Tomás

“Quem foi que botou a chuva
dentro dos meus olhos?”  Mariana Aydar.

 

Tomás é poeta. Ama as palavras, borboletas e nuvens. E ama Laura, garota de programa. Conhece-a desde tempos de colégio. De longe. De soslaio, reparou em seus gestos, sorriso faceiro, cabelos rebeldes, soltos e livres. Bonita que só. Sentiu seu cheiro e imagina seu toque. Só escrevendo poesia sentia algum alívio. Ela experiente, ele tímido. Ela cobrando as horas, ele só tinha versos para lhe dar.

Tomás trabalha numa quitanda. Entre alcachofras, almeirões e rabanetes, desenha sonetos invisíveis. Acaricia figos, morde pêssegos, e Laura latejando em suas pálpebras. O dia escorrendo entre folhas, legumes e frutos, na espera do final de tarde.

Ao sair do trabalho, seus passos conhecem o percurso: depara-se com a casa de Laura. Numa janela escancarada, em cortinas desfeitas, numa porta entreaberta, é só percebê-la e seu coração aos pulos no peito. Quer tirá-la para dançar. Andar de mãos entrelaçadas, falar bobagens, e – quem sabe – conhecer sua boca.

Seus dias e noites seguem assim. E poemas e mais poemas para conter um choro de desespero por algo inalcançável.

Tomás, em atitude ousada num dia de pagamento, bate na porta. Laura dá de cara com seus olhos. Ele sem saber o que fazer, lhe estende a mão com o dinheiro. Ela o puxa para dentro, e ele nem se lembra como foi que começou. Percorre todas as distâncias de seu corpo. Ocupa sua caverna. Invade sua bunda. Lambe, chupa, roça seus pelos. E só quando ela goza pela segunda vez, é que seu jato quente se esparrama feito labaredas.

Dorme um sono profundo. Acorda num escuro e só. 

Veste-se. Empurra a porta. A noite já vem alta. Ele, num sossego, procura o maço de cigarros no bolso. Tomás acha seu dinheiro, intacto.

Léo

10 comentários em “Tomás

  1. Sua história me traz de volta às minhas memórias da minha juventude. Como estudante da Universidade (ano 72). Eu saí com minha namorada. Fomos ao apartamento de um amigo. Nós nos beijamos apaixonadamente na cama. Ela foi ao banheiro e saiu nua. Peguei o lençol e cobri o corpo dela. Eu disse que tinha que esperar. Pouco a pouco … por que eu fiz isso? Porque ele acreditava no amor de maneira diferente.
    Laura deu um amor a Tomás fora do seu trabalho habitual. Para ela, era amor incondicional. Um que às vezes parece amor verdadeiro, incluindo a paixão transbordante que une dois corpos com um desejo ardente.
    Me fascina quando você faz suas palavras chegarem ao fundo del coração. Bom para você Leo e sua admirável prosa.
    Com o amor de sempre
    Manuel

    Curtido por 1 pessoa

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