A moça tecelã

“Não espere encontrar numa canção
Nada além do sonho, nada além de uma ilusão
Talvez, quem sabe, a verdade
A infinita vontade de arrancar
De dentro da noite
A barra clara do dia”
Nada mais que a paixão, Egberto Gismonti, trecho.

 

Alguns teóricos julgam o conto A Moça Tecelã, Marina Colassanti, o ideal como narrativa. O enredo é tecido perfeitamente com o prólogo, o conflito e seu clímax, e o desfecho. E o desfecho é um novo prólogo transformado: a moça continua tecelã, porém fruto de uma experiência, está refigurada.

Comecemos pelo título. A moça é o sujeito, é quem pensa e faz. Sua ação pensada é o seu trabalho, tecelã. Não é um trabalho alienado, dividido em manual e intelectual. Ela pensa e tece, tece e pensa, e dona de suas ferramentas de trabalho, o tear e seus fios. Ela e a natureza formam um todo: “delicado traço cor de luz, que ela ia passando entre os fios estendidos, enquanto lá fora a claridade da manhã desenhava o horizonte”. A moça não tem nome. Ela é a humanidade, o ser genérico, o símbolo. É qualquer uma de nós. É todas nós.

Enquanto a personagem tece o narrador tece o texto – palavra que, etimologicamente, deriva do termo latino textum, significando tecido, entrelaçamento de uma multiplicidade de fios (Salvatore D’Onófrio). A moça tece o dia, “linha clara, para começar o dia”, a hora a hora, a noite. “Nada lhe faltava. Na hora da fome tecia um lindo peixe, com cuidados de escamas. E eis que o peixe estava na mesa, pronto para ser comido”.

(Caros leitores, terei que escrever sobre o conto todo. Só assim cabem minhas indagações e meu desejo. Não pensem que perdem, o conto é tão bonito e tem um ritmo e uma simplicidade, que só as grandes autoras são capazes).

“Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer”. Mas, uma boa trama tem lá seus conflitos. Nesta completude de humana e natureza, “ela própria trouxe o tempo em que se sentiu sozinha”. A moça, “com capricho de quem tenta uma coisa nunca conhecida” tece um “marido”, que “foi entrando na sua vida”.

Pobre moça. Tece um senhor, um antagonista. Enquanto ela pensa em filhos, ele em riqueza. “Porque, descoberto o poder do tear, em nada mais pensou a não ser nas coisas todas que ele poderia dar”. O homem, também sem nome, esquece-se da moça, sujeito; só tem memória do tear, do poder do tear, objeto. Entrelaça-se nos fios da aparência, perde-se no mundo da mercadoria. Ela é o ser. Ele é o ter. Ele exige, ordena, adverte: palácio, pátio, escadarias, cavalos… Ela “tecia e entristecia”.

“E tecendo (…) pensou como seria bom estar sozinha de novo”. Assim como teceu e entristeceu, desfez. Desteceu o homem num movimento exato ao inverso. E foi destecendo que teceu seu desfecho: “Então, como se ouvisse a chegada do sol, a moça escolheu linha clara…”.

Eu, como leitora, teço indagações. Por que a tecelã tece um dono? Por que uma mulher com tamanha unidade com a natureza, não teceu um par e sim um tirano? Por que a mulher livre é só?

Talvez porque fosse sua primeira tentativa. Mesmo assim, ao ser decepcionada, desteceu.

E aqui meu desejo: a da moça tecelã que se encontra com um moço tecelão. E juntos, “linha clara, para começar o dia”.

Léo  

5 comentários em “A moça tecelã

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