“Somente os solitários
sabem
como brincar…”  Zé.

Zé era escrivão de polícia nos idos dos anos oitenta, século passado. Gostava de David Bowie. Sua musa era Sylvia Kristel, atriz holandesa do filme O Amante de Lady Chatterley (1981, dirigido por Just Jaeckin). De dia, delegacia, depoimentos, máquina de escrever, histórias trágicas e corriqueiras. De noite, desenho em lápis de cor, poemas, música, e muita, muita maconha.

Zé morava só e sem laços familiares. Dificilmente saia, mais para trabalhar. Tinha uma rede de amigos que apareciam. Em rodas esfumaçadas e trilhas sonoras, conversavam sobre o mundo, universo, outros mundos. Sonhavam. Discutiam arte, poema, música. E trivialidades de uma vida de bairro pobre. Nada trivial eram os desejos. Tudo rodeado por paredes de madeira forradas de desenhos de seres imaginários, pessoas caricatas, pequenos contos. A poesia reinava pelos cômodos. Tudo fruto das madrugadas.

Da maconha separava as sementes. Eram plantadas no vaso da mesa do delegado. “Mas, Zé, saberão que é você que as plantou”. Zé – calmamente e com um sorriso travesso – responde que o vaso é do delegado: “O que eu tenho com isso?”. Travessuras sob um governo de botas e fardas.

A última notícia é que Zé tinha uma companheira. Não era mais só. Ela fazia purê de batatas regado de especiarias.

Tiveram um bebê. Criança fruto dessa vida travessa. 

Léo

6 comentários em “

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s