância quanto a tradição africana, mas uma das suas raízes é o blues rural, cuja versão mais primitiva é o canto do escravo” (p. 9). O jazz nasce do povo pobre e negro num país racista. Bessie Smith, grande cantora de jazz, “morrendo porque lhe negaram socorro num hospital só para brancos” (p. 9). Tem origem no sul e se expande para o norte dos Estados Unidos e ganha o mundo. Hobsbawm diz que o termo jazz foi usado de forma genérica para a nova música de dança, do começo de 1900, “já que poucos sabiam que até então esse era o termo de gíria africana para relação sexual” (p. 71). 

A história dos músicos é uma das coisas que mais gostei. Bessie Smith tinha poder e feminilidade para hipnotizar o público, dominava o palco. “Não se lia jornais em nightclub onde ela se apresentasse. Ela só deixava você triste” (p. 110). Foi criada nas favelas, ficou só a vida toda, “uma grande artista trágica”, morreu em um acidente de carro. Duke Ellington criou uma das primeiras big bands, que “está, com relação às suas concorrentes, em uma posição análoga à de Shakespeare em relação ao resto dos dramaturgos (…). A sua preocupação foi mesclar as cores da orquestra e a expressão dos estados de espírito (…)” (p. 119-20). Louis Armstrong, “o maior jazzista de todos, em cuja arte a música de Nova Orleans alcança o auge e se ultrapassa (…) é a voz de seu povo falando por meio de um trompete” (p. 132). Charlie Parker, “o grande inquestionável gênio do jazz moderno”, “revolucionário da música”, “alma vulcânica”, e, como Armstrong, é originário do lumpemproletariado. Charles era “um nômade, um drogado, um infeliz, um andarilho sem raízes que morreu aos 35 anos, o Rimbaud do jazz moderno” (p. 137). Billie Holiday que “transformou o uso da voz humana associando-a ao microfone pessoal” (p. 20) e conseguiu “sucesso absoluto a partir de uma canção erudita, o poema de antilinchamento chamado Strange Fruit” (p. 111). E tantos outros, que se transformaram de trabalhadores simples, braçais, errantes, oprimidos, o “cego da esquina”, o negro “magrelo e descontraído que começou a dedilhar o violão (…). As suas roupas estavam em farrapos; seus pés saíam para fora dos sapatos…” (p. 215), em artistas da música. 

Com a indústria tomando conta do jazz veio a revolta. “Os músicos de jazz aprenderam a conviver com dois mundos diferentes: um no qual ganhavam a vida, e outro, após o horário normal de shows, no qual tocavam para agradar a si mesmos — o mundo das jam sessions“. Uma espécie de laboratório experimental, um sonho dos músicos que queriam ganhar a vida e tocar o que quisessem. Outros músicos apareciam, se reuniam, improvisavam. Como diz um músico citado na p. 94: “Aqueles eram tempos bastante difíceis e, no entanto, os caras ainda achavam tempo para estudar (…). As jam sessions eram a nossa diversão, a nossa válvula de escape”.

Se eu encontrasse o gênio da lâmpada, um dos meus pedidos seria passear por essas jam sessions… e ver uma apresentação de Billie Holiday. Porque “blues é blues, explicou ele. ‘É isso que é o blues, compreende?” (p. 71).

Para Bia, minha filha, que me resgatou este livro. 

Léo

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