Glauco e Geisa

Enquanto exercito versos…

 

Não consigo me lembrar como conheci Glauco. Acho que em 1980. O que me lembro muito bem é que andávamos pelas madrugadas na cidade de Bauru, interior de São Paulo. E conversávamos muito. Sobre tudo. 

Glauco era alto, triste, muito triste. “Sou triste, quase um bicho triste” (Caetano Veloso, Mãe). Solitário. 

No quarto dele, em ato solene, me apresentou Nana Caymmi, vinil. E me contava o que sentia com a voz dela, a melancolia do canto. Nana ficou comigo até hoje.

Anos depois, eu morando em São Paulo, capital, em frente à Câmara Municipal, num ato reivindicando não me lembro o quê, recebi a notícia de sua morte. Foi meu primeiro amigo que perdi para a Aids. Ainda trago no corpo a dor. O ódio por uma doença recheada de preconceitos e moralismos. Por quê alguém tão bonito tinha que ser ceifado?

Moro em Curitiba faz dez anos. Nesta cidade fria de clima e pessoas, conheci várias. Delas, uma grande amiga, Geisa.

Geisa, assim como Glauco, conversamos muito. Também caminhamos pelas ruas desta cidade. Largo da Ordem, bares mil, shows, cinema, filmes e mais filmes… Dançamos em plena rua. Damos muita risada. Falamos bobagens do dia a dia, viagens espaciais, literatura, a dor do viver. Como nos conhecemos há muito, tivemos tempo até de brigar, e logo…. ela canta para mim, ao meu pedido, “Botecos abrindo e a gente rindo (…) Aventurar por toda cidade…” (Aventura, Eduardo Dusek). 

Ela é alta, esguia, me ensinou os cabelos brancos, gosta de dançar. É corpo, e o espírito voa.

Como outros amigos que já apresentei por aqui, o caro leitor, a leitora atenta, deve ter percebido o quanto gosto de conversar. Tudo é matéria. O voo gentil da borboleta, galáxias exuberantes, piada ouvida em supermercado, a raiva de um comum que é absurdo, e por aí vai… trocar ideia, percepções, saborear um pequeno gesto. Falar muito. Ouvir muito. E gargalhar.

Tenho quase 59 anos e sempre encontro alguém para manter este fio condutor da minha vida: Glauco, Geisa. Amigos.

E, assim, exercito versos…

Léo

21 comentários em “Glauco e Geisa

  1. Acredito que goste tanto de falar e ouvir quanto de escrever. Esses sentidos são leves e profundos. E se completam. E gosta tanto de pessoas! Além de exercitar versos, exercita a troca. E é tão bom estar ao seu lado…

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  2. Quando eu morava em Curitiba, achava que nunca ia morar em lugar mais frio, de clima e gente como você bem disse. Hoje sei que tudo é possível, risos, e que amigos nos aquecem em qualquer canto (mesmo quando o que temos sejam só suas lembranças)…

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  3. eu me atualizando na leitura do blog da amiga e encontro meu nome, declarado vivo.
    sus! os assunto, os mundo, as aventuras.
    obrigada, Léo!
    repito: quero te encontrar, sempre. seja em outras dimensões, seja em outras vidas, em qualquer rumo ou plano, para desafiarmos a caretice renitente.
    somos “a sereia que dança, a destemida Iara, água e folha da Amazônia”.
    as risadas que damos juntas – elas só já mereceriam história própria, potentes na inocência, rodopios curativos, coesão de cores, asas.
    assunte aí, que ensinei te mais coisa, visse?
    HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA
    te amo, demais!

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