João

estava tão atordoado que quase esqueceu de si mesmo

 

João era um homem bonito. Sempre encontrava tempo para malhar na academia. Casado e com uma filha, tocava seu dia a dia no comum. Gerente de uma grande agência bancária, ia cumprindo metas e metas, vendendo ilusões aqui e endividamentos acolá. Sabe como é, tinha que garantir seu emprego.

As mulheres vinham aos montes. João tinha aprimorado técnicas de conquistas. Era casado, mas homem é homem… Por que se contentar com uma, com tantas por aí? Em casa, sexo trivial, assuntos domésticos, o fazer religiosamente suas tarefas de homem casado. Assim se achava no direito das escapadelas. Nada sério, claro. Trepadas rápidas e ligeiras no carro, quarto de motel, nas sombras de uma esquina, banheiros de bar. Tudo sem deixar marcas. No dia seguinte, filha na escola, metas absurdas, almoço com clientes, academia… e no dia seguinte, a monotonia de uma vida corriqueira. Ainda bem que perdera as contas de quantas mulheres tinha traçado. Sempre tinha uma história para contar aos amigos cobiçosos.

João era esperto. Nunca perdia uma chance: cliente do banco, colegas de trabalho, da academia, e os bares que frequentava uma vez por semana num acordo com sua esposa. João era talentoso, desenvolvia papeis conforme a cena. Para umas, bastava olhares ligeiros. Outras, mais trabalho, tinha que se portar de confidente, ouvir suas reclamações, histórias. Tinha uma habilidade incrível em se fazer crer ouvinte, embora seus pensamentos morasse no instante da trepada. Até que gostava das que davam mais trabalho, ia se aperfeiçoando em sua carreira de ator. 

Numa festa em que foi sozinho, viu uma mulher mais velha, de roupas simples, olhos azuis, cheia de anéis. Uma beleza diferente. Entre taças e pratos, garrafas de vinho, ela serena. João se aproximou como se levado por um encanto. Marina falava de outros pensamentos. Sorriso largo numa voz forte e sonora como canto de sereia. Questionava o trivial, fazia gracejo do comum, e via na banalidade algo de grandioso, que João de repente se pegou prestando atenção. Pediu seu telefone, percebeu que aquela conquista teria o sabor do tempo. Ela lhe deu seu e-mail, gostava da escrita.

Longas mensagens eram suas pontes. João se viu lendo coisas sobre política, mundos sonhados, confidências de subterrâneos, memórias entrelaçadas com desejos. João se viu escrevendo sobre angústias que nem se lembrava que tinha. Achava-se confortável naquele ambiente online, sem o olho no olho e, ao mesmo tempo, numa proximidade absurda. João desconhecia a intimidade mesmo tendo tanta companhia física. Esta história não contava para os amigos. Nesta história o sexo era somente a possibilidade pairando no ar.

Muitas vezes demorava para responder tentando se desvencilhar da teia. Questionava-se sobre este tempo perdido em conversas que não lhe rendiam nada. Jogava seu jogo de sempre, usava suas armas de sedução, tentava se enveredar por caminhos diversos, ostentava máscaras exigidas neste carrossel. Marina sempre serena. João atordoado, quase sem rumo.

Seu dia a dia ficou trincado. Suas noites, sem sono. Seus amigos, sem graça. 

Numa madrugada de uma metrópole quase adormecida, alguns pássaros ensaiam seus cantos. E um homem chora copiosamente. Marina mandou uma última mensagem: não lhe escreveria mais. 

Léo

5 comentários em “João

  1. Seus enredos são como teias… Quando se começa a ler, não há como parar.. João Matiazzi (nome de meu avô paterno, aí do Paraná- Londrina. Marido da Leonídia- lembra dela?). João Estevam, meu pai, ‘roubou’ minha mãe- Clara aí no Paraná… vieram pra Minas ha quase 49 anos). Nenhum dos dois Joões (que eu saiba fizeram tais peripécias.. rsrsrsrsrs

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