Romance, vulgo.

“E talvez esse seja um dos mais geniais e antigos paradoxos da criatividade humana: a disseminação de verdades por meio da invenção de ficções”.

José Alcoba, artigo: Todas as Faces da Criatividade, El País, 15.02.20.

 

A literatura parece um território livre, porém como está demarcado a questão de classe social. O romance, como exemplo, recebeu duros golpes no Ocidente e Oriente. Reflexões partindo de dois artigos, Da oralidade à escrita – Reflexões antropológicas sobre o ato de narrar, Jack Goody; e Historiografia e ficção na hierarquia cultural chinesa, Henry Zhao (A Cultura do Romance, Franco Moretti [org.], tradução Denise Bottmann, São Paulo, Cosac Naify, 2009). 

Podemos iniciar a discussão pensando sobre a distinção entre a narrativa sobre o real e narrativa de ficção. A distinção existe. A mentira tem uma intenção. Temos que entender se alguém está nos enganando ou se está contando uma história inventada. Orwell observou que o próprio conceito de verdade objetiva está desaparecendo do mundo. Mentiras tornam-se a história (p. 37).

No Ocidente houve uma cisão entre mito e romance; entre quem conta e o seu público. Jack Goody afirma que esta cisão é representada pelo advento da escrita (p. 49). Que a palavra escrita tomou forma no privado. Não há mais a comunicação direta com o público e isso nos resguarda de eventuais interrupções. O ato de escrever estabelece automaticamente uma distância  de quem conta e o seu público. Há tempo para refletir, reorganizar uma narrativa. E houve também uma contraposição entre realidade e ficção. Difundiu-se a ideia de que ficção levasse à loucura. Sintoma do bovarismo de Flaubert ou Dom Quixote. No século XVIII aos leitores homens eram reservados as narrativas sobre o real, verdade. Os textos de ficção eram para as mulheres. 

Os primeiros exemplos de ficção grega, romana e egípcia, se dirigiram a um público popular, sabendo que o conjunto dos leitores era muito restrito e elitista (p. 52). Ficção não era uma coisa séria. No Renascimento e com a invenção da escrita, o romance adotou uma estratégia de legitimação diferente: pretendia-se fiel à realidade da vida. A narrativa oscilava entre verdade e ficção. A hostilidade para com a ficção era grande por parte das autoridades culturais, reservando-a aos elementos “marginais” como as mulheres (p. 55). A leitura distrai da realidade. As mulheres eram desencaminhadas e enganadas.

No Japão, o antigo romance foi hostilizado, sobretudo por parte dos estudiosos confucianos, por causa do “seu caráter de invenção e pela parte central destinadas às relações amorosas” (p. 59). Confúcio não falava “daquilo que é anormal, sobrenatural, mágico ou sinistro”. No âmbito do islã e do judaísmo, as objeções parecem ter sido ainda mais profundas. No primeiro caso, afirmou-se uma clara distinção entre verdade histórica e mitos religiosos, por um lado, e narrativa de imaginação, por outro (p. 62). 

Na China, desde seus primórdios, sua cultura caracterizou-se por uma estrutura piramidal baseada em uma rígida hierarquia dos gêneros do discurso (p. 69). No topo, os clássicos confucianos e as histórias dinásticas oficiais eram autoridades quase absolutas. O romance era subalterno, subcultural. Enquanto os clássicos eram acessíveis aos leitores especializados – dada a extrema dificuldade da língua – o romance se valia de um estilo fácil, grosseiro, mais compreensível aos setores em desvantagem cultural e com menor grau de alfabetização. Os historiadores oficiais o consideravam uma vergonha para a cultura, porém era tolerado na prática. Em 1602, o imperador publicou um decreto que impedia o uso de “palavras de ficção” (p. 82). E no ano de 1709 foi ordenado a proibição por atentar à decência dos costumes e dos modos (p. 81). O romance em vulgar não estava distante de atividades como a prostituição (p. 80).

Aristóteles na Poética – referência da estética ocidental – expressou com palavras simples que a história é o que aconteceu e a literatura é o que poderia ter acontecido (p. 89). O romance cresceu nas classes subalternas, apontou a imaginação como um recurso humano, disseminando verdades por meio da invenção. Foi destinado aos marginais, às mulheres. Acusado de atentar aos bons costumes, de levar à loucura, de fuga do presente, de distrair da realidade.

O romance, vulgo, sobreviveu. A humanidade faz a tua história e também a imagina.

Léo

7 comentários em “Romance, vulgo.

  1. A discussão sobre o romance é bastante viva por Salman Rushdie. Se não estou em erro, ele tb citou Orwell.
    Particularmente, nunca tinha pensando em abordar o romance e sua ligação com classes sociais. Imagino ser uma discussão bastante ampla. Fiquei agora imaginando dentro da literatura brasileira. Lembrei de Gilberto Freire.

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    1. Os artigos do meu post dão uma dimensão histórica dessa forma literária, o romance. Golpeado no Ocidente e Oriente por ser originário das classes, chamadas de, subalternas, os pobres. E pela contraposição entre verdade e ficção. E, sim, gera muitas reflexões e debates.

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  2. Obrigada pelas informações, Léo. Nunca tinha feito essa relação da literatura com classes sociais e gênero. Dá bastante pano para a manga a análise sobre as mulheres terem sido estimuladas a lerem ficção/histórias e os homens textos “reais”.

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  3. Excepcional este post. Sucinto, formativo, informativo… Os dois últimos grandes autores aos quais me dediquei e tenho dedicado mais tempo para lê-los, são Zigmunt Bauman e Yuval Harari. Ambos abordam estas questões sobre a verdade e a ficção. O primeiro mais do ponto de vista filosófico sem deixar de lado outras abordagens como a sociológica e o segundo mais do ponto de vista da história sem deixar de lado abordagens como a sociorreligiosa e político-econômica… Obrigado Léo, por este post excepcionalmente excepcional…

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    1. Estes autores que cita não os conheço.
      Resgate histórico é sempre importante pra gente perceber como as coisas mudam.
      Teu comentário me animou muito. Muito obrigada.
      Agradeço também a leitura.
      Abraço fraterno.

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  4. Zigmunt Bauman é autor entre outros de Amor Líquido, Tempos Líquidos e Modernidade Liquida (filósofo ucraniano, falecido em 2016). Harari é um ‘jovem’ historiador israelita, está com uns 44 anos. Autor de Sapiens, Homo Deus e 21 lições para o século 21. Este último livro uma leitura crucial para os dias atuais e o futuro próximo…

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