Uma turma

“Enquanto eles capitalizam a realidade, eu socializo meus sonhos” Sérgio Vaz.

 

A turma brotou de um grupo de jovens de uma organização clandestina. Não espalhe, eles tramavam a revolução. Enquanto ela não vinha, faziam longas caminhadas pela noite. Encontravam-se numa praça, faziam fogueira, garrafão de vinho barato passando de mão em mão. As conversas giravam pelo cotidiano, um mundo futuro, sonhos e desejos. Tramavam. Depois a volta na madrugada, outra longa caminhada.

Muitas vezes se encontravam num bar com nome de montanha. O garçom era um senhor de terno branco, gravata borboleta, longos bigodes e uma cabeleira branca. Sorriso vasto. O Barão, era chamado. A turma ocupava mesas, bebida barata, risos e mais risos. Discutiam até uma música, Vital e sua Moto, Paralamas Do Sucesso. Os apelidos reinavam. Cabelos esvoaçantes, calça jeans, camiseta, tênis, numa espécie de uniforme rebelde.

Outras vezes, ocupavam a sala da casa de um deles. Ouviam Yes, Pink Floyd… deixavam a TV ligada e sem som… uns desenhavam, outros conversavam. Acampavam também aos arredores do mar, mata, cachoeira. Outras longas caminhadas. 

Um, tinha olhos de sonho. Outro, vivia dizendo “quebrei a bússola”. Tinha aquele que achava que a vida era muito louca. Uma, falando em revolução e socialismo. Um, gostava de desenhar, era chamado de Vampiro, talvez pela música do Jorge Mautner. Alguns, sobre comunidades alternativas, vida em comum. Aquele, sobre música e instrumento. O violão sempre acompanhava a turma. Cantavam. Queriam uma vida diferente de seus pais.

O tempo aconteceu. O de olhos de sonho tem um programa alternativo numa rádio. Tem o que faz pipas gigantes e coloridas. Um, trabalha numa biblioteca e começará a ser professor. Uma é escritora. Um é músico. O desenhista é cenógrafo. Um casal que se formou na turma, vive num sítio, plantações orgânicas, lareira, rodeado de netos.

Outras histórias… Outras turmas. A revolução – de certa forma – ecoou… não tão grandiosa, é certo, porém nos gestos do dia a dia…

O tempo só não conseguiu afastar a turma de seus corações e mentes. Na tapeçaria do tempo bordaram a palavra amizade.

Léo

13 comentários em “Uma turma

  1. Não tem como não adentrar nesta viagem e deixar de vestir um dos personagens, Leo! “Na tapeçaria do tempo bordaram a palavra amizade”… que lindo meu caro amigo! Eu viajei no tempo agora, e o frescor da juventude ainda paira no ar… e nós leitores somos grato por isto! Parabéns… adorei! Um grande abraço

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  2. Minha querida amiga! Obrigada por essas doces recordações. Lindo texto, vi cada um no seu contexto como se fosse um sonho. Um sonho lindo. Bjosss

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