Úrsula

“Que tudo é desse mundo/ Surpresa também” Cruel, na voz de Luiz Melodia.

 

Nos anos de 1975 e 1981 a 84, o Festival de Águas Claras aconteceu. Anos de chumbo. Numa fazenda, no meio do pasto, na cidade pequena de Iacanga, nos arredores de Bauru, SP. A ditadura militar tinha seus anos contados. Em 75, Ernesto Geisel, ditadura bruta. Nos anos oitenta, o presidente era João Figueredo, aquele que preferia o cheiro do cavalo ao do povo. Anistia. Logo o país seria sacudido por um movimento Diretas Já, o Brasil se vestiria de amarelo. Mas Úrsula ainda não sabia disso. O ar era de querer mudanças, movimento hippie, amor livre, paz e amor, maconha…

A imprensa trata com desdém o festival. Ninguém acredita nele. Woodstock brasileiro? Mas Leivinha, seus irmãos e amigos, vão montando o palco. Vendem 12.000 ingressos e aparecem mais de 70.000 pessoas. A juventude, ávida do novo. E vão desfilando Paulinho Boca de Cantor, Raul Seixas, Grupo Rumo, Egberto Gismonti, Hermeto Pascal, Itamar Assunção, Almir Sater, Jards Macalé, Luiz Gonzaga e Gonzaguinha, Diana Pequeno, Anastácia. Walter Franco: “é uma dor canalha/ é um grito que se espalha”. A diversidade . A sociedade alternativa. E pasmem, João Gilberto. O mesmo que desistira de tantos palcos por falta de um bom som. Chove. A estrada encharcada. Levam os músicos de trator. E João Gilberto está lá. Canta acompanhado pelo público, o dia amanhecendo… Alguém diz: o impossível aconteceu.

Úrsula, ano de 1983. Morava numa kitnet em São Paulo, com mais três garotas. Desempregada e sem dinheiro. Fazia parte de uma turma linda de amigos. Dentre eles, José, que organizou um ônibus para o festival. Vendeu os assentos e a convidou, assim iria de graça. Sem barraca, os amigos ofereceram lugar. Sem ingresso, burlar os arames farpados. A viagem, deliciosa. No Festival, Úrsula acompanha Grupo Rumo, Raul Seixas bêbado, Egberto Gismonti tocando ao entardecer. Na madrugada embriagante, ela e José numa barraca, no meio do impossível que estava acontecendo. E nem sabiam disso. Começa uma parte significativa de sua vida. Mas Úrsula nem sabia… Alguns anos depois, seus filhos começam suas próprias histórias…

Úrsula, 2019. Tempos sombrios. Assiste o documentário O Barato de Iacanga, dirigido por Thiago Mattar (2019). Úrsula sorri. O improvável pode acontecer!

Léo

 

2 comentários em “Úrsula

  1. Eu estava aqui a pensar em Úrsula, mas umas panelas bateram na janela… Figueiredo preferia o cheiro de cavalos ao do povo? Bolsonaro diz preferir o cheiro do povo… Me desculpe, a viajem do comentário, mas os filhos de Úrsula devem saber que cavalo é o próprio Bozo.. Agora ouço Almir Sater… A música alivia nossas almas bem como a poesia.. É possível separar as duas?

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    1. Os filhos de Úrsula são revolucionários…. Eu gosto muito dos cavalos…. O Bolsonaro é um humano genocida, mata os pobres… Desde que me mudei para Curitiba, assisti quatro shows do Almir Sater… ele me dá tranquilidade, serenidade. Música, poesia, arte, nossos alimentos. Cuide-se Estevam, temos que mudar o rumo do mundo. Abraço pra ti, mineiro.

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